Crónica de Mário de Sousa | Uma lata de Kenco

  Crónica de Mário de Sousa Uma lata de Kenco   Arrumar a minha garagem hoje convertida em biblioteca e arquivo, termina sempre numa viagem ao passado porque se relê um caderno de apontamentos, se descobre um disco (daqueles de vinil), uma fotografia, um convite, um ínfimo cartão-de-visita, um guardanapo assinado. Por vezes a lágrima resvala num qualquer pedacinho de argila a dizer ‘És o melhor Pai do Mundo’. Tudo isto me fez lembrar a minha lata de café Kenco. Vou-vos contar o porquê desta lata ser importante para mim.…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | ‘Acto da Primavera’ – O Quotidiano Religioso

  Crónica de Mário de Sousa ‘Acto da Primavera’ – O Quotidiano Religioso   Em 1958, passeando por Trás-os-Montes na busca de moinhos que lhe pudessem ser úteis como elementos de um filme sobre o pão, Manoel de Oliveira tropeçou um dia em três grandes e toscas cruzes de madeira no topo de um cerro. Procurou o seu porquê, obtendo como resposta que aquelas cruzes eram utilizadas na Primavera, numa festa popular onde se recriava a Paixão de Cristo, na localidade de Curalha, arredores de Chaves. Interessa-se pela história e…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | ’Douro, Faina Fluvial’ – O Quotidiano Profano

  Crónica de Mário de Sousa ’Douro, Faina Fluvial’ – O Quotidiano Profano   Fez no passado dia 5 de Abril sete anos que Manoel de Oliveira faleceu. Idolatrado por uns, amado por outros e odiado por muitos, a sua falta de consensualidade deve-se ao pouco conhecimento que temos do cinema de autor. Pouco antes da sua morte, num colóquio sobre cinema português na Universidade Aberta apresentei uma comunicação com o título ‘Douro Faina Fluvial’, ‘Acto da Primavera’: os quotidianos profano e religioso em Manoel de Oliveira’. É a 1.ª…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | O regresso

  Crónica de Mário de Sousa O regresso   Uba Nhaga regressou da Bissau. Muitos anos de trabalho, dois cobertores de lã, dois pares de sapatos, uma farda de ganga descorada e algumas notas de peso dentro da mala de chapa, eram todas as suas bambas. Sem troco para toca-toca, viajou no pé, comeu raízes da terra e bebeu água de bolanha. Uba Nhaga, velho e cansado, voltava ao seu chão. Pouca gente encontrou na tabanca. Das suas mindjeris apenas a garandi, a primeira mulher, o esperou. Fora a única…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | O homem de bronze

  Crónica de Mário de Sousa O homem de bronze   A praça, como a maioria das praças era retangular e tinha uma estátua no meio. Nas costas do Homem de Bronze, duas ruelas estreitas e sinuosas desfaziam a última curva de encontro aos gavetos que as terminavam. Orlando a placa central, árvores descarnadas de folhas, exibiam magros braços erguidos, implorando aos céus sabe-se lá o quê. No outro topo da praça duas igrejas flanqueavam a avenida que lá desaguava Gente, gente sem cor nos rostos, em passo miúdo deslizava…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | Mingas

  Crónica de Mário de Sousa Mingas   Passou-se há cerca de doze anos; começou em Bissau e terminou em Lisboa. Foi assim: Domingas Seidi, ‘Mingas’, vendia fruta, ‘mango di faca’. Magrinha, espigadota, carita muito serena dizia-me sempre: ‘Pai, me compra mangos, são bons; vai vê qui vai gostá’. Eu enxotava-a ”… Não amiga, não quero mangos. Depois! … A cidade está cheia de crianças que vendem qualquer coisa. E ela lá ia, rua fora bamboleando um rabo encarrapitado em duas pernas magras e compridas. Não tinha mais de 8…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | Hopper

  Crónica de Mário de Sousa Hopper   No Verão de 1983, terminei um estágio de programação de computadores em St. Neots, pequena vila de Cambridgeshire. Precisava de um alojamento em Londres para onde iria, e um amigo indicou-me uma residencial em Padington que praticava preços muito acessíveis. Deu-me como referência um tal Brigs, amigo de longa data. Apanhei o comboio para Londres. Cheguei a Victoria Station já o sol se escondia por detrás dos telhados. Brigs recebeu-me com alguma contenção mas disponível para me alojar o melhor e mais…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | No 5 de Outubro de 1910

  Crónica de Mário de Sousa No 5 de Outubro de 1910   Nesse dia, o pequeno Saúl saiu de casa para ir entregar um par de botas novas a casa de um cliente do pai que morava na atual Rua Jardim do Regedor ao Rossio. Eram sete da manhã e o dia apresentava-se fresco o que era bom pois o caminho que havia para fazer seria para ser feito a pé. Naquele tempo, para além de haver muito poucos transportes públicos o dinheiro era escasso para os usar. Por…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | Rebecca Npanzú

  Crónica de Mário de Sousa Rebecca Npanzú   Foi em 2010. O Sol perpendicular mostrava as horas como um relógio de pêndulo e queimava a paisagem. A cidade de S. Tomé dormitava, embalada pelo ar quente e húmido que subia da terra vermelha perfumando tudo. O sítio era a entrada do Centro Cultural Português e as três da tarde a hora a que a Feira do Livro deveria abrir. Refugiado na sombra duma acácia fronteira, contemplava sem ver o outro lado da rua. Era aquela dormência do calor húmido…

Ler mais

Crónica de Mário de Sousa | Em jeito de começo!

  Crónica de Mário de Sousa Em jeito de começo!   Ao aceitar o convite do Jornal de Mafra para esta colaboração quinzenal, aceitei também o desafio da estreia no modo de escrita que é a crónica. Não sei se me vou sair bem, mas espero com sinceridade, produzir textos que os leitores ao lerem, não sintam que foi tempo perdido. Ora início só há um, e por isso, o primeiro encontro, o primeiro sorriso, o primeiro brilho de olhos são sempre decisivos na forma como a ‘carruagem’ irá mover-se…

Ler mais