Crónica de Jorge C Ferreira | As festas

  As festas por Jorge C Ferreira   Tanta festa. Tanta data marcada. Tantos eventos para acelerar o consumismo. Já não posso ouvir falar das vacinas e condicionar isso ao Natal. Se falamos de eleições e calendários eleitorais lá vem o Natal. Este Natal já é pagão. Já se esqueceu o presépio e o menino jesus. É mais uma festarola. Foram muitos anos com o Natal em minha casa. Gente que vinha. Gente que entrava e saía. Duas famílias que se juntavam. Os mais velhos já foram todos. Os mais…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A minha Cidade

  A minha Cidade por Jorge C Ferreira   Errar pelas ruas da minha cidade. A minha cidade grande. A cidade onde nasci. Parido de parto natural numa rua da freguesia de S. Jorge de Arroios. O primeiro choro dado num quarto de um quinto andar de um prédio inesquecível. As dores da minha Mãe. A habilidade da parteira. As lágrimas da minha Avó. Errar pelas ruas da minha vida. Uma romagem que parece um passeio de despedida. Os sapatos a entortarem-se nos passeios. A calçada portuguesa. Os passeios e…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Artistas

  Artistas por Jorge C Ferreira   Ter vontade de fazer algo de novo. Ser criativo. Ser artista. Pintor, escultor, artesão, poeta, escritor, actor, bailarino, cantor, músico, malabarista, funambulista, trapezista, palhaço, contador de histórias e demais ofícios que nos fazem sonhar. Não esquecendo todos os que, mesmo na sombra, fazem as coisas acontecer. Gente anónima. Gente que ouve nos bastidores os aplausos a que têm direito. Todos são operários dos seus ofícios. Todos se debatem com as suas dúvidas e angústias. Todos vivem dramas e crises de ansiedade. Todos amam…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Ser pai

  Ser pai por Jorge C Ferreira   Vinte sete anos e alguma inocência. Apesar de trabalhar desde os quinze anos. Um primeiro casamento. Uma experiência de vida. Uma casa só nossa. Uma casa de bonecas viria a chamá-la o meu filho. Uma terra na linha do Estoril. Os comboios a passarem e a vida a crescer. A guarda da passagem de nível, a sua casa e a sua bandeirinha. O mar e o seu ruído. Descer a rua e ir vê-lo. Um filho esse júbilo coberto de medo. O…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Nunca estive em Belize

  Nunca estive em Belize por Jorge C Ferreira   Corria o ano de 1992. O mês seria fevereiro ou março. Saímos da Parede. Morávamos num pequeno apartamento perto da estação. Apanhar o comboio era rápido. Fomos nós e as malas. A verdadeira partida para a grande viagem estava prevista para a meia-noite no Cais do Sodré. Estava tudo assim combinado e assim se cumpriu. Chegámos e pouco depois o Alfa Romeo do J.J. apareceu. Com ele outro J.J.. Arrumámos a tralha levávamos roupa de inverno e verão. O Alfa…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Um banqueiro fugiu

  Um banqueiro fugiu por Jorge C Ferreira   Meu abraço acabado. Minha dor sem sentido. Minha fuga sem razão. Um vulcão que se zanga. Uma ilha que sucumbe. Cones cospem fogo. Há uma nuvem que viaja pelo mundo. Uma lava que me namora. Uma terra que arde. As casas que desaparecem. As ilhas que eu amo e as outras. As ilhas dos milhões. Os milhões de pobres. Os ricos que nunca morrem enfartados. Uma foca assassinada à paulada por caçadores furtivos. Um banqueiro fugiu. O cume da montanha. Uma…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Peralvilhos

  Peralvilhos por Jorge C Ferreira   Estou farto dessa gente nova que nasce velha. Estou farto dos que disso fazem alarde para se promoverem. São os falsos velhos. Os que tentam, através de uma aparência bem pensada e uma estratégia estudada, fazer os outros pensar que têm vida e sapiência de um velho que percorreu a vida e o mundo. Apresentam-se de ar circunspecto como se tivessem todo o conhecimento em si. Apelidam-se de muitas coisas e omitem os fracassos. (Aliás, já os esqueceram…) Não me lembro…não me lembro…não…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Que vida

  Que vida por Jorge C Ferreira   As noites que se instalam sem darmos por isso. O escurecer que nos cala. Horas e horas de desafiar o tempo. Há quem tenha medo da noite. Há quem viva cada noite como se fosse a última. O deitar e o adormecer. Duas coisas tão diferentes. Dois modos de estar. Dois modos de viver. Nunca saber se vai acontecer o dia seguinte. Nada temos como adquirido neste mundo voltado do avesso. Os que dormem de dia, pensam ao contrário. Muitas vidas no…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Olhos e Olhares

Olhos e Olhares por Jorge C Ferreira   Os olhos a perderem-se num fundo oco. Um vazio que se anuncia. Os olhos de uma viagem inesperada. As mãos a separarem-se de forma muito lenta. Um fio de nada. Um nada que é tanto. Uma raiva de rasgar ondas. Raiva cega. Raiva gasta. Raiva dor. Raiva da despedida. O desfecho chorado. O fio que se parte. Tanto se pode falar sobre olhos e olhares. Tantos olhos mataram olhos. Tantos olhares fatais. Quantos olhares especiais. Um olhar pode valer uma vida. Olhos…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Vidas em comum

Vidas em comum por Jorge C Ferreira   Quando as tuas veias invadiram o meu corpo. Quando os nossos corpos se tornaram dependentes. Uma estranha situação. A simbiose perfeita. Um saboroso bem-estar. Corpos separados e tão juntos. Os corações a baterem em uníssono. Percebemos, então, que somos dependentes um do outro. A vida a não ter sentido sozinha. Fica como se fosse um livro sem páginas. Um livro de não ler. Pressentimos e vivemos tudo em conjunto. Sabemos o que o outro sofre e dividimos o sofrimento. Há quem diga…

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