Folhetim | Desvairadas Gentes (1º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério FOLHETIM – DESVAIRADAS GENTES (1º. Episódio) – Traz lugar? – pergunta o homúnculo por detrás do balcão, por debaixo dos capachos e dos mata-moscas pendentes do tecto, entalado entre os grandes frascos de rebuçados e a pirâmide multicolor dos alguidares de plástico. Ao silêncio de incompreensão do cliente, repete, aparentemente agastado: – Traz lugar ou precisa de um saco? É que temos poucos. Assim se fala na Drogaria Moderna, de João Cipriano (Herd.os), Lda, mais conhecida no bairro pelo Tem-Tudo. Fica numa dobra de velha…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (16º. e último Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   FOLHETIM – A História de Benvinda (16º. e último Episódio) Benvinda também fala daquela vez em que a madame lhe gritou e lhe disse que voltasse a limpar tudo e lhe chamou sâle de portugaise e ela se virou, a enfrentou, lhe atirou com o esfregão à cara e, perante o espanto da outra, lhe respondeu em bom português, limpe você sua cabra francesa. Escusado será dizer que voltou para casa a chorar de raiva, e lá foi procurar trabalho, desta vez um…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (15º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   FOLHETIM – A História de Benvinda (15º. Episódio) E agora? Agora estamos a chegar ao fim e depois, quando a gente já estiver a dar contas a Deus, ninguém vai querer saber disto para nada. Os filhos? Ai, os filhos. Benvinda suspira muito quando fala dos filhos. Raramente refere o Basílio e se o cita é de raspão, a fugir das minhas interrogações, nada de pormenores, o filho foi um monte de preocupações, de desgostos, Basílio perdido na cidade, atraído pela escória de…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (14º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   FOLHETIM – A História de Benvinda (14º. Episódio) Ai senhora nem me fale dessas viagens, a gente já entrávamos no carro esfalfados, arrumar aquela bagagem toda, até ao colo trazíamos os tachos. Do que me lembro é de apanharmos uma caloraça a atravessar a Espanha e de eu agoniar e vazar tudo borda fora do carro, que nas “auto-routes” não se pode parar e o meu Bento a gritar, ó mulher aguenta-te até sairmos da “auto-route” mas quem é que diz que eu…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (13º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   FOLHETIM – A História de Benvinda (13º. Episódio) Onde eu já vou, o que eu lhe fui contar, coisas minhas iguais às de tanta gente, quando o que eu queria dizer, e quase me esquecia, é que a casa ficou para nós e muito penámos para fazer dela uma casa com condições, há lá que chegue a um tecto que seja nosso, para isso a gente faz toda a espécie de sacrifícios. Aproximava-se o mês de Agosto e tudo era reboliço na pequena…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (12º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   FOHETIM – A História de Benvinda (12º. Episódio)   Havia ainda o irmão, o Basílio, rapaz tão bonito como apreciador de boa vida, miúdas, farras e o mais que viesse que não fossem livros, uma chatice, isso era com a irmã, a das manias de vir a ser doutora. Ainda experimentou trabalhar no “chantier” onde o pai agora era “maître”, mas não lhe agradou, aquilo era bom para os pieds noirs que não tinham ambições andava a ver se arranjava coisa melhor, tinha…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (11º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   FOLHETIM – A História de Benvinda (11º. Episódio)   Não era fácil de fazer amizades, a Berta. Ainda não largara aquele seu jeito de olhar desconfiado, de presa farejando o caçador. Metiam-lhe medo os homens, depois que um a agarrou num canto escuso dos corredores do metro e a apalpou e só a largou quando ela o mordeu com tanta força no nariz que ele desatou a fugir com as mãos a tapar o rosto e a rosnar, “sale putain, sale putain”. Entretanto…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (10º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração (10º. Episódio) Sempre boa aluna, a minha Berta, quem a queria ver era agarrada a um livro. Como a gente não tinha dinheiro para os comprar, ela passava muitas horas nas bibliotecas. Se visse agora a casa dela em Saint-Germain, paredes forradas de estantes cheias de livros, eu até acho que é dinheiro mal empregado, mas ela fica furiosa e diz que a vida sem livros é um deserto, talvez, não sei, coisas que ela diz e…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (9º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração (9º. Episódio) Chegou por fim o tempo de Berta deixar de chorar por via da zombaria das coleguinhas, e perceber que tinha um caminho para as fazer calar. Estudou afincadamente, sobressaiu aos olhos atentos de uma professora que lhe entendeu o esforço, lhe admirou as capacidades de aprendizagem, a protegeu sem que ela desse por isso. Terminou o ano com as segundas melhores notas da turma, e logo a teimosia de Berta a levou a informar os…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (8º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração (8º. Episódio) Só chegámos a Paris no dia seguinte à noitinha, os comboios não eram rápidos como os de agora, a canalha dormiu o tempo quase todo, a gente olhava para eles e nem queria acreditar que estávamos juntos. Dali em diante tudo ia ser melhor, era o que pensávamos. A gente tem que esperar que as coisas boas aconteçam, senão pode endoidecer, é o que lhe digo, e ficar como esse tontinho do Bicas que anda…

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