Crónica de Alice Vieira | Teatro dos acontecimentos

TEATRO DOS ACONTECIMENTOS Alice Vieira   Há anos, trabalhava eu ainda no “Diário de Notícias”, num Agosto também muito quente, rebentou um grande incêndio em Oleiros. Claro que nem as temperaturas nem o incêndio se podiam comparar com os de agora—mas, de qualquer modo, era um grande incêndio. Tão grande que o nosso chefe Pires me telefonou de madrugada para casa para eu ir rapidamente para o jornal, porque era preciso marchar para Oleiros. Lá fomos, eu e o fotógrafo, lá andámos pelo incêndio, lá fomos ouvindo as pessoas, lá…

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Crónica de Alice Vieira | Na Morte de Celeste Rodrigues

NA MORTE DE CELESTE RODRIGUES Alice Vieira   “Sempre tentei não ligar às coisas más. Para mim, o importante são todas as coisas boas que a vida me deu. O resto esqueço. Talvez por isso ainda continue a  cantar, na minha idade, já viu? Mas eu não me sinto com a idade que tenho, é verdade. Há dias tinha almoçado num restaurante e chamado um táxi para voltar para casa, e a empregada disse-me “ vá, dê-me o braço que eu ajudo-a a entrar para o táxi”. E eu, ”está-me…

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Crónica de Alice Vieira | Quando tanto se fala de professores

QUANDO TANTO SE FALA DE PROFESSORES Alice Vieira   O ensino vive tempos bastante conturbados. Basta ver a televisão, ler os jornais. E, nestes tempos conturbados, lembro-me muitas vezes dela. Dela e de nós, há 60 anos. Não me lembro do nome, seria Helena?, não garanto–mas nunca hei-de esquecer a sua voz mansa, o cabelo todo branco (embora ainda fosse nova), o casaco comprido castanho, e a malinha enfiada no braço. Tinha vindo de outra escola, e também não aqueceu ali o lugar: eram tempos complicados, e pensar pela própria…

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Crónica de Alice Vieira | O Fantasma do Treinador

O FANTASMA DO TREINADOR Alice Vieira   Não sou particularmente fanática dos Suiços. Tudo bonito demais, limpo demais, ordenado demais, tranquilo demais, perfeito demais.(Com excepção da minha editora, de Genève, que me trata muito bem, e Deus queira que assim se mantenha por muitos anos e bons.) Tive pena que tivessem ficado pelo caminho no Mundial de Futebol, porque (sobretudo desde que Portugal também perdeu) tenho sempre pena dos vencidos.  Mas—confesso—não deixei de sorrir. E de repente vejo-me, para aí há uns dez ou doze anos, acabada de chegar à…

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Crónica de Alice Vieira | Turismo em Lisboa

TURISMO EM LISBOA Alice Vieira     Acabo de chegar de Colónia. Uma semana rodeada de alemães, a participar, com alguns colegas portugueses ,num encontro de literatura infantil. Tudo organizado ao milímetro (alemães…) desde os motoristas que nos iriam buscar e levar ao aeroporto, até aos que sabiam na perfeição onde eram as escolas e bibliotecas onde cada um de nós devia ir , até às professoras (de origem portuguesa ou sabendo muito bem o português) que, naqueles dias, tinham por missão acompanhar cada autor português, não o largando nem…

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Crónica de Alice Vieira | Dantes os comboios

DANTES OS COMBOIOS Alice Vieira   Mais do que as viagens, mais do que ficar a olhar pela janela pensando que eram as árvores e as casas e as estradas e os campos que corriam e não eu–foi o cinema que muito cedo me deu a paixão pelos comboios. Cinema a preto e branco, evidentemente, onde os comboios eram daqueles a sério, apareciam e desapareciam entre espessas nuvens de fumo, e depois no meio delas acabávamos por descobrir o herói que chegava, ou que afinal não tinha partido e decidira…

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Crónica de Alice Vieira | Tremoços na feira do livro

TREMOÇOS NA FEIRA DO LIVRO Alice Vieira   O mês de Junho é sempre rico de actividades. Começa hoje, com o Dia da Criança, este ano a calhar em dia útil e por isso lá se enchem as ruas de filas e filas de crianças dirigidas pelas professoras, que vêm ver o que cada terra tem para lhes mostrar. Ou, pelo menos, apanhar ar. Depois seguem-se os dias dos Santos Populares, as marchas—o que também anima sempre muito uma pessoa. Mas para mim o mês de Junho é sobretudo o…

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Crónica de Alice Vieira | Livros para deitar fora

LIVROS PARA DEITAR FORA Alice Vieira   Confesso: não sou capaz de deitar livros fora. De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objectos se vão acumulando e eu perguntando-me “o que é que faço a isto?” Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes, quadros com o brazão…

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Crónica de Alice Vieira | Ainda o 25 de Abril…

AINDA O 25 DE ABRIL… Alice Vieira   O dia 25 de Abril já lá vai . Como sempre acontece nesta altura, várias escolas chamaram-me para que eu falasse aos alunos sobre esse dia único de 1974, que para mim foi ontem e para eles na pré-história. Lá vou, levo provas de censura do “Diário de Lisboa” para lhes mostrar, tento animar a discussão. Mas não é fácil. Porque, na esmagadora maioria dos casos, este é um assunto de que estão a ouvir falar pela primeira vez. O que me…

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Crónica de Alice Vieira | Lojas de outros tempos

Lojas de outros tempos Alice Vieira   Lembro-me de mim , pela mão das minhas tias, a entrar na loja. Sempre a mesma. A Casa Frazão, na Rua Augusta, em Lisboa. Sentavam-me em cima do balcão enquanto elas ficavam horas infindas a ver amostras, a discutir cores, a analisar a textura do tecido. E eu gostava de ali estar. Havia um estranho cheiro a rosas e bafio, que nunca mais encontrei em lado nenhum. Às vezes as tias punham-me no chão e vinha um senhor com um pau (“o metro”,…

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