EDITORIAL

A difícil arte de sobreviver no concelho de Mafra

 

Este município informou, em nota de imprensa, que o Edifício Municipal Boavista, localizado no Largo da Boavista, entrou na segunda-feira em funcionamento…” diz a Lusa. O município é o de Mafra, o mesmo que impediu a reportagem do Jornal de Mafra, barrando-nos a entrada no edifício que é objeto desta notícia.

O recurso à Lusa (agência de notícias nacional), com recusa de acesso a um OCS do próprio concelho, tem um claro significado político e cultural, e esse passa claramente pela promoção nacional que serve politicamente o Presidente dos Autarcas Social Democratas, por acaso, também Presidente da Câmara Municipal de Mafra.

No local, o próprio presidente Hélder Silva nos disse, que não estávamos autorizados a entrar no edifício para cobrir a inauguração, alegando que isso se ficaria a dever a razões relacionadas com a pandemia por covid-19.

[imagem:CMM]
A imagem (publicada nas redes sociais da própria câmara) mostra mais de 20 pessoas no mesmo espaço, utilizando máscaras, como não podia deixar de ser, máscaras que nós próprios, na altura em que a visita decorria, utilizávamos no exterior do edifício. Tendo em conta o número de pessoas que se reuniam no interior do edifício durante a inauguração, o barramento que nos foi imposto, não se fundou, seguramente, em razões de caráter sanitário.
O barramento a que fomos sujeitos, para encurtar razões, funda-se no facto de a Câmara de Mafra “desconhecer” o que são conferências de imprensa, “desconhecer” o que são notas de imprensa ou comunicados enviados à imprensa local, funda-se no facto de raramente responder a emails por nós enviados, e no facto de o seu presidente sempre ter recusado os pedidos de entrevista que lhe temos endereçado. A atual gestão da Câmara de Mafra não gosta de responder a perguntas, não gosta de ser sujeita ao escrutínio da imprensa (o mesmo escrutínio a que se sujeitam os políticos nacionais). A atual gestão da Câmara de Mafra sente-se confortável com a imprensa local que tem e assim quer continuar.

Em termos conjunturais, acresce que o senhor presidente da câmara de Mafra é também presidente dos Autarcas Social Democratas. Vistas bem as coisas, os OCS de Mafra pouco pesam, alguns deles orgulham-se mesmo de não fazerem ondas, mostrando-se mais preocupados com as festarolas, o futebol local e as inaugurações, tendo se criado no concelho a ideia de que a imprensa local é amiga do poder ou é simplesmente desinteressada. Por aqui, um jornal que investiga e que faz perguntas, é olhado como um ser extraterrestre isolado, que mais tarde ou mais cedo acabará por sucumbir ao peso da cortina de ferro que sobre ele se lançou (parecerá lancinante e teatral, mas corresponde à realidade). Conjunturalmente, o que importa mesmo é a promoção nacional e essa faz-se enviando notas de imprensa (afinal a câmara de Mafra conhece a ferramenta) à Lusa, impedindo a presença dos OCS locais no ato de inauguração do edifício.

Por seu lado, toda a oposição do concelho, que se mantém oposição desde 1979, faz aquilo que, aparentemente, melhor sabe fazer, assobia para o lado. Sem surpresas. Embora, com a postura de investigação e de indagação jornalística que assumimos desde que fundámos o Jornal de Mafra, tenhamos, logo desde o início, sido apontados como pertencendo à oposição, “pagos pela oposição“, mas a realidade é bem diferente. Nunca esquecerei as palavras de uma personalidade política local, que na altura fazia comentário político no JM, que ao ouvir-me queixar das dificuldades de acesso à informação e das condições desfavoráveis que aqui encontramos, relativamente à concorrência, afirmou que nós éramos uns “queixinhas“. Não há aqui queixumes, há cidadania, um exercício que também compete à imprensa e um conceito muito na moda, mas pouco exercitado.

As queixas do JM relativamente aos graves problemas, que desde sempre temos sentido no acesso à informação, têm sido olimpicamente ignoradas,  durante todo o tempo, pela maioria, por todas as oposições e pelos restantes OCS do concelho. Por esse lado, nunca conseguiremos ultrapassar os problemas de acesso às fontes, nem as condições de desigualdade no exercício da atividade jornalística, relativamente à concorrência.

Num concelho, onde um dos OCS que beneficia de um comodato com a câmara municipal é parceiro de uma entidade municipal que aloja dois outros órgãos de comunicação social, o exercício da concorrência em condições de equidade é uma quimera e o acesso à informação em condições equitativas é um conto de fadas.

Vamos lá então a um episódio final, que aqui acaba por desempenhar a função de cereja no topo do ambiente que se vive no concelho de Mafra, no que à atividade da imprensa diz respeito. Quando nos foi barrada a entrada no edifício municipal a ser inaugurado, foi possível vislumbrar no interior, a presença do director de um outro órgão de comunicação social do concelho, devidamente equipado para a reportagem. Mas este é já um outro episódio desta ópera bufa, algo que, em termos deontológicos, ainda não decidimos como iremos tratar.

 

Paulo Quintela
Diretor do Jornal de Mafra

 


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