Crónica de Alexandre Honrado | A ação (e o desequilíbrio de alguns movimentos)

A AÇÃO (e o desequilíbrio de alguns movimentos)     A ação devia ser uma coisa benéfica. Devia ser o conceito orientador da mudança humana em cada sociedade em que se organiza – e devia mostrar quão dinâmico pode ser o Humano quando age, isto é, quando em ação. O aspeto social de todos os processos que nos movem devia ser uma prioridade dessa ação. Somos o que agimos, é certo, mas nada seremos se ao mesmo agir não soubermos juntar instrumentos e atos do pensar e do sentir. A…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A vida e as vidas

“A Vida e as Vidas” A barba crescida. O cabelo enorme. Os caracóis. Uns óculos escuros de aros redondos. Umas calças esquisitas. Uma camisa de colarinhos enormes. As cores exuberantes. As botas de tacão alto. Mais dez centímetros de altura. A noite que também cresce. Aparece, como num sonho, a virtual avenida de todas as cores. Milhares de luzes que nos embebedam. Fugimos. Acordamos. Uma cave. Um refúgio. Uma estranha aventura por inesperados ghettos. Choros de guerras ainda por esquecer. Há uma senhora, muito velha, que teima em ir para…

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Crónica de Alexandre Honrado | A morte em congresso

A morte em congresso Prepara-se –  e eu serei um dos “cúmplices” –  a realização do I Congresso Internacional: a morte – leitura da condição humana, aprazado para o período mediado entre os dias 21 e 24 de fevereiro de 2019 (e com encontro físico no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães). O tema impõe estremecimentos e para muitos algum distanciamento, porque mais vale ignorar do que encarar, pensam alguns. Serão mais de 100 comunicações, onze áreas temáticas, contar-se-á na oportunidade a presença de representantes de vários pontos do mundo.…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (6º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Casa de Hóspedes (6º. Episódio) O Sr. Mário era o hóspede mais antigo lá de casa. O mais antigo e também o mais velho. Foi ali parar quando o casamento de décadas não aguentou mais. Ao falar da mulher, tinha tremores nas mãos e gestos desordenados. Se era raiva, ou ódio, ou desamor, só ele saberia. Indiferença é que não era, a avaliar pela firmeza com que apertava e tornava a apertar o nó fininho da gravata. Ainda cumpria o seu trabalho diário no…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Proteger

Proteger As biqueiras das botas. Os pontapés em falso. Os protectores. O sapateiro. Os pequenos pregos na boca. Meia mão de cabedal. O martelo. As pancadas secas. A eficaz protecção. As botas cardadas. Os polainitos. A ordem para marchar. Enfrentar os tais canhões. Ir e vir. Um capacete mal-alinhavado. A corrida e o cansaço. Um fio ao pescoço com a medalha de uma santa. Acreditar que se está protegido. Uma bala perdida. Um grito de sangue. O nosso Anjo da Guarda. A protecção entregue a um ser invisível. Um suave…

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Crónica de Alice Vieira | Festas em Família

Festas em Família Alice Vieira A única vez que me lembro de me ter zangado mesmo a sério com amigos foi já há muitos anos quando, depois de me convidarem para passar o fim do ano com eles, ligaram a televisão e estiveram o tempo todo de olhos cravados no écran para ver se, num determinado concurso muito popular, que terminava nesse último dia de Dezembro, o vencedor iria ser quem eles queriam que fosse. Mal sabia eu que, muitos anos depois, com iphones e ipads e smartphones e o…

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Crónica de Alexandre Honrado | O cidadão presidente e o necrófilo

O cidadão presidente e o necrófilo A entrevista feita por um não jornalista a um não sujeito, o primeiro à procura de audiências e o outro felicíssimo pela atenção que lhe foi dispensada, trouxe alguns comentários para a praça pública. A confusão do entrevistado que não sabe nada sobre história, que confunde o passado e deseja para todos o que todos em seu juízo rejeitaram, só teve rival com a convicção do não jornalista, sorridente, pensando estar a fazer um serviço enorme, talvez até público, retirando arsénico e rendas velhas…

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Crónica de Jorge C Ferreira | “A procissão da vida”

“A procissão da vida”   Essas árvores sem folhas. Essas folhas de pisar. Esse andar almofadado. Um atapetado caminho. Um capote e uma bengala. O chapéu e a barba crescida. Uma mulher que se benze ao passar frente a uma igreja. Os caminhos que continuam a ser os mesmos. Muda tudo e nada muda. Continuam a acontecer as coisas que já aconteciam todos os dias. A idade! Os anos que se juntam a um número que determina a nossa idade. Esse caminho irreversível para o fim de tudo. Toca a…

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Crónica de Alexandre Honrado | Entre coletes amarelos – os genuínos, que por acaso são verdes

ENTRE COLETES AMARELOS – os genuínos, que por acaso são verdes   Andar pelas ruas de Paris e conversar com os parisienses, sobre os parisienses, sobre os portugueses, sobre os europeus, sobre ninguém. Nunca há, claramente, um discurso comum, pois os povos não são comuns nem se vergam ao peso do discurso comum, mas têm coisas comuns nos seus universos mais ou menos sofisticados, lá isso têm. Conversei, todavia, com o incomum, posso asseverar. Pierre é professor de Filosofia e oferece-me um livro de Beatriz Sarlo, Sete Ensaios sobre Walter…

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Folhetim | Casa de Hóspedes (5º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério Casa de Hóspedes (5º. Episódio) Sempre a fungar, a D. Adélia, um tique que lhe ficou desde que aquele malandro se negou a casar, mesmo nas vésperas da boda. Tudo pronto. Convites feitos. Sala alugada para o repasto, hora aprazada com o padre. O fato da noiva, lindo, de um branco virgem, mais virgem do que ela que se entregara àquele pedaço de homem, moreno e peludo, com uns olhos de botar fogo. Os papéis já estavam a correr, qual era o problema, eram…

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