Crónica de Alexandre Honrado – Sem guerra nem guerreiros

  Crónica de Alexandre Honrado Sem guerra nem guerreiros   Houve um momento neste verão em que, isolado de todos os contextos, vivi trinta e alguns segundos de uma paz indescritível, um silêncio casto, uma temperatura amena, nenhum sobressalto diante dos olhos, a ausência total de cheiros incómodos, uma superfície que ao tato me trouxe uma memória de infância numa época em que a ausência da compreensão do mundo era apenas a graça de nada compreender – ou querer. Durante esses segundos de um bendito alheamento, senti-me longe de qualquer…

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Crónica de Alexandre Honrado – Como um gelado se lê

  Crónica de Alexandre Honrado Como um gelado se lê   Nem o verão interrompe as tarefas, mas cá estou, entre elas, entre as tarefas, a procurar espaço e sombras paras as leituras, algumas até muito ensolaradas. Escrever, minha paixão, talvez resulte desses tantos e enormes enamoramentos com a leitura. Por identificação, acabo por tirar da prateleira da livraria uma obra de humor inteligente. Sem inteligência o humor é mais uma stand up comedy de criaturas sentadas. Confesso que me identifiquei com a obra, e então trouxe-a bem agarrada, embora…

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Crónica de Alexandre Honrado – Entre a vida e a morte

  Crónica de Alexandre Honrado Entre a vida e a morte   Íamos três. Nessa época era muito comum. Fazíamos centenas de quilómetros e conversávamos. As conversas eram mais compridas que os quilómetros contados. Estava um verão daqueles, que só algumas zonas do mundo conhecem, com temperaturas anormalmente altas e comentários anormalmente disparatados, atribuindo culpas a quem as não tinha, e endossando os caprichos da natureza às incapacidades humanas. Ainda na véspera tínhamos discutido coisas dessas, de vida e morte, como são sempre as coisas mais extremas entre nós, os…

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Crónica de Alexandre Honrado – Escrever ou não escrever-me eis a questão

  Crónica de Alexandre Honrado Escrever ou não escrever-me eis a questão   Tenho de confessar que é um sintoma revelador dos meus desequilíbrios mais comezinhos o facto de não escrever. E às vezes a ausência é notória e dorida, acreditem. Quando estou feliz – ou pelo menos motivado – é na escrita que estabeleço os primeiros degraus de uma subida à tona, pois, mesmo sem grande objetivo a cumprir, sei que as ideias escritas fixam e fixam-nos enquanto seres, melhorando graus de entendimento e de sociabilidade, elevando os nossos…

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Crónica de Alexandre Honrado – O que escrever quando é inútil a escrita (três)

  Crónica de Alexandre Honrado O que escrever quando é inútil a escrita (três)   Dizer o indizível – será o segredo. São Francisco[1], no Speculum perfectionis, afirma: “pois não serão os servidores de Deus senão uma espécie de jograis que têm por missão elevar o coração dos homens e conduzi-los à alegria do espírito?”. Fernando Pessoa estabelece como “as palavras são focos de energia com efeitos invisíveis”[2]. Os exemplos seriam infinitos. Limito-os. Na formulação do espírito, a palavra do Poeta, em geral, é não reverente[3]. Isso pode torná-lo, em…

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Crónica de Alexandre Honrado – O que escrever quando é inútil a escrita (dois)

  Crónica de Alexandre Honrado O que escrever quando é inútil a escrita (dois)   Ao ser impossível a poesia – depois do triunfo da barbárie – a aceitação da derrota do Homem interior (aquele que descobre as vias da experiência interna,  capaz da produção de leituras superiores de si, dos outros e do mundo  que o rodeia, mesmo do intolerável), o homem ficar-se-ia pelo Real, impedindo o Irreal, ou o que, na sua capacidade de criar, permite suportar a realidade e vê-la de um modo elevado e amplo. Ou,…

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Crónica de Alexandre Honrado – O que escrever quando é inútil a escrita

  Crónica de Alexandre Honrado O que escrever quando é inútil a escrita   Se Adorno[1], a propósito do Holocausto, afirmou que “já não é possível escrever poesia depois de Auschwitz”, é tempo de aceitar uma ideia que há muito me persegue: depois de tudo o que o século XXI tem produzido, já não é possível escrever uma prosa identitária e o que dela restar em afetividade arde no lume brando de todos os impactos traumáticos? (Falo da produção do Mal, para usar uma imagem fácil. Falo dos fundamentalismos, dos…

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Crónica de Alexandre Honrado – O fantoche que há em todos nós

  Crónica de Alexandre Honrado O fantoche que há em todos nós   Haverá algum mundo paralelo onde sejamos capazes de reconfigurar o sensível? É no mundo sensível que podemos criar um antipoder, onde podemos modificar o mundo egoísta e bélico, produtor dos níveis de dominação e de destruição, que impedem a construção do futuro, um espaço ideal em que (nos) transformamos em seres e coisas sustentáveis e de vocação de proximidade e aceitação de todas as diferenças, afinal aquilo que conhecemos por democracia e que traímos a cada passo.…

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Crónica de Alexandre Honrado – Uma presença sem mistério

  Crónica de Alexandre Honrado Uma presença sem mistério   É logo no início da década de 1980 que Eduardo Lourenço vê publicado um dos (seus) livros que mais reli: O Espelho Imaginário. Fala de pintura, também de antipintura e de não-pintura e como sempre acontece com Lourenço vamo-nos enredando numa linguagem tecedora, das que nos levam às profundezas – às “profundidades vazias da nossa impotência” – mas que nos mantêm à tona, puxados invariavelmente pela inebriante magia do que no pensador resiste do poeta e do que na escrita…

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Crónica de Alexandre Honrado – Regressar à Ucrânia

  Crónica de Alexandre Honrado Regressar à Ucrânia   Estive várias vezes na Ucrânia, em várias e distintas qualidades, até fui um dos autores de uma canção do festival da Eurovisão, peripécia de que hoje guardo uma memória esfumada, como se fosse outro eu a passear-me pela green room de Kiev à espera de votações e atuações. Não é importante este episódio, sendo meu partilho-o, considero importante, isso sim, ter estado várias vezes na Ucrânia, ter-me apaixonado pelo país, emergente das velhas repúblicas socialistas soviéticas, tendo reconhecido nele inúmeras qualidades,…

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