Folhetim | Casa de Hóspedes (6º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Casa de Hóspedes (6º. Episódio) O Sr. Mário era o hóspede mais antigo lá de casa. O mais antigo e também o mais velho. Foi ali parar quando o casamento de décadas não aguentou mais. Ao falar da mulher, tinha tremores nas mãos e gestos desordenados. Se era raiva, ou ódio, ou desamor, só ele saberia. Indiferença é que não era, a avaliar pela firmeza com que apertava e tornava a apertar o nó fininho da gravata. Ainda cumpria o seu trabalho diário no…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (5º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Casa de Hóspedes (5º. Episódio) Sempre a fungar, a D. Adélia, um tique que lhe ficou desde que aquele malandro se negou a casar, mesmo nas vésperas da boda. Tudo pronto. Convites feitos. Sala alugada para o repasto, hora aprazada com o padre. O fato da noiva, lindo, de um branco virgem, mais virgem do que ela que se entregara àquele pedaço de homem, moreno e peludo, com uns olhos de botar fogo. Os papéis já estavam a correr, qual era o problema, eram…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (4º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Casa de Hóspedes (4º. Episódio) Dona Júlia, filha única, escola primária acabada, foi aprender costura com a Ermelinda Nabeira, uma jóia de mulher, umas mãos de fada, que nada recebia por ensinar, como não acontecia com outra gente aproveitadora do trabalho de crianças, e que ainda lhe dava um lanchinho, pão com toucinho ou azeitonas. Casou-se cedo, Dona Júlia, teve tudo, como dizia, com os olhos humedecidos, à D. Laura do primeiro andar, tudo, D. Laura, amor, compreensão, conforto, nada de luxos, mas vida…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (3º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério CASA DE HÓSPEDES (3º. Episódio) Quim Zé não voltou ao clube, e a Dona Júlia ficou na casa grande, vazia, sem censuras sobre os pés dos flamingos, sem tantas coisas que lhe encheram os dias, os anos. Passou o tempo do silêncio, o tempo do choro, o tempo de se fechar, tempos outros, todos diferentes, que diferente ela também se tornara. Uma manhã, ao acordar, o silêncio da casa a pesar, a alongar-se, a enrolar-se-lhe no pescoço, Dona Júlia, num salto brusco, levantou-se da…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (2º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério CASA DE HÓSPEDES (2º. Episódio) Quim Zé não voltou ao clube, e Dona Júlia ficou na casa grande, vazia, sem censuras sobre os pés dos flamingos, sem tantas coisas que lhe encheram os dias, os anos. Passou o tempo do silêncio, o tempo do choro, o tempo de se fechar, tempos outros, todos diferentes, que diferente ela também se tornara. Uma manhã, ao acordar, o silêncio da casa a pesar, a alongar-se, a enrolar-se-lhe no pescoço, Dona Júlia, num salto brusco, levantou-se da cama,…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (1º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério CASA DE HÓSPEDES (1º. Episódio) O prédio era do tempo em que os inquilinos ali ficavam a morar por toda a vida, em andares de muitas e pequenas divisões, com um ou dois quartos interiores, por vezes tristes espaços, de fraquíssima luz e arejamento. Porque o problema da habitação era uma das mais sérias preocupações dos lisboetas das classes menos afortunadas, em muitos andares viviam várias gerações, quando não amigos próximos, numa partilha de espaços, quezílias e amores. Nem sempre as relações de vizinhança…

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Folhetim | Desvairadas gentes (9º. E último episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES  (9º. E último episódio) Quando a Felismina viu o marido, de cabelo desalinhado, a assomar à fresta da porta da casa daquela perdida, o sangue subiu-lhe todinho à cabeça, trepou o lance de escadas a dois e dois, entrou em casa, foi direita à gaveta grande do armário, pegou na faca grande de desossar e gritou, gritou, desalmadamente, enquanto esfaqueava, repetidas vezes, a porta fechada à pressa, por trás da qual tremiam, como varas enquanto verdes, um barbeiro baixinho e bem cheiroso…

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Folhetim | Desvairadas gentes (8º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (8º. Episódio) O barbeiro era baixote, como já foi dito, mas a Elvina, quando se cruzava com ele na escada estreita, achava graça à maneira saltitante como descia os degraus. E gostava daquele cheiro fresco a “after-shave” acabado de aplicar. A bem dizer, até gostava da voz dele: – Faça favor, vizinha, a dar-lhe prioridade na descida. Andava um pouco irritadiça. Se o marido lho fazia notar, respingava: – Manias tuas. Irritadiça, eu? E ia até à janela, a procurar alguma frescura…

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Folhetim | Desvairadas gentes (7º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (7º. Episódio) Ela era uma mulher ruiva, com cabelos naturalmente encaracolados e revoltos, a lembrar labaredas, com a pele pejada de sardas a mancharem o fundo leitoso. As ancas possantes, os seios ainda firmes, os artelhos finos de cavalo de raça, davam-lhe um ar picante que provocava olhares gulosos dos homens do bairro, pouco habituados a mulheres como a Elvina do Marreco. Como resumia o malandreco do empregadito do CAFUNÉ: Apanhá-la… Davam passeios ao Domingo, de braço dado, pelos jardins da Cidade…

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Folhetim | Desvairadas gentes (6º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Desvairadas Gentes (6º. Episódio) Parecia mesmo tirada de um filme português, daqueles que a gente não se cansa de ver e em que se percebe tudo. Nada como os de agora que são só p’ra doutores e mesmo esses duvido que não adormeçam pelo meio. (Isto dizia a Dona Rosa, admiradora indefectível da Dona Beatriz Costa e a quem o Senhorio, só de pensar nele, provocava subidas bruscas de tensão.) Quando um cano se rompia e vertia águas para o andar inferior, as discussões…

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