Crónica de Alexandre Honrado | Como se morre na praia

COMO SE MORRE NA PRAIA   Na minha crónica da semana passada, sobre o trágico acidente que vitimou um casal de turistas, de férias, na Praia dos Pescadores da Ericeira, local que, tal como eu, muitos portugueses já visitaram e olharam com demora retendo-lhe muitos pormenores, alguns comentários foram-me chegando. Num deles, uma simpática senhora dizia que não sabia onde eu – tratava-me por senhor – queria “chegar” com o texto. E eu não percebi, obviamente, onde é que a senhora quis chegar com o comentário que, aliás, arrebatou e…

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Folhetim | Muitas e desvairadas gentes (5º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério MUITAS E DESVAIRADAS GENTES (5º. Episódio) – Que Deus nos defenda! – dizia, enquanto beijava o Bentinho Doutor Sousa Martins que sempre trazia pendurado no fio de prata, juntamente com o crucifixo que a prima Maria do Sacramento lhe tinha trazido da excursão à Terra Santa, promovida pelo senhor Padre Francisco, um santo homem que, por um preço insignificante, lhes servira de guia e ainda por cima tinha ajudado a transportar ao hospital a Maria das Poças que em má hora torcera um artelho…

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Crónica de Alice Vieira | Dantes os comboios

DANTES OS COMBOIOS Alice Vieira   Mais do que as viagens, mais do que ficar a olhar pela janela pensando que eram as árvores e as casas e as estradas e os campos que corriam e não eu–foi o cinema que muito cedo me deu a paixão pelos comboios. Cinema a preto e branco, evidentemente, onde os comboios eram daqueles a sério, apareciam e desapareciam entre espessas nuvens de fumo, e depois no meio delas acabávamos por descobrir o herói que chegava, ou que afinal não tinha partido e decidira…

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Crónica de Alexandre Honrado | Não sei dançar ao som da morte

NÃO SEI DANÇAR AO SOM DA MORTE   Morreram duas pessoas na Praia dos Pescadores da Ericeira, caíram de um muro que acaba no passeio do Largo das Ribas e se precipita até ao areal, o mesmo de onde partiu a família real para o exílio, embarcando na barca Bomfim para alcançar o iate D. Amélia e, indo nele, procurando um novo mundo. Da praia da história e da felicidade dos risos de Verão e dos gritos dos miúdos ao entrar na água fria, da praia da ansiedade dos monarcas…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | A Arte

A Arte Tentar ocupar o vazio. O espaço sem espaço. Uma simulação de ser. Uma aventura que sabe sempre a pouco. As letras a cavalgarem-se. Um galope alargado. Um abecedário que escreve o nome de todos os obstáculos que se vão ultrapassando. Até ao fim da dor. Até à linha final. Um tempo enganado, um tempo de enganar. Um tempo que, por vezes, custa a percorrer. Há sempre mais uma árvore atravessada no caminho. Uma floresta de enganos e um não saber da próxima corrida, da próxima desventura. Acreditar que,…

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Crónica de Alexandre Honrado | Não só o burrito vai à feira

NÃO SÓ O BURRITO VAI À FEIRA     Como todos os anos, de há uns 30 a esta parte, dei comigo na feira do livro, sorrindo a leitores ou a compradores de livros, colocando dedicatórias com mais ou menos criatividade, uma delas ímpar – “dedique aos meus netos, que são oito, e todos ficarão contentes!” -, outras menos originais, mas sempre felizes, ao saírem do meu punho para parte incerta. Como todos os anos, não consigo deixar de me sentir observado – é confrangedor estar sentado numa mesinha e…

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Folhetim | Desvairadas Gentes (4º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério DESVAIRADAS GENTES (4º. Episódio) Preço bem discutido. – Por esse dinheiro compro eu três ali abaixo. – Venha cá, senhora, que eu não engano ninguém. Pela minha saúde que prefiro não ganhar dinheiro nenhum e estrear-me hoje com uma freguesa tão simpática. – Deixe-se de cantigas e guarde lá essas gabarolices para a sua mulher. – Prontos, freguesa, não se zangue que o cigano só quer servir bem o cliente. E gritava: – Olha as arcas de macacaúba! Venham ver que pr’a semana não…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | O Tempo que avança

O Tempo que avança Está passado já um mês neste Reino. Muitas coisas a acontecerem. A vida que não pára. Esta vida, que teima em copiar o mar. vão partindo e chegando pessoas. Vão e vêm afectos, ternuras, beijos e abraços. Há sempre coisas que faltam. Dores vadias. Pânicos que se instalam. Os livros que se vão lendo. Os textos que se vão escrevendo. Textos que vão variando com o tempo. A calmaria e o terramoto. Uma amálgama de sentimentos que nos habita. Sucedem-se acontecimentos em catadupa. Prisões de políticos,…

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Crónica de Alice Vieira | Tremoços na feira do livro

TREMOÇOS NA FEIRA DO LIVRO Alice Vieira   O mês de Junho é sempre rico de actividades. Começa hoje, com o Dia da Criança, este ano a calhar em dia útil e por isso lá se enchem as ruas de filas e filas de crianças dirigidas pelas professoras, que vêm ver o que cada terra tem para lhes mostrar. Ou, pelo menos, apanhar ar. Depois seguem-se os dias dos Santos Populares, as marchas—o que também anima sempre muito uma pessoa. Mas para mim o mês de Junho é sobretudo o…

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Crónica de Alexandre Honrado | A morte e outras coisas

A MORTE E OUTRAS COISAS   Era outrora que nos davam um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola. O mapa imaginário, onde não vinha a nossa idade. A poeta – Natália! – bem o sabia. Mas esse outro tempo definhou como definharam outros tempos e uma espécie de esperança – embrulhada em nostalgias e profundas ingenuidades – foi crescendo em nós e pensámos que ainda um outro novo tempo podia mesmo construir-se e, se não pudesse construir-se era a nós que nos cabia e alguma…

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