Crónica de Alice Vieira | Paixão à chuva

Paixão à chuva Alice Vieira   Toda a gente sabe que, em alturas de temporal, as coisas tomam sempre outras proporções. Neste momento acabei de fechar todas as portas e janelas, sobretudo estas aqui da sala onde vejo televisão. Acontece que estas minhas janelas dão para o telhado do prédio. E raramente me lembro de que elas existem,  porque o telhado de um prédio de sete andares não é propriamente um sítio onde as pessoas passeiem. Por isso há bocado, estava eu a re-ver e a re-ouvir as maravilhas do…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (6º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração (6º. Episódio) Os olhos de Benvinda brilhavam como costumam brilhar os olhos das mães quando falam dos filhos. Seja por alegria, por saudade, por desgosto, brilham. Foi quando arranjei trabalho como “concierge” que tivemos direito a casa, pequena, mas uma casa, foi uma vida melhor, foi, depois daqueles dois anos tão maus, mas tão maus, que até me dói falar deles. Às vezes ainda tenho sonhos ruins de voltar a morar no contentor, de ver as crianças…

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Crónica de Alice Vieira | Ele há cada palavra…

Ele há cada palavra… Alice Vieira   Se depender de mim, os correios nunca irão à falência e hão-de ter sempre vida longa e próspera. Não há-de haver muita gente, concordo, que, nestes tempos websummíticos  escrevam cartas e postais todos os dias. Mas MESMO todos os dias. E muitos. Ainda não há muito tempo, Novembro era o mês em que eu inundava as duas estações de que “gasto” em Lisboa, com cartas e encomendas para amigos que viviam em terras  para  lá do sol posto. Das primeiras vezes, o funcionário…

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Crónica de Alexandre Honrado | A ordem é sempre estranha

A ordem é sempre estranha Sentado a uma mesa, com uma tarefa preciosa: pensar. Se alguém tivesse lido Virgílio Ferreira, notaria a contradição. Há uma diferença em que se insere a interminável discussão entre os sistemas do pensar – e a indiscutibilidade daquele que é o nosso (sim, o nosso pensar, o nosso pensamento, o eu imperfeito que nos move).  Por isso, trocarei o verbo PENSAR pelo substantivo masculino alheamento. Isso! Isso mesmo! Reformulo. Estava eu a executar uma tarefa preciosa: a alhear-me. Repare-se que é na abstração que se…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (5.º Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração (5º. Episódio)   – Tempo muito bera, senhora, muito bera mesmo. Perdidos no mundo, era como a gente se sentia. O melhor que arranjámos foi um contentor de obras para fazer de casa, muito calor, muito frio ali se passou. O trabalho apareceu, os “chantiers” eram muitos e eles gostavam dos portugueses que trabalhavam bem e refilavam pouco. Moirinhos de trabalho, é o que éramos. Eu arranjei umas senhoras onde fazer a “ménage”, passei a chamar-me Maria,…

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Crónica de Alice Vieira | Dia de finados

 Dia de finados Alice Vieira   As tias que me criaram tinham todas o culto exacerbado da morte. Não ligavam muito aos vivos—mas ninguém lhes levava a palma no choro pelos mortos. Podiam estar anos sem ver uma pessoa mas, no dia do seu enterro, não largavam o caixão até ele descer à terra, sendo sempre muito acarinhadas pelos presentes que, diante do seu choro convulsivo, as tomavam por familiares muito próximas do defunto quando, na maior parte das vezes, não passavam de simples conhecimentos das termas de Caldelas. Uma…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (4.º Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração 4º. Episódio – Tiveram pena de nós. A gente não falava a língua deles nem eles a nossa, mas a gente entendeu-se, ainda hoje estou para saber como. Trouxeram-nos pão e queijo e água com picos, lembro-me como se fosse hoje e já lá vão tantos anos. A senhora que nos trouxe o pão perguntou-me se eu tinha filhos pequenos, fez assim com a mão à altura deles e a outra mão no peito, do lado coração.…

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Crónica de Alice Vieira | O cheiro a fumo

O cheiro a fumo Alice Vieira   Hoje—e até daqui a muito tempo—todas as ruas cheiram a fumo. Hoje—e até daqui a muito tempo—todas as palavras cheiram a  fumo. Hoje—e até daqui a muito tempo – tudo cheira a fumo. De repente, o mesmo cheiro que entrava pela minha casa, no princípio daquele mês de Setembro de 1966. Eu tinha pouco mais de 20 anos, e nessa altura vivia em Rio de Mouro, uma pequena aldeia perto de Sintra. E sempre que chegava o verão, chegavam os incêndios. Quer dizer…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (3º Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração 3º. Episódio Quantos dias foram os da viagem por essa Espanha fora é o que Benvinda não sabe contar porque não foram dias de vida verdadeira, tão somente dias de passagem por terras ora ardentes ora gélidas, a fugirem dos povoados, quantas vezes por chão mal pisado, como se fosse caminho. Benvinda, Bento, assim se chama o seu homem, e os outros. Talvez fossem uns dez, apinhados nos bancos de tábua, na parte da carrinha que devia…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Jogatanas

Jogatanas   Que nunca se calem as vozes que nos alertam para o que se tenta esconder. Muitas verdades varridas para fora do nosso conhecimento. O que não querem que nós saibamos. Só se ouvem as vozes dos donos da coisa. O crime que não magoa fisicamente. Uma carambola num bilhar às três tabelas. As bolas de marfim. O giz azul. O pano verde. O taco. Uma manga de alpaca. A rabeca que nos acrescenta o braço. Um jogo que não queríamos jogar. O marcador a andar. A Mágoa. Uma…

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