Crónicas de Jorge C Ferreira | Tempo para pensar

Tempo para pensar As águas, as luas, as marés e o sonho. Assim faz sentido caminhar. Conhecer do mar o sussurro. Espreitar e tentar ver para lá do horizonte. Sabemos que o horizonte é inatingível. Vamos, no entanto, para a proa do barco na esperança de chegar mais cedo. As âncoras prontas para o que der e vier. Um piloto na ponte de comando. Uma sereia vai cortando o mar na frente do barco. Caminhar na vida é uma experiência única. Um aprender constante. Um tentar entender. Um tentar entender-se.…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Os labirintos do Poeta

Os labirintos do Poeta Percorrer as estradas da poesia. Saber dos passos dos poetas. Amar um poema, um verso, um delírio. Do delírio conhecer o momento da loucura. No cabelo ao vento encontrar um sinal de liberdade, de transgressão. Ter os livros que connosco foram crescendo. As palavras inquietas nas páginas impressas. O momento mágico, íntimo, da leitura. Só nós e o poeta. Perceber que abrimos a porta para uma nova dimensão. Que estamos noutra realidade. Apalpar o corpo para sabermos de nós. Sentirmos toda a imensa magia, que a…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Passear a Vaidade

Passear a Vaidade Quando a vaidade invade um corpo, não o engorda, torna-o balofo. Gente que se maneia, um bamboleio que nem chega a ser transgressor. Berloques e penduricalhos. Uma alfinetada e a vaidade esfuma-se. São ruas e ruas desta gente. Gente que, de tão convencida, não cabe em si. Chiados de subir e descer. Sorrisos e adeus. Balões de ar quente partem do Castelo. Voos sem destino. Não se sabe quem vai viajar. Pessoas que pensam que são tudo, que chegaram ao topo do mundo, que todos lhes devem…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Crónica dos dias tristes

Crónica dos dias tristes Como cheiram a tristeza os dias da triste gente. Como deve ser triste só pensar no ter! Há gente que passeia vaidosa, como se fossem medalhas, as tristes figuras que fazem. Figuras que fazem sem se aperceber do ridículo em que caiem aos olhos dos que sabem pensar. Isso não os preocupa, mostram a sua ignorante vaidade e com um pouco de sorte ainda, um dia, serão comendadores. A tristeza é uma dor interior, uma dor que não é física, uma coisa tão fina e intensa…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Venetas

Venetas Ter vontade de viver. Estar satisfeito com o que se tem. Saber distribuir alegria. Ter quem nos dê um abraço, quem goste de nós. Sabermos gostar dos outros. Ter saúde. Que mais necessitamos? Por vezes andamos atrás do supérfluo, do não vale um corno. Coisas sem interesse algum. Bugigangas. O novo modelo de telemóvel. Um carro com mais um botão. Um modelo novo de sapatos, para juntar aos mais não sei quantos que andam lá por casa. Não, a mim, não me apanham nessas curvas. Podem fazer os saldos…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Cofres

Cofres   Chega um tempo em que nos transformamos em cofres das coisas que fomos ou vivemos. Um cofre com segredo e chave. Um cofre à antiga. Um cofre de todos os truques. Uma caixa forte. Uma casa onde só nós entramos. É aí que guardamos tempos vividos, momentos únicos, beijos e abraços, amores perdidos, noites de espanto, farrapos de corpos que passaram por nós, um quadro que um dia nos fascinou e incitou a voar, um livro que está sempre por ler, um fato feito por medida, uns sapatos…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | O Pântano

O Pântano   A indecência da decadência. O arrastar do mal viver. O lodaçal. A lama. Houve quem lhe chamasse “O Pântano” e se demitisse numa longa e antiga noite. A degradação cada vez mais acentuada, os conluios de um bloco central  de interesses há muito tempo a partilhar o poder. O tal “Arco do Poder”. Gente que se arrasta de falsidade em falsidade. Gente apanhada em flagrante mentira. Gente que não resiste ao som do vil metal. Muito amesendado do orçamento. Muitos a saltitar de lugar em lugar. A…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Iam em fila indiana

Iam em fila indiana   Iam em fila indiana. Os olhos muito grandes, muito abertos. Olhos de querer aprender. Estava frio. Iam agasalhados, alguns com o pingo no nariz. Iam de mãos dadas. Mãos muito pequeninas. Eles muito pequeninos. Uma fila encantada. As educadoras abriam e fechavam a fila. Estavam junto à porta dos correios. Tinham colocado uma carta, que alguém lhes tinha escrito, com os pedidos para o pai natal. «Agora vamos ver como o senhor tira dali a carta para levar ao pai natal.» Dizia uma das educadoras…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Agonias

Agonias   A agonia sem nexo. O vómito negro e inesperado. O desamparado desfalecimento. A palidez. A água com açúcar. As suaves estaladas, quase festas. O estaladão. Acordar de novo para a vida vomitar de novo. A agonia que não passa. Uma porta para o despertar. A menina de esperanças, sempre agoniada, uma palidez que incomoda. De que alimentará o puto? Pergunta do velho Avô preocupado. O caminhar abandonado. A comida que não apetece. Um apetecer estragado. Alguns estranhos desejos. Comidas de outras épocas. Abrir a porta da vida. Uma…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Deslumbramentos

Deslumbramentos   Há quem se deslumbre com o que nunca fez. Há o narciso que se vê ao espelho e deslumbrado se abrace. Há o fazer de conta, o saber vender-se, o querer impressionar. A pressão que ultrapassa o vapor da vida. O não se enxergar. O alumbramento. A leveza da terra toda. Um ramo de flores. Um pai nosso e duas avé marias. O pecado expiado. Outras vez ávido de se ver ao espelho. Pronto para de novo se abraçar e fazer amor consigo. Há o verso quase perfeito,…

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