Crónica de Alice Vieira | Livros para deitar fora

LIVROS PARA DEITAR FORA Alice Vieira   Confesso: não sou capaz de deitar livros fora. De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objectos se vão acumulando e eu perguntando-me “o que é que faço a isto?” Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes, quadros com o brazão…

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Crónica de Alice Vieira | Ainda o 25 de Abril…

AINDA O 25 DE ABRIL… Alice Vieira   O dia 25 de Abril já lá vai . Como sempre acontece nesta altura, várias escolas chamaram-me para que eu falasse aos alunos sobre esse dia único de 1974, que para mim foi ontem e para eles na pré-história. Lá vou, levo provas de censura do “Diário de Lisboa” para lhes mostrar, tento animar a discussão. Mas não é fácil. Porque, na esmagadora maioria dos casos, este é um assunto de que estão a ouvir falar pela primeira vez. O que me…

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Crónica de Alice Vieira | Lojas de outros tempos

Lojas de outros tempos Alice Vieira   Lembro-me de mim , pela mão das minhas tias, a entrar na loja. Sempre a mesma. A Casa Frazão, na Rua Augusta, em Lisboa. Sentavam-me em cima do balcão enquanto elas ficavam horas infindas a ver amostras, a discutir cores, a analisar a textura do tecido. E eu gostava de ali estar. Havia um estranho cheiro a rosas e bafio, que nunca mais encontrei em lado nenhum. Às vezes as tias punham-me no chão e vinha um senhor com um pau (“o metro”,…

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Crónica de Alice Vieira | Família é sempre família

Família é sempre família Alice Vieira   Há muito tempo que queriam encontrar-se, mas era sempre complicado arranjar data que conviesse a todos. Mas este ano, um deles dissera “aproveitamos o mês de Abril, festejamos a Páscoa, agora é que é”. E finalmente os cinco casais de irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas, pela primeira vez em 30 anos, iam ter um mês de férias em conjunto. Era o sonho de uma vida inteira. Brasis e o Paris das emigrâncias tinham-nos afastado—e agora, já todos finalmente reformados, queriam pôr a vida…

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Crónica de Alice Vieira | A Herança de Alice

A Herança de Alice Alice Vieira   Durante muitos anos detestei chamar-me Alice. Alice era herança de uma avó que nunca conheci, mas que sempre ouvi dizer não ser boa de assoar. De resto, basta olhar para a única fotografia que dela me ficou para acreditar no que me diziam. E nem a terrível alternativa de me poderem ter dado o nome de Gertrudes, a outra avó, me fazia aceitar melhor o meu destino onomástico. Porque naquele tempo ninguém se chamava Alice. E nada pior que ser Alice num tempo…

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Crónica de Alice Vieira | Paixão à chuva

Paixão à chuva Alice Vieira   Toda a gente sabe que, em alturas de temporal, as coisas tomam sempre outras proporções. Neste momento acabei de fechar todas as portas e janelas, sobretudo estas aqui da sala onde vejo televisão. Acontece que estas minhas janelas dão para o telhado do prédio. E raramente me lembro de que elas existem,  porque o telhado de um prédio de sete andares não é propriamente um sítio onde as pessoas passeiem. Por isso há bocado, estava eu a re-ver e a re-ouvir as maravilhas do…

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Crónica de Alice Vieira | Amor Virtual

Amor Virtual Alice Vieira   Computadores, smartphones, a net em geral dominam cada vez mais a nossa vida. E o jeito que nos fazem. Já se ama e se desama através da net. Rápido, eficaz e indolor. Em vez de chorarmos no ombro do homem que nos deixou implorando-lhe que volte, clicamos para o Youtube, escolhemos uma cantiga daquelas que o vão põr—esperamos…-de rastos, carregamos no “share”, e a vingança está feita, e não pensamos mais no assunto. Há cantigas apropriadas para todas as ocasiões (para os que nos deixaram,…

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Crónica de Alice Vieira | A felicidade das doenças

A felicidade das doenças Alice Vieira   Os autocarros são o ponto de encontro de todas as mulheres doentes de Lisboa. Mesmo que anteriormente vendam saúde, chegam ali e zás!, ele é o reumático, ele é o fígado ,ele são os rins,  ele são as insónias, ele é o coração, ele são os nervos, ah, sobretudo os nervos! Não há como uma bela doença (normalmente  acompanhada por uma série de análises “que nunca dão nada, dizem eles, mas eu é que me sinto”) para estabelecer uma onda de solidariedade entre…

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Crónica de Alice Vieira | Coração de manteiga

Coração de manteiga Alice Vieira   Não sei se há caras normais, não sei sequer o que é uma cara normal, mas ele tinha uma cara normal. Lembro-me de ter pensado isso quando olhei para ele depois de tudo –muito calmo, como se nada se tivesse passado. A sala de espera de um  consultório  é aquele estranho lugar onde geralmente ficamos em dia com as desgraças, amores e desamores de gente certamente muito importante porque as suas fotografias enchem páginas e páginas das revistas, mas de quem nunca ouvimos falar.…

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Crónica de Alice Vieira | Desconhecido nesta morada

Desconhecido nesta morada Alice Vieira   Tenho a sorte de morar num bairro de gente. Quer dizer : num bairro de prédios normais e não de torres gigantescas, num bairro onde as pessoas ainda se conhecem e ainda vivem, não se limitando a sair de manhã cedo e a voltar ao fim do dia. No meu bairro—apesar de já muita loja ter fechado ou mudado de ramo…– ainda existem vizinhos. Muitas vezes as mais velhas estão à janela, e ali ficamos a conversar. (Há dias, eu a passar debaixo da…

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