Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – A Dona Rosária

  De ontem e de hoje – A Dona Rosária por Licínia Quitério   Na loja da dona Rosária havia tudo, cabia tudo, nada se limpava, nada se fiava, nada tinha peso certo, nada tinha preço certo. Na montra da loja da dona Rosária havia um amontoado de objectos, grandes, pequenos, médios, de caixas, mais ou menos amolgadas, de moscas mortas de tédio, lá pelo meio. A loja onde reinava, absoluta, a dona Rosária, era um armazém de sacos, de tulhas. No balcão que sobrava dos objectos, dos sacos, das…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Há que resistir

  De ontem e de hoje – Há que resistir por Licínia Quitério – Há que resistir! – Respondia invariavelmente a quem lhe atirava o habitual – Como vai isso?-*-oikk Firmava a bengala no chão, a evidenciar algumas sobras de vitalidade, abria quanto podia os olhos esverdeados, agora enevoados pela poeira do muito tempo vivido, e repetia, com a voz já a quebrar na dentadura que oscilava: – Há que resistir! Se o ouvinte era “da cor”, puxava conversa: – Isto está cada vez pior. E andaram aqueles homens a…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Ir a Lisboa

  De ontem e de hoje – Ir a Lisboa por Licínia Quitério Iam a Lisboa visitar as velhas amigas que há muitos anos, tantos quanto somavam três gerações bem contadas, emigraram para a cidade, levadas pelos pais, em busca, como todos os deslocados deste mundo, de melhor fortuna. Moravam numa grande cave que servia de habitação de porteiro, com muitos compartimentos e um longuíssimo corredor. Só menos de metade da casa recebia luz do exterior, através de pequenas janelas basculantes, abertas e fechadas com o auxílio de uma comprida…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Coisas velhas

  De ontem e de hoje – Coisas velhas por Licínia Quitério Nas casas sempre habitam coisas velhas, antigas, gastas, feridas pelo tempo, pela desatenção, preteridas pelas novas recém-chegadas, com outro brilho, outra utilidade, diferentes no desenho e na cor. Nas mudanças de casa, nas mudanças de gente, escaparam à devora de usurários e ao lugar dos lixos. Foram-lhes concedidos sótãos esconsos, gavetas, arcas de memórias. Quando chegaram até mim, procurei-lhes as feridas, tratei-as como pude, fui espreitando as marcas que me contassem histórias de outro tempo, de outra gente.…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – O PBX

  De ontem e de hoje – O PBX por Licínia Quitério A miúda gostava das tardes quentes de verão na aldeia quando a tia Arminda, encostada a porta da rua da saleta, limpava com um lencinho as pérolas de suor da testa e do decote e se sentava frente ao aparelho do PBX para tirar cavilhas, meter cavilhas, baixar patilhas, levantar patilhas, com o olhinho atento às luzinhas que acendiam ou apagavam. E a voz era doce, delicada, ao dizer, Boa tarde Torres, Dê-me troncas, Ó Torres dê-me o…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Falência

  De ontem e de hoje – Falência por Licínia Quitério Com voz seca e bem timbrada, a juíza proferiu, nos termos da lei, a sentença: FALÊNCIA. Logo fechou os livros, tirou os óculos e arredou ligeiramente a cadeira para melhor se levantar. Se fosse num filme, teria surgido a palavra FIM sobreposta a uma última imagem definitivamente paralisada. A assistência engoliu por breves segundos a palavra sentenciadora, há tanto esperada quanto temida, que sobre eles acabava de desabar. Os homens e mulheres, de cabeleiras maioritariamente acinzentadas, levantaram-se. Lentamente, sem…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – O banquinho

  De ontem e de hoje – O banquinho por Licínia Quitério Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Dona Sara

  De ontem e de hoje – Dona Sara por Licínia Quitério A senhora tem os rituais que os oitenta e tantos anos lhe exigem para poder abrir os dias e pensar, estou só mas estou viva, graças a Deus. Aguenta-a aquele mau génio que os outros referem quando dizem, sempre foi uma peste, e desfiam pecados passados de dona Sara. Sabem lá eles do que falam, de quem falam, só ela sabe de si, de quanto amou, quanto odiou, quanto chorou, quanto lutou para tratar dos velhos lá de…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – A Aparição

  A Aparição por Licínia Quitério   A gente vai ali e já vem, o que tem a fazer não é coisa de levar mais de uma hora e, depois de tudo feito, senta-se um bocado a tomar um café, a cumprimentar este e aquela, a sossegar, a olhar a rua, sossegada rua de bairro sossegado de sossegada terra. Do lado de lá, envolta no sossego, a aparição de um homem velho, alto, muito magro, de barbas brancas a excederem a máscara que a pandemia trouxe. Era o que nos…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Os filhos

  Os filhos por Licínia Quitério   A cabeleireira tem um filho que não quer comer. Não quer comer ou não quer que a mãe queira que ele coma. Só quer o tablet que o tio lhe ofereceu para ver os bonecos tão feios, mas de que ele gosta muito. É tão engraçado ver como ele já sabe mexer naquilo com os dedinhos gordinhos a deslizarem para cá para lá e os bonecos horríveis a fazerem caretas, a gritarem. O que vale é que ele lá vai mastigando enquanto joga…

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