Crónicas de Jorge C Ferreira | Quartos

Quartos O quarto crescente. O quarto minguante. O quarto de viver. A renda do quarto em atraso. O frio da rua. O dinheiro que não chega. A lotaria que só sai a quem tem dinheiro para jogar. O casino da Santa Casa. A raspadinha da moda. Barata e de prémio imediato. O santo engano. O malvado do dinheiro. Os livros lidos na biblioteca municipal. O papel reutilizado. Um lápis afiado com uma faca manhosa. Molhar o bico negro do lápis na língua. A escrita a fluir. Mais um papel para…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Noites

Noites A noite perdida. A noite desencontrada. A falsa noite. O erro nos cálculos da vida. Um calor que nos engana. Os candeeiros apagados. Uma rua sem luz. O desabrigo. A falta que o que falta nos faz. A dor que falece. Outra vida que aparece. Os viadutos da desgraça. A velocidade incontrolada. Uma pressa para o nada. Ter olhos para a noite. Conhecer as sombras e as esquinas. De repente, uma navalha que se incendeia num corpo. O tempo de todos os crimes. A sirene das ambulâncias. As urgências…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Estes tempos

Estes tempos Estes tempos de perder mundos e princípios. Este galgar de consciências apodrecidas. Estes sem-fim cada vez mais perto de nós. Vamos andando e falando para quem não nos ouve. Por vezes apetece desistir. Dizem-nos que o tempo é outro. No entanto a terra continua a rodar da mesma maneira. Nós continuamos por cá! Aparecem pensamentos muito antigos a armar ao novo. Aparecem as botas cardadas. As fardas ensanguentadas. Os capitães do nada. As balelas mal contadas. A força da falsidade. Os pontos cardeais a chamarem-nos à atenção. Um…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Notas soltas

Notas soltas Tantas são as coisas com que nos querem atormentar! Guerras de gangues. Suicídios. Homicídios. Mortes lentas. Solidão. Violência doméstica. Assaltos à mão armada. Corpos massacrados. Marcas para a vida. Hospitais. Exames forenses. Polícias. Algemas. Nomes estranhos. Uma discussão contínua. Os tabloides vendem os crimes logo pela manhã. Já não há ardinas para os anunciarem. Há quem os leia nos barbeiros, tascas, cafés e os discuta ferverosamente. Escorre sangue pelos ecrãs das televisões. Não há esfregona que chegue para limpar tantos restos de crimes. Há uma história que se…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Que Tempos!

Que Tempos! Jantar. Escolher e vestir a roupa mais indicada. O perfume.  Sair. Ir direito ao café de todos os encontros. Procurar e esperar que nos procurem. Uma, duas bicas e muita conversa. A cabine telefónica. A necessidade de moedas. As namoradas e as não namoradas. As caras novas e o querer entrar no grupo. Havia quem fosse jogar bilhar noutro café. Havia quem se predispusesse a outros ambientes. Todos amigos. Todos juntos. Os corpos, os corpos. Outro café. A inesperada tentação. O inesperado convite. Aceitar e temer. Deixar-se ir.…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Namoros

Namoros O outro lado da vida. O outro lado do ser. Um outro ser. Tudo a acontecer numa rapidez que faz tremer. Abanam os alicerces do que nunca se construiu. Cansam-se as cabeças que nunca pensaram. Um jogo e um tabuleiro roubado. Um xadrez que fica bem na saia de uma colegial. A porta das escolas femininas. Os rostos afogueados. Os risinhos nervosos. Até domingo na missa das dez. O acólito, a alva, o cordão, o turíbulo, as galhetas, a água e o vinho. A missa em latim. O padre…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Aprendizagens

Aprendizagens A sabedoria, os sabores, os caminhos, o que não se esquece, o que se cola ao nosso viver. Como sabe bem aprender. Aprender a vida, num carrossel muito antigo. Tudo a andar à volta. A girafa com o seu enorme pescoço, um cavalo com brilhantes e crina colorida, um burro que tudo carrega e outros desassossegos. Tanta gente a andar à roda num burburinho que a música abafa. Ouve-se e não se percebe. Um desafio constante. O querer conseguir. A fantasia, os sabores inventados, a vida de brincar. Um…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Coisas Antigas

Coisas Antigas Este tempo de pensar. O aconchego de uma vida. Um livro que nos emociona. As dores da escrita. Uma vela e um ritual muito antigo. Uma escrivaninha e a gaveta de todos os segredos. Um anjo, muito antigo, com a mão partida. Um anjo louro. Um anjo que a minha Mãe me deixou. Um café que não é habitual. Quatro amigos à conversa. As viagens e os difíceis caminhos. Tudo o que não se espera e acontece. O amigo que tem de voltar para o lar. O beijo…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Chegar para Partir

Chegar para Partir O martírio dos aeroportos. Muita gente. Muitos voos. Muita segurança. Por vezes o exagero. As bichas. Máquinas que olham para dentro de nós. As mãos erguidas. O cheiro a aromas misturados na loja de todos os perfumes. A última compra. O último desejo. Cerrar as portas. Caminhar para o céu. Passear sobre as nuvens. Esperar chegar. Muito tempo para pensar. Um tubo cada vez mais incómodo. O cansaço que aumenta com a idade. Uma “refeição”. O plástico sempre presente. A revista do costume. Um livro em que…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | A Casa de Partida

A Casa de Partida Estamos cada vez mais perto da casa de partida. Vem-nos à memória o jogo da glória, os cavalinhos, a macaca. As saias plissadas, as calças de golfe, as meias brancas até ao joelho, os sapatos de carneira. Rolam os dados sobre o pano verde da esperança que nunca perdemos. Não há dados viciados neste jogo. Há quem gaste muito dinheiro no casino e ao balcão dos bares. Fazem-se as últimas apostas. Experimentam-se as derradeiras bebidas. De tudo isto sou um mero espectador. Não bebo nem jogo.…

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