Folhetim | Casa de Hóspedes (2º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério CASA DE HÓSPEDES (2º. Episódio) Quim Zé não voltou ao clube, e Dona Júlia ficou na casa grande, vazia, sem censuras sobre os pés dos flamingos, sem tantas coisas que lhe encheram os dias, os anos. Passou o tempo do silêncio, o tempo do choro, o tempo de se fechar, tempos outros, todos diferentes, que diferente ela também se tornara. Uma manhã, ao acordar, o silêncio da casa a pesar, a alongar-se, a enrolar-se-lhe no pescoço, Dona Júlia, num salto brusco, levantou-se da cama,…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (1º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério CASA DE HÓSPEDES (1º. Episódio) O prédio era do tempo em que os inquilinos ali ficavam a morar por toda a vida, em andares de muitas e pequenas divisões, com um ou dois quartos interiores, por vezes tristes espaços, de fraquíssima luz e arejamento. Porque o problema da habitação era uma das mais sérias preocupações dos lisboetas das classes menos afortunadas, em muitos andares viviam várias gerações, quando não amigos próximos, numa partilha de espaços, quezílias e amores. Nem sempre as relações de vizinhança…

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Folhetim | Desvairadas gentes (9º. E último episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES  (9º. E último episódio) Quando a Felismina viu o marido, de cabelo desalinhado, a assomar à fresta da porta da casa daquela perdida, o sangue subiu-lhe todinho à cabeça, trepou o lance de escadas a dois e dois, entrou em casa, foi direita à gaveta grande do armário, pegou na faca grande de desossar e gritou, gritou, desalmadamente, enquanto esfaqueava, repetidas vezes, a porta fechada à pressa, por trás da qual tremiam, como varas enquanto verdes, um barbeiro baixinho e bem cheiroso…

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Folhetim | Desvairadas gentes (8º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (8º. Episódio) O barbeiro era baixote, como já foi dito, mas a Elvina, quando se cruzava com ele na escada estreita, achava graça à maneira saltitante como descia os degraus. E gostava daquele cheiro fresco a “after-shave” acabado de aplicar. A bem dizer, até gostava da voz dele: – Faça favor, vizinha, a dar-lhe prioridade na descida. Andava um pouco irritadiça. Se o marido lho fazia notar, respingava: – Manias tuas. Irritadiça, eu? E ia até à janela, a procurar alguma frescura…

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Folhetim | Desvairadas gentes (7º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (7º. Episódio) Ela era uma mulher ruiva, com cabelos naturalmente encaracolados e revoltos, a lembrar labaredas, com a pele pejada de sardas a mancharem o fundo leitoso. As ancas possantes, os seios ainda firmes, os artelhos finos de cavalo de raça, davam-lhe um ar picante que provocava olhares gulosos dos homens do bairro, pouco habituados a mulheres como a Elvina do Marreco. Como resumia o malandreco do empregadito do CAFUNÉ: Apanhá-la… Davam passeios ao Domingo, de braço dado, pelos jardins da Cidade…

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Folhetim | Desvairadas gentes (6º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Desvairadas Gentes (6º. Episódio) Parecia mesmo tirada de um filme português, daqueles que a gente não se cansa de ver e em que se percebe tudo. Nada como os de agora que são só p’ra doutores e mesmo esses duvido que não adormeçam pelo meio. (Isto dizia a Dona Rosa, admiradora indefectível da Dona Beatriz Costa e a quem o Senhorio, só de pensar nele, provocava subidas bruscas de tensão.) Quando um cano se rompia e vertia águas para o andar inferior, as discussões…

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Folhetim | Muitas e desvairadas gentes (5º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério MUITAS E DESVAIRADAS GENTES (5º. Episódio) – Que Deus nos defenda! – dizia, enquanto beijava o Bentinho Doutor Sousa Martins que sempre trazia pendurado no fio de prata, juntamente com o crucifixo que a prima Maria do Sacramento lhe tinha trazido da excursão à Terra Santa, promovida pelo senhor Padre Francisco, um santo homem que, por um preço insignificante, lhes servira de guia e ainda por cima tinha ajudado a transportar ao hospital a Maria das Poças que em má hora torcera um artelho…

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Folhetim | Desvairadas Gentes (4º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (4º. Episódio) Preço bem discutido. – Por esse dinheiro compro eu três ali abaixo. – Venha cá, senhora, que eu não engano ninguém. Pela minha saúde que prefiro não ganhar dinheiro nenhum e estrear-me hoje com uma freguesa tão simpática. – Deixe-se de cantigas e guarde lá essas gabarolices para a sua mulher. – Prontos, freguesa, não se zangue que o cigano só quer servir bem o cliente. E gritava: – Olha as arcas de macacaúba! Venham ver que pr’a semana não…

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Folhetim | Desvairadas Gentes (3º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (3º. Episódio) O Zeca com um pé na calçada, a Dona Amália com o avental dobrado em guardanapo a esconder algumas nódoas. O senhor António assomou à porta, porém sem transpor o degrau, não fosse algum malandreco aproveitar a distracção e, num abrir e fechar de olhos, botar a mão no alheio. E os gritos, agora já palavras perceptíveis: – Eu tiro-te as tripas, malandro, meu porco sujo. Pela saúde dos meus filhos, juro que a matrafona há-de ficar marcada para o…

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Folhetim | Desvairadas Gentes (2º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério  DESVAIRADAS GENTES (2º. Episódio) Já há algum tempo que ele não parava de lhe pedir ajuda para comprar gasolina para a moto. Tinha deixado de a arrumar ali à beira do passeio, alegando ter encontrado estacionamento bem mais seguro. – Onde? – Ali atrás! E alongava o braço, num movimento impreciso, a fungar. – Sempre constipado. E magrito. Uma ralação, este miúdo. Só o Zeca, filho da Dona Antónia da tabacaria, senhora que falava duas oitavas acima, de modo a fazer-se ouvir ao longo…

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