Crónica de Alice Vieira | Amor com Amor se Paga

Amor com Amor se Paga Alice Vieira   Por esta altura, mas há dez anos, eu estava na Suécia. Mais exactamente na Feira do Livro de Gotemburgo. Eu ia receber um prémio pela edição sueca da “Flor de Mel”, e outros autores portugueses também por lá andavam, cada qual com os seus motivos. Entre eles o Richard Zimler, a apresentar a edição sueca de um dos seus livros. Não se pode dizer que a adesão do público à minha presença ali e ao meu livro estivesse a ser grande, mas…

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Crónica de Alice Vieira | Fim do Ano em Outubro

Fim do Ano em Outubro Alice Vieira   Nunca me lembro de ter pensado no mês de Dezembro em termos de fim do ano. Para mim, durante anos e anos (e um pouco ainda hoje, em função do trabalho que faço) só havia anos lectivos e, nos meus tempos de criança e adolescente o ano começava em Outubro e acabava em Julho – e entre eles seguiam-se uns meses de ninguém em que nada acontecia, a não ser umas leves e brevíssimas paixonetas, uns quilos a mais, e as saudades…

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Crónica de Alice Vieira | Um Curso Superior

Um Curso Superior Alice Vieira   “Ó Professora, que prazer levá-la no meu táxi!” Depois de um dia de muitas andança—e no meio deste calor que não se aguenta…– agrada-me ser recebida tão efusivamente, embora emende logo o tratamento, e diga que não sou professora, que nunca fui professora, mas ele ri-se e diz “claro que é, então eu não sei!, até já foi à escola dos meus netos!” Tento segunda vez mas ele continua a rir e eu acabo por desistir, enquanto ele fala, olhando de vez em quando…

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Crónica de Alice Vieira | Caracas, há 14 anos

Caracas, há 14 anos Alice Vieira   A actual situação na Venezuela tem trazido à minha memória aqueles dias de 2004 em que aterrei em Caracas, convidada pelo Instituto de Cultura Portuguesa para falar no 10 de Junho. Eu nunca tinha visto um aeroporto assim, as malas batendo umas nas outras, e funcionários tentando equilibrar-se pelo meio dos corredores rolantes, pegando nelas e perguntando, aos berros, a quem pertenciam, e atirando-as a quem afirmasse, também aos berros,  ser o dono. Se não fosse ter aparecido o Sr. Daniel Morais (anjo…

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Crónica de Alice Vieira | Teatro dos acontecimentos

TEATRO DOS ACONTECIMENTOS Alice Vieira   Há anos, trabalhava eu ainda no “Diário de Notícias”, num Agosto também muito quente, rebentou um grande incêndio em Oleiros. Claro que nem as temperaturas nem o incêndio se podiam comparar com os de agora—mas, de qualquer modo, era um grande incêndio. Tão grande que o nosso chefe Pires me telefonou de madrugada para casa para eu ir rapidamente para o jornal, porque era preciso marchar para Oleiros. Lá fomos, eu e o fotógrafo, lá andámos pelo incêndio, lá fomos ouvindo as pessoas, lá…

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Crónica de Alice Vieira | Na Morte de Celeste Rodrigues

NA MORTE DE CELESTE RODRIGUES Alice Vieira   “Sempre tentei não ligar às coisas más. Para mim, o importante são todas as coisas boas que a vida me deu. O resto esqueço. Talvez por isso ainda continue a  cantar, na minha idade, já viu? Mas eu não me sinto com a idade que tenho, é verdade. Há dias tinha almoçado num restaurante e chamado um táxi para voltar para casa, e a empregada disse-me “ vá, dê-me o braço que eu ajudo-a a entrar para o táxi”. E eu, ”está-me…

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Crónica de Alice Vieira | Quando tanto se fala de professores

QUANDO TANTO SE FALA DE PROFESSORES Alice Vieira   O ensino vive tempos bastante conturbados. Basta ver a televisão, ler os jornais. E, nestes tempos conturbados, lembro-me muitas vezes dela. Dela e de nós, há 60 anos. Não me lembro do nome, seria Helena?, não garanto–mas nunca hei-de esquecer a sua voz mansa, o cabelo todo branco (embora ainda fosse nova), o casaco comprido castanho, e a malinha enfiada no braço. Tinha vindo de outra escola, e também não aqueceu ali o lugar: eram tempos complicados, e pensar pela própria…

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Crónica de Alice Vieira | O Fantasma do Treinador

O FANTASMA DO TREINADOR Alice Vieira   Não sou particularmente fanática dos Suiços. Tudo bonito demais, limpo demais, ordenado demais, tranquilo demais, perfeito demais.(Com excepção da minha editora, de Genève, que me trata muito bem, e Deus queira que assim se mantenha por muitos anos e bons.) Tive pena que tivessem ficado pelo caminho no Mundial de Futebol, porque (sobretudo desde que Portugal também perdeu) tenho sempre pena dos vencidos.  Mas—confesso—não deixei de sorrir. E de repente vejo-me, para aí há uns dez ou doze anos, acabada de chegar à…

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Crónica de Alice Vieira | Turismo em Lisboa

TURISMO EM LISBOA Alice Vieira     Acabo de chegar de Colónia. Uma semana rodeada de alemães, a participar, com alguns colegas portugueses ,num encontro de literatura infantil. Tudo organizado ao milímetro (alemães…) desde os motoristas que nos iriam buscar e levar ao aeroporto, até aos que sabiam na perfeição onde eram as escolas e bibliotecas onde cada um de nós devia ir , até às professoras (de origem portuguesa ou sabendo muito bem o português) que, naqueles dias, tinham por missão acompanhar cada autor português, não o largando nem…

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Crónica de Alice Vieira | Dantes os comboios

DANTES OS COMBOIOS Alice Vieira   Mais do que as viagens, mais do que ficar a olhar pela janela pensando que eram as árvores e as casas e as estradas e os campos que corriam e não eu–foi o cinema que muito cedo me deu a paixão pelos comboios. Cinema a preto e branco, evidentemente, onde os comboios eram daqueles a sério, apareciam e desapareciam entre espessas nuvens de fumo, e depois no meio delas acabávamos por descobrir o herói que chegava, ou que afinal não tinha partido e decidira…

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