Crónica de Jorge C Ferreira | Coisas estranhas

Coisas estranhas Hoje estive desde cedo na minha esplanada. Foi o dia de ver passar a gente da minha terra. Muitos foram para outras terras. Foram visitar a família ancestral. Cedo, para mim, é cerca do meio-dia. Mais cedo é terrorismo psicológico. Não aguento. Fico com mau aspecto. Há quem me queira levar ao médico. Depois de cumprimentar os habituais clientes e os empregados de sempre. Fazemos o pedido e somos servidos do que já sabem que queremos. O jornal. Algumas conversas cruzadas e as piadas de toda a vida.…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Sabedoria

Sabedoria Lembrar os sabores da pele e dos lábios. Sabores que desaguaram na nossa vida. Coisas que cobriam os corpos. Os corpos a quererem ser despojados de toda aquela parafernália de tecidos. O sabão azul e branco. O vinagre para dar brilho ao cabelo. As pernas brancas e sem varizes das mulheres antigas. Os carrapitos. Os cabelos do tamanho da vida. As travessas e os ganchos. Um fio e uma medalha com a foto do falecido ao peito. Um camafeu. Um anel de pedido e duas alianças. Uns brincos muito…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Outros Tempos

 Outros Tempos As velhas avenidas novas. As lojas da nova moda. A minha escola do ciclo preparatório. As ruas largas. As pracetas para jogar à bola. O Júlio de Matos e as “lagoas”, fruto de escavações, por detrás daqueles edifícios cor de rosa. Os mergulhos proibidos e perigosos. Os corpos novos. As pastas espalhadas pelas margens. Se os pais soubessem!!!! O imponente Cinema Alvalade mesmo em frente à escola. Os filmes que a idade não nos deixava assistir. Os cartazes enormes com os artistas em realce. As cenas que iriam…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A Praia

A Praia Tanta gente a correr para a praia. Vejo-os passar sentado na esplanada. As peles ávidas de sol. Irão descer a rua e aproveitar estes raios que nos têm aquecido. A praia já deve ter os habituais clientes de todo o ano e mais alguns. Descem a rua e vão com ar de quem ama o calor. As ondas batem na parede do bar. Pouca gente na água. Muita gente a trabalhar para o bronze. Gente que vive a esturricar a pele. Apesar dos cremes o perigo ronda. Dois…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A Minha Rua

A Minha Rua Saímos de casa e descemos vinte metros de rua. Aparece uma espécie de largo onde, duas árvores, muito antigas, fazem sombra sobre um banco de madeira. São árvores muito velhas. São diferentes, mas parecem gémeas. São o consolo de quem foge ao sol. Aquele pequeno local é sobranceiro a outra rua. As pessoas passam lá em baixo, embora muito perto. Uma rua estreita onde só sobem e descem os que por ali moram ou aparcam. Uma rua que acaba num beco muito antigo deste velho canto desta…

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Crónica de Jorge C Ferreira | As Horas

As Horas Os desacatos da vida. As viragens e os recuos. A procura e a inércia. Muitas horas paradas. As caras mudas vestidas de máscaras agonizantes. Uma pedrada num sítio ermo. A eterna busca do confronto. Um gesto de ternura e um raio de sol. O mar a brilhar de uma alegria frustrada. Faltam poucas horas para tudo ficar, de novo, plúmbeo. Vai tudo regressar aos contentores despejados de um barco fantasma. Sonâmbulos caminhantes preenchem os espaços. Uma sala escura cheia de relógios com horas incertas. O barulho dos pêndulos…

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Crónica de Jorge C Ferreira | 200 Textos 200

200 Textos 200 Chamo-lhe textos porque não sei como os classificar. O primeiro tem a data de 9 de Outubro de 2014. Semana a semana fui escrevinhando um novo. Criei o hábito de não o fazer antes da terça ou quarta-feira anterior. Muitas vezes não sei sobre o que vou escrever. Mas tem surgido sempre uma palavra, um facto, uma pessoa que me dá razão para continuar. Sobre uma palavra, surgida do nada, pode nascer um texto que uma mão que não sentimos vai escrevendo. Crescemos com as piruetas que…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Os Meninos do Coro

Os Meninos do Coro A dona Virtude, a dona Clemência, a dona Pureza, a dona Inocência e a santa castidade. As múltiplas orações, o genuflexório, os castigos infligidos, aceitar a dor.  A capela lateral da igreja. Todas de preto estão aquelas mulheres. Lenços na cabeça. Rosários na mão. Um murmúrio sem interrupção. A maquinal reza. O bichanar, dizem alguns. Os meninos do coro ensaiam novos cânticos. Está escura a Igreja. Ouve-se o crepitar das velas. As falsas virtudes. Os véus que tapam as vergonhas. Os meninos do coro desfilam cantando.…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Cartas de uma vida

Cartas de uma vida Passeava na avenida grande em todos os sentidos. Era raro parar. Carregava entre as mãos papéis amarelecidos. Escritos em letra feminina. Algumas letras desmaiadas. Cores variadas. Seriam estados de espírito? Por vezes interpelava as pessoas e perguntava de quem era determinada carta. Ele que, antigamente através da escrita conseguia decifrar a pessoa e o seu sentir, tinha desaprendido a ler. Esqueceu as letras e os nomes. Esqueceu-se de si. Tinha coisas muito antigas que, por vezes, lhe atormentavam a cabeça. Tudo o que via era novo…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Um jardim de manhã

Um jardim de manhã Um jardim, um banco e uma vontade. Uma manhã de sol. Uma guitarra e uma música. Jogam às cartas os senhores do costume. A bica servida em chávena cheia. Uma água para avivar os lábios. Um sujeito que toca viola. Um dedilhado que sabe a renda. Outro fulano tenta arranjar palavras que se encaixem na música. A rima, a métrica e um pássaro que poisa, no banco, a escutar a melodia. Assim se pode fazer uma canção. Fecharam o museu. Levaram os quadros. As paredes ficaram…

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