Crónica de Alexandre Honrado | Os meninos da Tailândia e a dor que somos

Os meninos da Tailândia e a dor que somos Há momentos que nos libertam do estado de mediocridade, do fútil em que nos atafulhamos. Um olhar de enorme coletivo para a Tailândia, à espera que um punhado de garotos sobrevivesse à traição que a sua própria aventura lhes reservou, é um desses momentos. Um grande punhado do mundo a olhar para  mesmo sítio, para o mesmo registo noticioso e a partilhar a mesma angústia. A monstruosidade que é a nossa incapacidade de ajuda somada com uma outra, a da impossibilidade…

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Crónica de Alexandre Honrado | Meia dúzia de ideias ou coisa nenhuma

Meia dúzia de ideias ou coisa nenhuma Quando trabalhamos nesse ingrato equilíbrio que é o de analisar cientificamente a cultura (que é sempre humana, mas nem sempre humanista ou valorizadora do ser humano) nada parece limitar-nos, a menos que os conceitos se ergam diante de nós como muros. É de conceitos que falo agora, escrevendo sobre eles. O estudo da cultura pode colocar na lamela do nosso microscópio a fatia de pizza, coisa praticamente universal, a tatuagem da pele ou do muro da rua, o piercing, a mesquinhez do comportamento…

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Crónica de Alexandre Honrado | Porque não sou uma estante (nem um canapé)

PORQUE NÃO SOU UMA ESTANTE (NEM UM CANAPÉ)     Tenho inúmeros livros na cabeça, alguns da capa à contracapa, sei-os quase de cor; li magras edições, revistas de quadradinhos, calhamaços e coisas ditas sérias, até o Anthony Giddens me ensinou que “para controlarmos o futuro, é necessário que nos libertemos dos hábitos e preconceitos do passado”  – e todavia tudo isso não faz de mim uma estante. Já dormiram sobre mim – e nunca fui almofada ou cama. Já tive pessoas ao colo, algumas recém nascidas outras bem graúdas…

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Crónica de Alexandre Honrado | Como se morre na praia

COMO SE MORRE NA PRAIA   Na minha crónica da semana passada, sobre o trágico acidente que vitimou um casal de turistas, de férias, na Praia dos Pescadores da Ericeira, local que, tal como eu, muitos portugueses já visitaram e olharam com demora retendo-lhe muitos pormenores, alguns comentários foram-me chegando. Num deles, uma simpática senhora dizia que não sabia onde eu – tratava-me por senhor – queria “chegar” com o texto. E eu não percebi, obviamente, onde é que a senhora quis chegar com o comentário que, aliás, arrebatou e…

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Crónica de Alexandre Honrado | Não sei dançar ao som da morte

NÃO SEI DANÇAR AO SOM DA MORTE   Morreram duas pessoas na Praia dos Pescadores da Ericeira, caíram de um muro que acaba no passeio do Largo das Ribas e se precipita até ao areal, o mesmo de onde partiu a família real para o exílio, embarcando na barca Bomfim para alcançar o iate D. Amélia e, indo nele, procurando um novo mundo. Da praia da história e da felicidade dos risos de Verão e dos gritos dos miúdos ao entrar na água fria, da praia da ansiedade dos monarcas…

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Crónica de Alexandre Honrado | Não só o burrito vai à feira

NÃO SÓ O BURRITO VAI À FEIRA     Como todos os anos, de há uns 30 a esta parte, dei comigo na feira do livro, sorrindo a leitores ou a compradores de livros, colocando dedicatórias com mais ou menos criatividade, uma delas ímpar – “dedique aos meus netos, que são oito, e todos ficarão contentes!” -, outras menos originais, mas sempre felizes, ao saírem do meu punho para parte incerta. Como todos os anos, não consigo deixar de me sentir observado – é confrangedor estar sentado numa mesinha e…

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Crónica de Alexandre Honrado | A morte e outras coisas

A MORTE E OUTRAS COISAS   Era outrora que nos davam um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola. O mapa imaginário, onde não vinha a nossa idade. A poeta – Natália! – bem o sabia. Mas esse outro tempo definhou como definharam outros tempos e uma espécie de esperança – embrulhada em nostalgias e profundas ingenuidades – foi crescendo em nós e pensámos que ainda um outro novo tempo podia mesmo construir-se e, se não pudesse construir-se era a nós que nos cabia e alguma…

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Crónica de Alexandre Honrado | Nada ou alegadamente coisa nenhuma

NADA OU ALEGADAMENTE COISA NENHUMA   Num texto de Desidério Murcho, filósofo português e professor na Universidade de Minas Gerais, no Brasil, saltou-me à vista uma pergunta formulada por Leibniz, filósofo alemão dos séculos XVII e XVIII: “Por que há algo em vez de nada?”. Sim. Porque é que há sempre alguma coisa, em vez da suave equidade da coisa nenhuma, do nada tranquilizador, da pacífica ausência de objetos, opiniões, sentimentos, atitudes? Não estrarei em disputa com as ideias de Leibniz, por minha incapacidade, nem irei à procura da intensa…

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Crónica da Alexandre Honrado || A Agonia

A AGONIA Foi ideia de alguns sonhadores excecionais essa utopia das fragilidades e do imprevisível, resultante de paixões antigas e ânsias muito renovadoras e jovens, a que genericamente se chamou Democracia e que, por herança, recebemos tardiamente da mão fértil da democratização europeia, graças a um punhado de homens de elite que já eram europeus à moda nova antes de muitos outros. Tratando-se de uma construção colectiva, como certas obras de grandeza maior – recorde-se aqueles aquedutos que beneficiavam todos e matavam a sede de povos merecedores que os pagaram…

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Crónica de Alexandre Honrado | A bicicleta dos sentidos

A BICICLETA DOS SENTIDOS   Louis Aragon, poeta e escritor francês cuja memória bem podia ser resgatada, escreveu um dia que “o espírito desprende-se um pouco da mecânica humana, e então já não sou a bicicleta dos meus sentidos, a pedra de aguçar as recordações e os encontros”. A primeira vez que li isto, sendo eu então jovem de mais, fui atraído pela beleza das sonoridades. O texto era, mais do que palavras, uma escada de palavras seguidas de palavras, ou melhor, uma sobreposição encadeada que tinha a dimensão do…

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