Crónica de Alice Vieira | Uma Questão de Matemática

UMA QUESTÃO DE MATEMÁTICA Alice Vieira   O Lobo Antunes tem uma crónica (extraordinária, como todas as suas crónicas, embora ele não goste que lhe digam isso…) em que fala do merceeiro que fornecia a casa dos pais e tinha uma maneira muito peculiar de fazer as contas do mês. Sentava-se em frente da dona da casa, escrevia as parcelas, e depois ia contando, “três e dois, cinco, e mais sete, doze, e vai um—mas como é para a senhora vão dois…-e mais dois, quatro…”, etc. A primeira vez que…

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Crónica de Alice Vieira | O Cobertor de Papa

O COBERTOR DE PAPA Alice Vieira   De vez em quando somos alertados para qualquer coisa (ou qualquer animal, ou qualquer planta) que, de repente se encontra em vias de extinção. O que sofremos com o lince da Malcata não tem explicação (mas, para dizer a verdade, com o passar dos anos já não sei ao certo o que lhe aconteceu) Depois foi a cabra-montês, depois os burros, e por aí fora. No entanto o que verdadeiramente me preocupa neste momento é a anunciada extinção dos cobertores de papa. Segundo…

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Crónica de Alice Vieira | Para que servem os livros

Para que servem os livros ALICE VIEIRA   Há já algum tempo lembro-me de ter aqui falado de livros para deitar fora. Queria eu dizer, livros tão maus, mas tão maus que nem ao meu pior inimigo os daria. Claro que não se trata de livros que temos em duplicado (eu tenho cinco edições dos “Maias”, por exemplo…)  livros que já não temos tempo de reler, livros de que, pessoalmente nem gostamos muito mas de que os outros gostam (eu, por exemplo, detesto ficção científica mas aceito que outros amem…

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Crónica de Alice Vieira | Violência Doméstica

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA Alice Vieira   Já há uns tempos que falei aqui de violência doméstica, mas acho que nunca é demais voltar a abordar o assunto—até porque as estatísticas são cada vez mais assustadoras. Há dias ia eu quase a chegar a casa e, na minha frente, seguia um casal já meio entradote. Ela falava, falava, falava, numa voz baixa e monocórdica, mesmo eu, que seguia atrás deles, não conseguia perceber o que ela dizia. De repente ele começa a berrar:: “cala-te! Já não te posso ouvir,  cala-te!” E ela…

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Crónica de Alice Vieira | Uma Luta de Santos

Uma Luta de Santos Alice Vieira   Se há coisa que particularmente me tira do sério são os festejos de S. Valentim, no dia 14 de Fevereiro. As lojas atulhadas de coraçõezinhos de todos os tamanhos e feitios, de feltro, cetim, seda, riscado, flanela, eu sei lá que mais, e pelo meio o branco dos ursinhos de peluche cheios de dísticos no mais puro português, “Be My Valentine!”, “Hug Me!”, e canecas com “ I Love You” em toda a volta. Devo dizer que não tenho nada contra o santo,…

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Crónica de Alice Vieira | O Psicólogo

O Psicólogo Alice Vieira   Há muito tempo que não via a Lurdes, minha antiga colega de faculdade. Daí a gargalhada de ambas quando esbarrámos no café, e lá abancámos diante de uma bica, a pôr a vida em dia. Saltaram imediatamente fotografias e o relato fatal das gracinhas infantis. É então que ela me diz, apontando para a cara risonha do seu neto de três anos, “este até já anda no psicólogo”. Eu fiquei sem saber o que dizer, tanto mais que a Lurdes falara com um indisfarçável orgulho…

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Crónica de Alice Vieira | Festas em Família

Festas em Família Alice Vieira A única vez que me lembro de me ter zangado mesmo a sério com amigos foi já há muitos anos quando, depois de me convidarem para passar o fim do ano com eles, ligaram a televisão e estiveram o tempo todo de olhos cravados no écran para ver se, num determinado concurso muito popular, que terminava nesse último dia de Dezembro, o vencedor iria ser quem eles queriam que fosse. Mal sabia eu que, muitos anos depois, com iphones e ipads e smartphones e o…

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Crónica de Alice Vieira | O Anjo

O Anjo Alice Vieira   Naquele tempo os homens da Costa Nova saíam cedo de casa e demoravam muito a regressar. Iam todos para a pesca do bacalhau, lá nos confins do Mar do Norte, e as mulheres ficavam com todo o peso da vida às costas—a casa, os filhos, os parentes velhos, e ainda a pequena horta de que era preciso tratar. Eram mulheres fortes. Havia mesmo quem dissesse que eram mulheres duras,  sem voz nem vagar para um carinho, um mimo, um afago. As crianças da casa sabiam…

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Crónica de Alice Vieira | O meu Pai Natal

O meu Pai Natal Alice Vieira   O Pai Natal é um velho de barbas brancas, que vem num trenó puxado por muitas renas, e deita os presentes pelas chaminés abaixo. Mesmo nos prédios de muitos andares, que não têm chaminé. É esta história que faz as delícias de miúdos e graúdos e em que, evidentemente, nem miúdos nem graúdos acreditam—mas fazem muito bem de conta. Porque é esse o papel que se lhes pede: que representem nesta altura Devo dizer, no entanto, que, na minha infância, o Pai Natal…

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Crónica de Alice Vieira – Recordações de Novembro

Recordações de Novembro Alice Vieira   Talvez tenha sido por causa desta chuva, deste mau tempo, destes dias cinzentos com a noite a ameaçar às quatro da tarde, ou talvez não tenha sido por nada disso—o certo é que ,ao começar a escrever esta crónica, dei comigo a recordar duas datas ainda e sempre muito dolorosas para mim. Por motivos diferentes, e a magoarem também de maneira diferente. No dia 30 de Novembro de 1975 morria, no Brasil, Erico Veríssimo. É provável  (é quase certo…) que este nome não diga…

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