Crónica de Alexandre Honrado | Nada ou alegadamente coisa nenhuma

NADA OU ALEGADAMENTE COISA NENHUMA   Num texto de Desidério Murcho, filósofo português e professor na Universidade de Minas Gerais, no Brasil, saltou-me à vista uma pergunta formulada por Leibniz, filósofo alemão dos séculos XVII e XVIII: “Por que há algo em vez de nada?”. Sim. Porque é que há sempre alguma coisa, em vez da suave equidade da coisa nenhuma, do nada tranquilizador, da pacífica ausência de objetos, opiniões, sentimentos, atitudes? Não estrarei em disputa com as ideias de Leibniz, por minha incapacidade, nem irei à procura da intensa…

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Crónica de Alexandre Honrado | A bicicleta dos sentidos

A BICICLETA DOS SENTIDOS   Louis Aragon, poeta e escritor francês cuja memória bem podia ser resgatada, escreveu um dia que “o espírito desprende-se um pouco da mecânica humana, e então já não sou a bicicleta dos meus sentidos, a pedra de aguçar as recordações e os encontros”. A primeira vez que li isto, sendo eu então jovem de mais, fui atraído pela beleza das sonoridades. O texto era, mais do que palavras, uma escada de palavras seguidas de palavras, ou melhor, uma sobreposição encadeada que tinha a dimensão do…

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Crónica de Alexandre Honrado | Para além do bem e do mal

PARA ALÉM DO BEM E DO MAL “Permitiremos tudo, até os nossos pecados”, sentenciava o escritor Fiódor Dostoiévski, no seu livro Irmãos Karamazov, antecipando, como profeta literário – os melhores profetas parecem ter sido sempre os literários –, um mundo novo alicerçado no falhanço e na contração dos valores a ponto de cultivar os mais medíocres. Dostoiévski punha a sentença na personagem de um Grande Inquisidor e na análise da missão da Igreja e apresentava-nos um Cristo que, mal regressado à Terra, era encarcerado, precisamente por ordem da Igreja. Para…

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Crónica de Alexandre Honrado | Abril não é uma rua deserta

  ABRIL NÃO É UMA RUA DESERTA   Não falo de abril como de uma rua deserta, muito menos como uma azia fétida, um mau hálito de coisa podre instalada nos que lhe viraram as costas. Se não fosse abril éramos muito pouco, mesmo os mais medíocres de nós. Os medíocres são os que ficaram a abanar as suas pernas e as suas poucas e ralas ideias curtas em cima dos móveis do passado, uivando como algum vento aborrecido, com os colmilhos ávidos da jugular alheia, que nem sempre ousam…

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Crónica de Alexandre Honrado | Sempre que nos negam a brandura

SEMPRE QUE NOS NEGAM A BRANDURA   Portugal nunca foi de brandos costumes. Nasceu dos atos violentos da ocupação progressiva do que era de outros, trazendo o território do Minho ao Algarve e, não contente, expandindo-se com ferro, fogo e alguma ideologia, por outros continentes. Das batalhas de Pedroso,  e de Arouca, ainda nem reino se formara, à Operação Penada na Fronteira de Moçambique com o Malawi e a Rodésia, à Operação Ametista Real, em Guidaje, na Guiné, sem sabermos exatamente o número de mortes portuguesas e dos adversários, a…

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Crónica de Alexandre Honrado – A escassez que nos esvazia

Falava, por sugestão de outros, sob o tema escassez quando me dei conta de que, por escassez óbvia, havia na plateia quem desconhecesse o termo. Creio que este fenómeno se tornou recorrente: falamos de coisas que julgamos óbvias, ou interessantes, ou mesmo necessárias – e já não o são, porque as escassas plateias que nos ouvem se afastaram do exercício do reconhecimento, se alhearam a dado passo, e só se mobilizam para uma discussão fortuita de futebóis, que, esses também, se tornaram escassos, no interesse, no desportivismo que traíram, na…

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Crónica de Alexandre Honrado | Extinção

EXTINÇÃO Tornando-se um dos animais mais hábeis na difícil tarefa da sobrevivência, o ser humano, primata excepcional, canalizou a sua agressividade não só para a competição entre si, por vezes ilimitada e cruel, como para a aquisição de algum conforto capaz de facilitar-lhe a vida e afeiçoar-lhe o comportamento, por vezes de modo inusitado, surpreendente, e tantas vezes errado. A única espécie animal ainda viva de primata bípede do género Homo tem a estranha capacidade de escolher o seu destino. É a única espécie que mata conscientemente, sem razão aparente,…

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Crónica de Alexandre Honrado | O elogio dos assobios

O ELOGIO DOS ASSOBIOS   Em garoto “fazia” assobios – seriam apitos, claro – esfregando sementes secas nas pedras e provocando-lhe um pequeno orifício, pelo qual soprava provocando modulações inquietantes que atroavam os ares mas avisavam os familiares da minha posição relativa na selva dos becos, travessas e ruas das traseiras lá de casa. Gostava de assobiar, em miúdo, e ainda hoje, sem qualquer justificação, dou comigo a assobiar, reproduzindo músicas que me ficam a bailar por dentro e querem muito que as lance cá para fora. Tenho uma boa…

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Crónica de Alexandre Honrado – Loucura, cultura, ambiguidade

O mundo não é louco. Somos nós, os habitantes do mundo – os que espezinhamos, mudamos, torcemos o mundo à nossa vontade – que percorremos os mais variados degraus da loucura e com isso estragamos a intensa casa em comum que não respeitamos. Em boa medida, a loucura nem devia ser para aqui chamada, por constituir-se tão somente num estado de desinquieta quietação que leva, da agitação ao repouso, os nossos piores momentos. É bárbaro, e não louco, o mundo em que vivemos. Que teima nos mesmos erros do passado:…

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Crónica de Alexandre Honrado | Mau tempo. No canal

MAU TEMPO. NO CANAL.   Almoço. No local público há televisores em todos os recantos, de modo que na perspetiva de cada um não falte uma imagem, uma só que seja, do circo mediático. Os que não olham para os pequenos ecrãs dos telemóveis olham para os ecrãs medianos dos televisores. Poucos olham para o parceiro de mesa. Nos ecrãs, como na velhas casas dos horrores das feiras populares, só há sangue e morte, nuvens ameaçadores e gritos de sofrer. Mas na casinha dos horrores da feira nada disto é…

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