Crónica de Alexandre Honrado | Eleições (2) – O Balancé

Alexandre Honrado

Crónica de Alexandre Honrado

Eleições (2) — O Balancé

 

Quando acaba um campeonato nacional, I Liga, ou outro com nome alternativo, só há lugar no pódio para um vencedor, nem que o desempate venha por golos marcados e sofridos, em comparação, ou por um sistema qualquer que faça jus ao premiado. Em política não é muito diferente. Não sei se a imprensa já notou, mas há um vencedor — o PSD, ou seria mais correto dizer o Professor Marcelo — e muitos derrotados. Há um partido que, por equívoco, chegou a um milhão de votos, mas os outros andam pelos cinco milhões e as percentagens só cavam a diferença.

A falar verdade, como no futebol, todos perderam, menos o vencedor que, à rasca, suou muito frio, teve palpitações, espasmos, tremuras, como todos os doentes com uma certa idade que no centro de dia se rodeiam de outros doentes, idosos como eles, mas onde alguns até se mantêm, por tempo indefinível, na administração do lar.

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É claro que alguns saudosistas — dos tempos em que os subsídios europeus eram desperdiçados, as casas de férias eram compradas com o crédito jovem à habitação (um dos cancros que hoje impede muitos jovens de comprar casa), a saúde começava a privatizar-se, a imprensa a politizar-se (à direita), a agricultura e as pescas eram destroçadas, e os jipes subiam incrivelmente de vendas, já que ninguém queria um trator inútil, mas, em seu lugar, um sinal exterior de uma riqueza impensável num país pobre que tivera 50 anos de atraso e tacanhez, orgulhando-se de umas autoestradas que mais tarde vieram a ter de ser corrigidas pelos erros de percurso — por isso e mais alguns desaforos, os saudosistas foram buscar o Padrinho. O padrinho desses tempos. Deram-lhe uma transfusão qualquer, e uma singular forma anímica à beira da síncope vasovagal e exibiram-no pelos comícios, como outrora os colonialistas mostravam o “gigante de Moçambique”, um pobre cidadão africano, Gabriel Estêvão Monjane que nasceu em 1944 em Manjacaze, na província de Gaza, em Moçambique, mostrado aos incrédulos como atração com os seus dois metros e 45 centímetros e 158 quilos de peso, não sei se licenciado em Finanças e Doutorado em Economia, mas duvido muito dada a extrema pobreza da sua condição.

Não foi, no entanto, essa exibição de moribundos que deu a vitória aos vencedores, eles mesmos pobres impreparados para o futuro que os espera, movidos pela sede de irem encontrar um país diferente, de cofres cheios e políticas certas, resultado de uma maioria que a acidez presidencial combatia até a vencer, mas uma conjugação de fatores não inesperada.

O eleitorado balancé fez-se representar uma vez mais, o que não é inédito na história portuguesa. Há dois anos, dava uma maioria absoluta; dois anos depois dava uma incógnita absoluta aos próximos anos. Há crianças que para não comerem a sopa, protestam comendo punhados de terra ou areia. Qualquer porcaria serve para o protesto. Bem conhecido de outros momentos da nossa história, o eleitorado balancé mudou para o outro vértice. O pai da habilidade circense manteve-se em silêncio e como está de saída das suas funções pediu para usar o nome de Pilatos, por precaução. Entretanto difamaram-se pessoas, assassinaram-se o carácter e o bom nome de quem calhou.

Os vencedores estão agora metidos numa “camisa de onze varas”, o povo, esse, continua a não votar e a tentar comer pelo menos uma vez por dia, e a sua maior conquista — a vitória de Abril74 e tudo o que lhe/nos trouxe — parece enxovalhado, salpicado de uma tinta tóxica e contra o ambiente como aquela que alguns miúdos teimam em atirar como pequenos delinquentes que, a olhar para o novo parlamento, deve agradar aos grandes delinquentes que agora lá entraram e que, a propósito, nem a letra do hino nacional sabem de cor (ouviram aquilo?).

Não pense o partido que perdeu e que declara vitória que é muito mais do que uma triste barriga de aluguer; está destinado ao fracasso a médio prazo, esperemos que a curto prazo.

Tenho pena ao saber que será do meu bolso — e dos bolsos daqueles que, como eu, não têm posses para isso — que irá sair os seus ordenados, regalias, serpentinas e foguetes e cuecas com a bandeira.

Como consolação: somos mais, mais cultos, mais sérios e mais preparados do que eles. E. não sei se já disse: eles perderam.


Alexandre Honrado

 


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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