Crónica de Alexandre Honrado – Sorrisos velhos

Era o velho mais velho que todas as tardes cumpria, sem saber, a arte de fascinar-me. Eu era garoto, muito garoto, não entendia quase nada do que se passava à minha volta, mas sabia sem qualquer dúvida que o tempo em que existíamos era de podridão; vivíamos debaixo do capricho de um cérebro doente de um velho de outra espécie, sem escrúpulos nem patriotismo, que definhava com a pátria usando-a como um capacho, promovendo a sua miséria e a morte por opção. Ao outro velho, ao que conto agora, a…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Cores

Crónica de Jorge C Ferreira Cores Coloridas são as ideias que trazes na cabeça. Um caleidoscópio e um binóculo de ver amores. As meias berrantes que usavas. O cabelo de corte arrojado e uma cor que chamava olhos. Eram, no entanto, a variedade e a forma como os teus pensamentos nasciam que importavam e chamavam à atenção. O lápis. A mão ágil. O desenho a sair como se voasse. Um sortilégio. Uma quase magia. As mãos magras, delgadas, as unhas “arranjadas” e pintadas com a tinta da paleta. Os tubos…

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Crónica de Alexandre Honrado | O cano apontado – um texto de Natal

Crónica de Alexandre HonradoO cano apontado – um texto de Natal   Certo chefe de redação – figura e categoria profissional que caiu com o uso, desgastado e tido por supérfluo – de um jornal que, na época, considerámos como uma referência, vaticinava que, um dia, nem na data impressa na capa daquele ou de outro periódico podíamos confiar, até porque as “gralhas”, na altura tipográficas, dizia ele, não perdoam. Uma das coisas mais comuns nos dias de hoje é o somatório das notícias falsas ou de uma ardilosa construção…

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Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (24º. Episódio)

Folhetim por Licínia Quitério  Casa de Hóspedes (24º. Episódio) No outro dia, Dona Júlia encontrou Lucrécia na rua e, sorrateira, olá, Menina, bons olhos a vejam, sentimos a sua falta ontem ao jantar, ah comi qualquer coisa em frente ao Coliseu, em pé, ao balcão, que não podia perder tempo, tinha de conseguir um lugar, posso saber o que houve lá por esses lados, pode, claro, como é que hei-de explicar, houve o maior e mais emocionante espectáculo musical que eu vi até hoje, Dona Júlia, cantores, poetas, músicos, sim,…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Procurar

Crónica de Jorge C Ferreira Procurar Procurar, procurar, procurar. Muitas vezes uma busca cega, porque cega é a vontade de chegar ao apetecido, ao sonhado, ao desejado. Por vezes apetece desistir. Não sei se por o sonho ser demasiado ou a força fraca. As mãos abertas, os braços esticados. A tentativa de encontrar primeiro o todo que parece esquivar-se em golpes mágicos. Não vos vou dizer se é uma mulher, um homem, um feitiço, uma obra. Um encanto será por certo para merecer tal porfia. Esta teimosia de alcançar o…

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Crónica de Alice Vieira | A Universidade dos quadradinhos

Crónica de Alice Vieira    A UNIVERSIDADE DOS QUADRADINHOS Alice Vieira   Existe neste nosso mundo uma universidade popular e livre que, à margem dos ensinos oficiais e programados, enche de uma especial sabedoria as mais diversas camadas da população. Não dá diploma, não assegura emprego nem reforma—mas dá ao rosto de quem a possui um halo de beatitude que geralmente só transpira do coração dos iluminados. Para além de, como afirma a minha psicóloga, dar uma grande serenidade a quem está à procura dela. Refiro-me à sabedoria das palavas…

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Crónica de Alexandre Honrado | Porque escrevo isto?

Crónica de Alexandre Honrado Porque escrevo isto?   Não faço a menor ideia porque escrevo. Ganhei boa parte da vida a escrever, isso é certo, mas o que será isso de ganhar a vida? Todos, sem exceção, deviam nascer com o direito reconhecido ao chão que pisam. Este planeta é o chão de todos. A cama. A casa. O lugar da fogueira. O ponto de encontro da emoção. Escrevi –  e escrevo – coisas completamente disparatadas, inúteis, até sobre temas que não me interessam ou interessavam nada. É que fui…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Inquietação

[sg_popup id=”24045″ event=”onLoad”][/sg_popup] Crónica de Jorge C Ferreira Inquietação Essa arma que ergues. Essa canção que cantas. Cantas, cantas e não cansas. A cantiga na ponta da arma. Baioneta. A busca da mudança. A vida a castigar os corpos e a arte de saber ultrapassar o próprio viver. A vidinha. A triste sina. Não, não há destino. Somos nós que o construímos. Somos a força que, muitas vezes, não sabemos que temos. Os poemas que tantos escreveram. As vozes do desalinho. Uma escrita comprometida. O velho das botas. As gemadas…

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Crónica de Alexandre Honrado – Menos um dos nossos

[sg_popup id=”24045″ event=”onLoad”][/sg_popup] Menos um dos nossos Este parte, aquele parte e todos, todos se vão… Era uma das cantigas que ombreávamos há anos, já lá vai tanto tempo que o fio da memória tornou-se um fio de ouro muito valioso a segurar-nos o passado. Um desses fios que não parte. E todavia é tão fino, e no entanto todos partem. Os que mais amamos e os outros. Até aqueles que nos são indiferentes. E nós. Nós também partimos. Há por vezes estradas, ramais, becos no percursos por onde enfiamos…

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Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (23º. Episódio)

[sg_popup id=”24045″ event=”onLoad”][/sg_popup] Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (23º. Episódio) Casa de Hóspedes (23º. Episódio) Foi-lhe fácil o relacionamento com colegas de trabalho, raparigas e rapazes que, como ela, chegavam de todo o país, numa onda migratória que ajudava a despovoar o interior. Nessa Lisboa pardacenta, fechada à novidade, vigiada, Lucrécia foi descobrindo uma outra cidade, inconformada, de músicos e poetas e cantores, de palavra passada de casa em casa, de rua em rua, de bairro em bairro. De Paris chegavam discos e livros, embrulhados na roupa…

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