Crónica de Jorge C Ferreira | Pensar e Sonhar

Crónica

Crónica de Jorge C Ferreira
Pensar e Sonhar

 

Desdobravam noites atrás de dias entre ruínas de civilizações desaparecidas. Uma escrita que não sabiam decifrar, jogos de que não sabiam as regras. Nadavam num mar esmeralda e quente. O sal a tomar conta de tudo o que vivia neles. O sol a crescer forte e saboroso. A cor da sua pele a mudar. Uma vida quase de subsistência. Dedicavam muito tempo ao pensamento. Aprenderam a adorar o silêncio. Apenas ouviam a voz do mar. Uma voz que passou a fazer parte daquele silêncio que amavam.

As noites tórridas. Os corpos molhados sob os mosquiteiros. O luar a entrar pelas ruínas. Descendentes de antigos habitantes daqueles lugares a acenderem fogueiras que eles não conseguiam ver. Apenas mais um sono acrescentado àquele místico lugar. Os sinais que iam descobrindo iam-nos levando para pensamentos cada vez mais enigmáticos. Bastava-lhes, no entanto, sentirem-se bem naquele ambiente. Gostavam cada vez mais de ali estar. Sempre se haviam sentido fascinados pela descoberta do novo saído do mais antigo.

Mas o mar, aquele mar que ia mudando os seus tons e a sua fala, esse mar mantinha-os ali apesar da vontade de saírem numa jangada e ir até uma ilha deserta. Não, não levariam mais nada a não ser as suas mãos dadas. Houve quem dissesse que isso seria uma partida para o suicídio. Eles remetiam-se ao silêncio, que ali significava a busca do mais profundo neles. Já se entendiam em silêncio. Porque o silêncio tem o seu tempo. É necessário saber lê-lo, entender os compassos do seu caminhar. Foram aprendendo a assim caminhar à beira-mar. Tudo tão simples e, ao mesmo tempo, tão impactante. O mar a falar por eles e para eles. Por vezes, uma música de adormecer e acordar. Um vai e vem que os acompanhava na sua maneira de viver.

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A ideia da ilha começou a incorporar-se neles. Sabiam que ilhas e ilhotas abundavam por aqueles mares. Paraísos de areia branca e o mar de uma cor difícil de definir. Outros sonhos. Todas as que lhe vinham à cabeça tinham habitantes, passeantes curiosos e máquinas fotográficas prontas a disparar. Ainda não tinham aparecido os telemóveis. A paz era outra. Uma calma que saboreavam com alegria. Souberam que havia uma ilha onde pequenos barcos iriam levá-los. O tempo de regressar estava cada vez mais perto. Teriam de começar a aprender a viver em silêncio no meio da multidão. A criar a sua bolha.

Um dia levantaram-se e decidiram que seria o dia de irem até à tal ilha. Falaram e foram aprendendo a falar de novo. A mesma língua que tinham resguardado num sítio especial da memória. As primeiras palavras saíram estranhas. Um linguajar esquisito. Mas tudo ficou certo após alguns minutos. Arrumaram os parcos haveres numa mochila e partiram para o lugar onde os barcos atracavam.

Zarparam. A ilha à vista. A água a entrar no barco. Os pés molhados. Chegaram, apesar de tudo. Não havia carros naquela ilha. Foram para uma praia como as que se encontram nos cartazes das agências de viagens. Correram para a água e mergulharam. Ali ficaram um tempo sem fim. Foram convidados a ir ver os tubarões a dormir. Declinaram, não queriam importunar o silêncio dos animais.

O resto desta estória deixo ao vosso critério. O que queria dizer já disse.

«Agora começas as estórias e deixas aos outros o trabalho de as acabar?»

Fala de Isaurinda.

«Deixar as pessoas sonharem um fim. Cada pessoa é diferente da outra e irão aparecendo imensos finais.»

Respondo.

«Tens uma lata! Acho é que não quiseste escrever mais.»

De novo Isaurinda e vai, uma risada de gozo.

 

Jorge C Ferreira Fevereiro/2024(424)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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17 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Pensar e Sonhar”

  1. Jorge C Ferreira

    Obrigado Maria. Que belo comentário. Conseguir estar em silêncio no meio da confusão, a arte de construir uma bolha só nossa. Entender a linguagem do silêncio. A minha gratidão. Abraço

  2. Cecília Vicente

    Quem nunca quis viver numa ilha ou depois dela conhecer outras ilhas? Viver, procurar o linguajar de outros ilhéus para se conhecerem e juntar restos de náufragos que por lá teimavam aparecer acabando por criar laços dourados esquecendo família para iniciar outra,era essa que a memória queria guardar. A leveza e a espiritualidade era suficiente, tal como comer, comer para continuar a viver e irem na longevidade era o mais importante. Cresciam a querer fazer amor no dourado da areia, planos somente a criação de sonhos que não conheciam, eram saudáveis e felizes. Partir para a aventura na procura de outra ilha era perigoso, se voltassem a ser náufragos? Começar tudo de novo, as canoas amarradas era mais seguro, tal como as árvores que de alívio lhes davam sombra e alimento. A vida dourada de quem se perdeu e achou o tesouro perdido… Abraço meu amigo. Volta com as palavras que guardas dessa tua possível ilha (…)

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Que bom o teu comentário. A tua história. Uma nova história. Que bom estares aqui. Muito grato. Abraço.

  3. Maria Luiza Caetano Caetano

    O poeta, pensou e sonhou e escreveu esta maravilha, que adorei.
    O mar que tanto ama e conhece. Como eu gosto do seu silêncio.
    Penso que pisou de verdade essa ilha e fruiu toda a sua beleza, mas sem esquecer de respeitar o silêncio, não fosse acordar os animais que debaixo da água dormiam. Tão belo o que nos descreve! Aproveitei e imaginei-me nesse lugar mágico. Sonhar é fácil e consola a alma.
    Grata, por estes momentos que nos oferece querido escritor. Abraço imenso.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza, pela doçura do seu comentário. Sempre indispensável a sua presença. A minha imensa gratidão. Abraço

  4. Maria Luiza Caetano Caetano

    O poeta pensou e escreveu esta maravilha, que adorei. O mar, que tanto ama e tão bem conhece.
    Com eu gosto do seu silêncio.
    Penso que pisou de verdade essa ilha e fruiu toda a sua beleza, mas sem esquecer de respeitar o silêncio, não fosse acordar os animais que debaixo da água dormiam. Tão belo o que nos escreveu, aproveitei e imaginei-me nesse lugar mágico.
    Sonhar é fácil e alegra a alma.
    Grata, por estes momentos que nos oferece, querido escritor. Abraço imenso.

  5. Filomena Geraldes

    correram para o mar e mergulharam.
    os tubarões repousavam num sono
    destinado ao mistério das profundezas.
    a ilha era uma casa flutuante.
    o mar um abraço de jade.
    os seus olhares afundaram-se nesse abismo onde peixes prata conheciam
    de cor o silêncio das águas.
    amiúde percorreram os areais e foram ao fundo das florestas onde habitavam
    árvores de um verde antigo e com copas altas que chamavam pela chuva.
    esse tamborilar de gotas que narravam as lendas das nuvens.
    aí construíram as suas casas de madeiros e tectos de palha.
    bordaram na terra húmida pequenas
    hortas que os serviram ao longo dos tempos.
    sanaram os males do corpo com plantas medicinais.
    amaram e respeitaram a natureza.
    com ela travaram longos diálogos.
    nunca prenderam as aves.
    talvez porque tinham penas coloridas, bebiam orvalho e
    falavam do sol.
    eram presenças em bando a quem os poetas recorriam quando se sentiam tristes.
    nunca colheram flores.
    há quem diga que respiravam a compasso, eram da cor lilás e de
    um azul tão azul que
    quase se confundiam com os crescentes e
    minguantes da lua .
    mas eles são assim.
    simples.felizes
    falam um linguajar remoto e riem desse achado com o nome de ilha.
    se quiserem podem continuar esta história.
    é que a noite ainda agora começou e
    as estrelas têm odor a maresia, mel
    e folhas
    recortadas.
    eu vou.
    há um perfume de chuva no ar.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena, por mais este belo poema com que comentaste esta crónica. Sempre a tua esperada e brilhante presença. A minha gratidão. Abraço.

  6. Lenea Bispo

    O silêncio é uma arte . Saber usá- lo, só um detentor de uma imensa sabedoria é capaz de o fazer. . Mas também assusta . Há silêncios muito incómodos!
    Uma dualidade com imenso mistério que nos obriga a saber equilibrar nessa tábua de salvação.
    Beijinho , poeta !

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Lénea, pelo teu assertivo comentário. Por vezes somos um silêncio que pode incomodar. A tua importante presença neste espaço. Muito grato. Abraço.

  7. Fernanda Luís

    Gostei da crónica no seu todo.
    Retive as ideias:
    Comunicar em silêncio, incluindo no meio da multidão.
    Para tal, Construir a bolha.
    Vida simples … sem carros, sem telemóveis. Havia máquina fotográfica.
    O ser humano e a natureza, em harmonia.
    Ilhas, mar, sal, sol, luar. PARAISO.
    Tal como o genial Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), sinto que “tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
    Sonhar.
    Sonhar, Sempre!
    Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda, pelo seu belíssimo comentário. É sempre bom ter aqui as suas palavras. Que cumpra os seus sonhos. A minha gratidão. Abraço

  8. Eulália Coutinho Pereira

    Excelente a descoberta desta ilha.
    Deixo-me levar pela magia. Chegar á ilha de sonho! Esquecer e aprender de novo. O mar, como música de fundo a acompanhar o silêncio. Sem palavras vivia-se o momento. Cumplicidade. Amor. Paixão,
    A força do silêncio. A ilha de memórias.
    Obrigada Poeta por tão bela viagem.
    Grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Lindo e sentido comentário. É muito bom ter aqui a sua constante presença. A minha gratidão. Abraço

  9. Claudina Silva

    Obrigada por nos fazeres sonhar, tão linda a tua estória Poeta Amigo Jorge C.Ferreira. Que paz nos traz o silêncio. Tanto se diz mesmo sem falar e tudo se entender. O Mar, uma ilha, que bela paisagem para viver em liberdade. Amei!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Claudina. Que bom teres sonhado na paz do silêncio. Na paz do belo. A minha gratidão. Abraço

  10. Branca Maria Ruas

    Declinaram o convite porque não lhes quiseram interromper a tranquilidade do sono. Eles sabiam bem da importância do silêncio. Só em silêncio nos podemos ir descobrindo e conhecendo um pouco mais de nós.
    Penso muitas vezes se as pessoas que não conseguem conviver com o silêncio alguma vez se questionaram. Talvez o problema esteja em mim que não consigo concentrar-me com barulho…
    Mas os personagens desta estória tinham o privilégio de encontrar paz no silêncio cúmplice e partilhado. E isso só é possível com poucas pessoas. Conversarmos com alguém, é normal. Sentirmo-nos em plenitude na companhia de alguém estando em silêncio, e perceber que a outra pessoa sente o mesmo, isso é muito mais raro…
    Por isso, com essa cumplicidade feliz e com o Mar ali ao lado, o final desta estória só pode estar envolvido em beleza, ternura e amor.
    Obrigada pela crónica e pela oportunidade que nos dás de sonhar.

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