Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Joanetes

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Joanetespor Licínia Quitério   A Dona Cândida tinha joanetes. Era para onde eu mais olhava quando ela vinha fazer a sua visita anual e ficava uns dias em casa da minha avó. A Dona Cândida era solteira, solteirona, diga-se, que já ia avançada na idade, uma velha muito velha, no meu entender de criança. Vivia para os sobrinhos que eram as pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais bem educadas deste mundo. Filhos da sua irmã e do seu cunhado, só poderiam ter saído assim,…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – O Carlos

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – O Carlospor Licínia Quitério   Aparece aos Sábados, o dia da folga, presumo, de trabalho precário, de salário pequenino. Isto a avaliar pela qualidade da vestimenta, dos sapatos, pelo saco dos pertences. Tudo nela é sinal de escassez de meios, de solidão de fim de semana. Do saco vão saindo outros sacos, um deles com pedaços de pão que ela vai mordiscando. Do outro, espreitam fios de lãs de várias cores com que compõe, em gestos hábeis, flores de crochet. Imagino que daqui a…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Verão 75

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Verão 75por Licínia Quitério   Um homem-menino chegado da soleira de outro tempo abriu um sorriso nos olhos de Clarisse. Não se lembra do nome dele. Dirá que se chama Fernando. Tinha fome e tinha medo e levaram-no ao encontro de outras fomes, de outros medos. Era uma vez uma aldeia perdida, lá no fundo, passado que fosse o leito seco do ribeiro… Era? Clarisse no declive da serra, rodeada de canções de luta e sobressalto, levando nos braços a maior esperança do mundo.…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Ferramentas

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Ferramentaspor Licínia Quitério   Gosto de ferramentas, daquelas palpáveis, com nomes de martelos, chaves, parafusos, e mais mil, e tentar fazer uso delas nas reparações das pequenas avarias que vão surgindo nas casas. Vem este gosto de quando acompanhava o meu Pai nos consertos caseiros, nas inovações de que ele era capaz, e me ensinava nomes e serventias, dando-me mesmo o cargo de ajudante – dá cá a chave inglesa, dá cá duas porcas sextavadas, vês este parafuso, tem cabeça de tremoço. E eu,…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Os anos

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Os anospor Licínia Quitério   Morreu, o cão. Nos seus anos de ser cão, quase duas décadas deviam ter passado. Agora a dona não traz as duas voltas da trela acrescentadas às pulseiras várias e coloridas. Tem mais simetria no andar, mais disponibilidade do braço para ajeitar com elegância o chapéu que faz mudar com as estações do ano. Os olhos, escandalosamente azuis, não dizem dos seus anos de dona. Na falta do velho cão que lhe alentava o passo, adianta-se ainda mais ao…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Mister Browne

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Mister Brownepor Licínia Quitério   Por razões profissionais, conheci em tempos um americano típico,  Mister Browne, húngaro de nascimento, a viver em Los Angeles, um homenzarrão dos seus sessenta anos, de grandes bigodes grisalhos, que me aparecia de lencinho colorido ao pescoço e não raro com um chapelão de cow-boy. Tratava-me por Maria, eu sempre lhe dizia que não era Maria e ele, imperturbável, continuava, Yes, Maria, tal como tratava todas as jovens portuguesas que, como eu, eram empregadas e tinham patrão. Visitava a…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Ciúmes

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Ciúmespor Licínia Quitério   “Quem me dera no tempo de saltar os muros para ir roubar ameixas, ainda verdes, de fugir dos cães, dos cães que guardavam as árvores, os quintais, que ladravam e às vezes mordiam a quem trazia, a quem levava, a quem estava e não devia estar ali, no seu entender de cães.” Isto dizia ele, uma das mãos na bengala, a outra a passar o lenço pelo olhos, azulados agora, e tão incompetentes que mal guardavam a memória do azul,…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Um casal tranquilo

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Um casal tranquilopor Licínia Quitério   Chegaram e sentaram-se, frente a frente, à mesa do café. Os filhos estão na escola, ele teve folga do serviço, ela, por agora, está desempregada. O dia está bonito, ela até estreou os óculos escuros que parecem Ray-Ban. O telemóvel dele a tocar, ele a atender “Estou sim, diz coisas, pá”. Ela tira o seu aparelho do saco e, de dedo indicador em riste, dá início à tarefa de ver os e-mails, de correr o Facebook, um like…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – O progresso

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – O progressopor Licínia Quitério   Há muito tempo não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: – Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – A infância

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – A infânciapor Licínia Quitério   Pela janela da infância o mundo entrava. O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste, com um carrapito preso por ganchos de tartaruga. O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca. O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois. Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que…

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