Crónica de Licínia Quitério | Eclipses

Licínia Quitério

De ontem e de hoje | Eclipses

por Licínia Quitério

 

Sabemos lá nós os desígnios da memória que nos assalta sem aviso. Foi num desses assaltos que dei comigo a recordar aquele tempo em que se falava de eclipses como de fenómeno algo misterioso, não isento de perigos desconhecidos para os humanos e até para os animais. A esse respeito contava-se que os cães uivavam e as galinhas se  recolhiam para dormir à hora do eclipse, fosse qual fosse a hora do relógio. Em minha casa, o pragmatismo de meu pai desmentia os anúncios de desgraças, tais e tamanhas que se podia temer o fim do mundo. Os ensinamentos do meu pai obviamente contrariavam o que alguns amigos da escola me contavam, com as mãozitas a taparem metade da boca, que medo, foi a minha avó que disse, é deus que se zanga, não é nada disso, o meu pai é que sabe, lá estás tu com as manias, e eu parecia esquisita aos olhos dos meus amigos. Naquele tempo, protegia-se do brilho do Sol os olhos com um vidro fosco, já que ainda não se sabia de óculos especiais, nem sequer a televisão, que ainda não tinha chegado, nos falava deles. Havia, isso havia, eclipses que me entusiasmavam muito.

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Quando hoje despertei e a janela me devolveu um dia escurecido a situar-me em apogeu de eclipse, desviei os olhos do céu, e tudo o que vi foi o meu pai com um vidro numa mão, uma vela acesa na outra, a escurecer vidros de negro de fumo, um vidro maior para ele, um mais pequeno para mim, não sujes as mãos, pega assim, e nós os dois no extremo do quintal, vês, vejo, pai, só um bocadinho de Sol, foi a Lua que o escondeu. E havia de repente um friozinho, como se fosse anoitecer, e era mesmo, uma noite especial, antes da outra, depois da outra, isto dos astros intrigava-me muito. A minha mãe na cozinha, vejam vocês, agora não posso, e a voz dela era estranha, talvez pensasse no fim do mundo, as mães pensavam mais nessas coisas.

Sou reincidente a recordar um certo tempo em que, muitos eclipses depois, no Jardim da Praça Paiva Couceiro, em Lisboa, para melhor ver o Sol a esconder-se, me pus de pé em cima de um banco e ele ficou no chão, porque assim quis e porque lhe valia ser bem alto. Havia muita gente por ali, eram os anos em que as pessoas tinham curiosidades, havíamos saído há pouco de um eclipse social. Foi aquele um raro eclipse total do Sol, daqueles que só vemos uma vez na vida, se ela não for demasiado longa. Foi breve a escuridão, um vento levantou-se do chão da praça e fez redemoinhar as copas das árvores, a dar-me um arrepio, talvez nas costas, talvez no coração. Lembro-me de um curto silêncio na estupefacção das pessoas, tudo muito breve, já passou, a minha mão a pousar uns instantes no ombro dele, não fosse a terra cair, não fosse o mundo acabar, agora que o mundo novo, a nova vida, apenas começavam.

Boas, más memórias, a revelarem momentos bons, momentos maus, com que contamos a vida, até ao nosso próprio eclipse.

      Licínia Quitério

 


Licínia Correia Batista Quitério nasceu em Mafra em 30.Jan.1940. Livros publicados: Poesia – Da Memória dos Sentidos; De Pé sobre o Silêncio; Poemas do Tempo Breve; Os Sítios; O Livro dos Cansaços; Memória, Silêncio e Água; Travessia, (Menção Honrosa do Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant’Anna); A Decadência das Falésias; Participações em antologias diversas. Ficção: Disco Rígido, Volumes I e II;  Os Olhos de Aura; A Metade de um Homem; A Tribo; Mala de Porão; Discurso Directo. Tradução: O Vizinho Invisível, de Francisco José Faraldo.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Licínia Quitério.


 

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One Thought to “Crónica de Licínia Quitério | Eclipses”

  1. Maria Clara Pimentel

    Como é gostoso saborear a luminosa Escrita de Licínia Quitério!
    Nunca desilude, nunca cansa, sempre nos marca positivamente.
    Obrigada, Licínia.

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