Crónica de Alexandre Honrado – COVID-19? Deixei de ter tempo livre

Deixei de ter tempo livre desde que estou confinado a um espaço – com computador e ainda alguma comida. É um exílio dourado, na província, a muitos quilómetros da capital, com o céu por companhia e a natureza pouco espezinhada a tocar-me de leve, que isto agora é tudo um toque leve, nada de apertos de mão ou beijos prolongados. Não vejo muita gente, não só porque os outros se isolaram mas em especial porque aqui o ser humano não lhe apetece estar, dá muito trabalho estar num sítio destes.…

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Crónica de Alexandre Honrado | Coronavírus – A repetição de um pesadelo

Pandemia. Loucura. Morte. É como se todos os sinos do mundo tocassem a rebate, os alarmes soassem, as sirenes não parassem de clamar. Isto no mundo, nos cinco continentes, mas sobretudo dentro das nossas cabeças, onde os alarmes são sempre mais fortes. No supermercado olham-me com muito desdém; eu sou aquele que transporta os elementos mais bizarros: um vaso com uma pequena oliveira, tão diferente das oliveiras assassinas que vi há dias, a crescer à força de estímulos químicos e a matarem toda a fauna em seu redor, ali mesmo,…

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Crónica de Alexandre Honrado – O que fazer na minha ilha

Leituras muito variadas – não necessariamente em livros, ou em artigos dos muitos jornalismos ou das emanações académicas -, leituras feitas olhos nos olhos, a maior parte das quais assentes na observação do que somos, do que estamos a deixar de ser e resultantes da mundividência (isto é, do modo de ver o mundo) e sobretudo da mundivivência (em neologismo, o modo de viver o mundo, palavra que nenhum dicionário aceita), levam-me a interrogar as ideias que construí da condição humana, do humanismo, da produção identitária e da evidente dispersão…

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Crónica de Alexandre Honrado – Esqueçam a eutanásia, ainda temos o suicídio

Um dos meus interesses de estudo – ando a tentar reduzi-los a dois, mas não percebo bem como se faz – obriga-me a perder longas horas com o tema cultural (e político) do esquecimento, numa época, a nossa, que tem no topo da lista das doenças o Alzheimer, e, nas notícias mais recentes, uma constatação fácil de assimilar: “[Em Portugal] apesar do decréscimo da população, o número de pessoas com demência irá mais do que duplicar: de 193.516 em 2018 (1,88% da população) para 346.905 em 2050 (3,82% da população)”.…

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Crónica de Alexandre Honrado – Mas as crianças, senhor, porque lhes dais tantos gadgets?

Oferecemos horizontes infinitos aos nossos filhos – sem lhes mostrar a qualidade do terreno onde devem por os pés e a beleza intensa dos avós que deram a vida e a glória para que hoje pudéssemos olhar para os telemóveis em liberdade. Olhar para quem me rodeia faz parte de uma militância cultural. Leva-se ideias para recolher outras, ausculta-se os pulmões da Nação e aprendemos o tamanho do que somos – quase sempre menor do que aquele que nos atribuímos. O querido filósofo português José Gil  antecipou-se às razões maiores…

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Crónica de Alexandre Honrado | George-Steiner – Morre a cultura em palavras e silêncio

De repente apetece-me confessar que todos os textos, mesmo aqueles onde mais ficcionamos, são textos escritos na primeira pessoa, textos no singular, mesmo os menos singulares. Este é portanto um texto desses. Um texto na primeira pessoa e magoado, mal refeito das emoções, uma tatuagem mal cicatrizada, por outras palavras: um texto à flor da pele. Estive duas vezes ao pé de George Steiner. Numa, com timidez, apertei-lhe a mão, julguei-me eleito, um privilegiado. Foram encontros ocasionais, Steiner falava publicamente, e eu estava numa das filas sombrias mas não frias…

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Crónica de Alexandre Honrado | Como me afogo nestes dias secos

Um copo de água e eu. Tento fixar os olhos na aparente, quase chocante transparência do líquido; são os meus olhos que se turvam e perdem. Vejo à minha beira uma barcaça cheia de foragidos. Chamam-lhe refugiados, chamo-lhe gente perdida no labirinto dos que lhes impõem o rumo. “A Polícia Marítima detetou na madrugada desta quarta-feira uma embarcação com 11 imigrantes ilegais a bordo junto a Olhão, três dos quais tiveram de ser transportados ao Hospital de Faro para despistar problema de saúde“. Bebo um gole de água, para disfarçar.…

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Crónica de Alexandre Honrado – Não nos doí o que já esquecemos

De vez em quando, por falta de tema, um órgão de comunicação social traz das profundezas dos tempos os moais, ou naokis, essas enormes estatuetas de pedra que ainda hoje se erguem na ilha de Páscoa, e, a propósito, fala-nos daqueles que as terão feito e que, com algum mistério para nós, desapareceram deixando-as apenas como prova da sua existência. Se procurarmos na História, esse desaparecimento não é exceção. E passo a enumerar alguns dos muitos exemplos possíveis. O debate mais recente retoma a discussão sobre o desaparecimento do homem…

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Crónica de Alexandre Honrado – Levarei os meus olhos cheios do que não vi

Não tenho saudades do passado. A minha terra, quando eu era pequeno, era um local cinzento e cheio de cicatrizes, assim uma espécie de sarjeta – dessas onde aquele deputado isolado do parlamento, a quem eu chamo o Menino Mussolini, gostava de ver de volta. Não tenho saudades da ordem na ponta das espingardas e dos escândalos atrás das portas. Prefiro armas à vista, de preferência entregues para abate, e escândalos que possam ser julgados pelo Estado de direito, à vista e de preferência entregues à justiça, para abate. Não…

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Crónica de Alexandre Honrado – C 3 I, Paranóia, Trump, Novo Ano.

Alguém me disse, com olhos doces mas com emoção acesa, que tinha tido a ilusão de um mundo melhor durante a passagem de ano e a desilusão de sofrer com o apocalipse e o fim do mundo nos dias imediatamente a seguir: as mortes nos pavorosos incêndios na Austrália; e o terrorismo protagonizado por Donald Trump, a procurar, em última e derradeira jogada, impedir a sua suspensão como Presidente dos Americanos, dando-lhes em troca o que a seu ver é um paraíso de justiças duvidosas: mais uma guerra. Não sei…

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