Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Notícias do Inverno

Licínia Quitério

Notícias do Invernopor Licínia Quitério Na penumbra da sala, veio-lhe à memória o primeiro nome dele. E logo os apelidos, três. O rosto magro, os olhos a trespassarem-lhe o corpo, os dedos esguios num toque suave na cintura, a fazerem-na estremecer, a voz ao ouvido, enquanto dançavam, numa saborosa clandestinidade. Foi há tanto tempo. Passaram décadas, cada um seguiu a sua vida, raras vezes tornaram a ver-se, um telefonema por uma morte, outro por outra morte. Foram somando mortes e filhos e netos. Da última vez que se viram, numa…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Notícias do Inverno

Licínia Quitério

Notícias do Invernopor Licínia Quitério Venho dar-te notícias do Inverno por aqui. Presumo que para ti continuem a não ter grande importância as estações do ano, já que passas por elas sem as nomeares, nem as aplaudires, nem as exaltares. Adivinho que continuas com o botão da camisa aberto, aquele junto ao pescoço, só um, que no Verão abres dois e assim contentas as pessoas que se admiram de não mudares de vestimenta. Eu não, eu continuo a ser a rapariga que tem muito frio, muito calor, que fala do…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – A roleta russa

Licínia Quitério

A roleta russapor Licínia Quitério Pedi-lhe que tapasse o rosto antes de entrar. Ele pôs a máscara e descalçou os sapatos. Como no Japão, disse, e a expressão desanuviou a tristeza que tentava apoderar-se da sala, de nós. Disse-lhe para se sentar e eu sentei-me no sofá mais afastado do dele. Conversámos muito, como dantes, e eu soube que ele se ria pelo som  que atravessava a máscara e pelos movimentos desacertados do corpo. Falámos de amigos, de amigos de amigos, com quem não voltámos a estar. Passaram a viver…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – É DO TALHO?

Licínia Quitério

É DO TALHO?por Licínia Quitério É do talho? Não, minha senhora, é engano. Mas eu queria ligar para o talho. Pois, mas enganou-se no número. Passe bem. É do talho? Não, não é do talho, a senhora ligou de novo para o número errado. Do outro lado, a mesma voz de mulher que me pareceu ser de idade avançada. Oitenta e cinco, segundo me disse minutos depois. Ela lamenta-se, ai, mas o que é que eu fiz, mas não é do talho, oh desculpe, a senhora donde é. Fiquei logo…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – A MULHER

Licínia Quitério

A MULHERpor Licínia Quitério A mulher diz, sente-se, coma, aqui come-se o que vem para a mesa, quando é que cortas esse cabelo. A mulher não pergunta se queremos mais, mas percebe-se que podemos servir-nos as vezes que quisermos. A mulher não diz, obrigada, mas a gente sabe que gosta de mimos. A mulher ameaça, olha que levas, mas a mão suspende o gesto, a saber-se obedecida. A mulher tem opinião, declara-a, defende-a, com a fala grossa e o corpo adiantado. A mulher gosta de ser ouvida a desfiar a…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Sempre aparece alguém

Licínia Quitério

Sempre aparece alguémpor Licínia Quitério   Sempre aparece alguém, como ontem, que me quer contar uma história, a sua história, a história que não é a sua, mas que quer mostrar. Uma pessoa sem uma história digna de ser contada não chega a ser uma pessoa que valha a pena ser ouvida, mesmo que seja em faz de conta, como eu faço, a espreitar as entrelinhas, no que não diz mas eu oiço, no que desdiz e eu não oiço. Mudou muito aquela mulher que ontem veio sentar-se à minha…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Os dias do cerco

Licínia Quitério

Os dias do cercopor Licínia Quitério   Vivemos os dias cercados de interrogações, as velhas e as novas interrogações. Calhou-nos um tempo em que tudo se transformou, se mudou. Perderam-se as certezas, perdeu-se a confiança. Ávidos de liberdade, aquela que só entendemos quando nos fecharam, queremos acreditar que passou, vai passar, e atirámo-nos aos dias de sol, de praia, de gente. Forjámos teorias conspirativas que nos explicassem o que não nos é dado entender. Temos a tal espada a pique a um palmo da cabeça, reclamamos um dia, dois dias,…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – O Spectrum

Licínia Quitério

O Spectrumpor Licínia Quitério   Foi o primeiro computador a entrar cá em casa. Duas caixas pequenas, com seu ar misterioso. Duma delas saiu o dito ZX Spectrum, da outra uma impressora da falecida Timex, mais uns carregadores que pesavam dez vezes mais que alguns dos actuais. O espectro solar ali estava, pintado no canto inferior direito, as cores do arco-íris a alegrarem o negro, a assinalarem o nome de baptismo da máquina. Na casa ouvia-se já falar de programação e programadores, fosse lá isso o que fosse para os…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Conversa de velhos

Licínia Quitério

Conversa de velhospor Licínia Quitério   Agora tem tempo, não é como dantes, sempre numa corrida, trabalho, trabalho, trabalho, anos, muitos anos de dureza e pouco ganho. Já quase a despedir-se para a reforma, o corpo dorido, nenhuma esperança em melhor sorte, a preparar-se para os últimos anos da viagem, quando deus quiser que me leve, que já vi tudo o que há para ver, aconteceu o milagre, que ainda acontecem, segundo ele afirma de prova provada. A mulher muito o atenazava por causa daquela despesa todas as semanas, esperas…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – A senhora C.

Licínia Quitério

A senhora C.por Licínia Quitério   Conheço-a desde sempre, desde que eu era criança e ela uma jovem mulher, de gargalhadas frequentes e sonoras, loira, pobre, muito pobre, no tempo de haver muitos pobres, de vários e pesados trabalhos, de alguns filhos, minha vizinha, que o barraco onde vivia ficava num beco a abrir na minha rua. Décadas me levaram para outra terra e à senhora C. para outro beco a abrir noutra rua. Quando regressei ao meu lugar primeiro, encontrei-a. Ficámos contentes, rimos ambas, eu com um sorriso largo,…

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