Crónica de Alexandre Honrado – Outra vez a saudade de Lourenço

Crónica de Alexandre Honrado – Outra vez a saudade de Lourenço   Recordo, sem a precisão necessária, a frase de Eduardo Lourenço, creio que no seu “O Labirinto da Saudade”, discurso crítico sobre a imagem que os portugueses somaram de si ao longo dos tempos, que li numa edição de antes de abril de 1974 – porém muitos anos depois,  já eu tinha idade para ler coisas mais adultas (riso). No livro, e tirada de contexto, há uma frase que me ficou, onde Lourenço fala de “uma grande enxurrada de…

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Crónica de Jorge C Ferreira | O Jerricã

O Jerricã Olha o Jerricã da moda. Há para todos os gostos. Há no chinês e dizem que até na Av. da Liberdade nas lojas de luxo. Tudo de jerricã na mão. O País do jerricã. A depressão, a intoxicação, o malvado do gasóleo. As tristes octanas. Um Massacre. Uma autêntica violência sobre as mentes incapazes de reagir. As televisões a marcar o ritmo. Os repórteres, estagiários, espalhados pelas bombas de gasolina. Tudo nos cai em cima. Até o jerricã já está farto. O garrafão já não é de tinto,…

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Crónica de Alexandre Honrado – Sentir, sentir; sentir sempre

Crónica de Alexandre Honrado – Sentir, sentir; sentir sempre   Só muito recentemente na história do mundo, digo que talvez há perto de 200 anos, o que é uma ninharia tendo em conta da idade do planeta Terra, uma percentagem muito pequena do ser humano aceitou designar o universo dos sentidos por oposição à razão, o que por outras palavras é o mesmo que dizer: passou a aceitar que a estética ocupava lugar nas nossas vidas e tinha uma dinâmica própria e necessária. Os pensadores, de modo geral, vindos da…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Sentimento de Posse

Sentimento de Posse Possuir. Ter. O sentimento de posse. A quase loucura. O sentir o outro como seu. A negação do amor. A inversão dos sentimentos. Um “click” e passa-se do que se julga amor ao ódio. O triste sentimento de propriedade. Isto é meu – a frase fatal. Não és minha/meu não és de mais ninguém – a frase letal. A primeira estalada. O falso arrependimento. O pedido de desculpa. A cama como falsa reconciliação. O perdão sem razão. O erro tantas vezes repetido. As marcas. Ocultar a vergonha.…

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Crónica de Alice Vieira | Cheiros perdidos

CHEIROS PERDIDOS Alice Vieira   Eu ia cheia de pressa. Acabada de chegar a Lisboa, depois de um maravilhoso mês na Ericeira, a disposição não era das melhores. Mas a voz da mulher na banca da fruta fez-me parar de repente. “Olhe as minhas maçãs, freguesa! Olhe que até cheiram e sabem a maçã!” Sorrio, acho graça a maçã saber a maçã, olho o vermelho da casca e acabo por sucumbir à tentação, qual Branca de Neve diante da malvada madrasta. E dou comigo a pensar no tempo em que…

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Crónica de Alexandre Honrado – Identidade para a diversidade

Crónica de Alexandre Honrado – Identidade para a diversidade   IDENTIDADE PARA A DIVERSIDADE Estou desnorteado     Não sou menos do que os outros, também eu me sinto desnorteado e com um medo intenso do que fazem em meu nome. Podia dar muitos exemplos, mas este é o mais universal: dizem-me que só temos onze anos para começar a inverter a curva de destruição do planeta, mas que são até agora ínfimos os esforços mobilizados para tarefa tão espantosa e tão desmesurado objetivo –  que requer mobilização total e…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Ventos

Ventos Sopram ventos de quadrantes indefinidos. Sopram poeiras, areias, pedras e feitiços. Ventos que abanam os corpos inteiros. Ventos da vida toda. Barcos à procura de portos de abrigo. Pessoas à procura de uma casa segura. Chamam-lhe tempestade, ciclone, furacão. Dão-lhe um nome de mulher e dizem que têm olho. Ir ao olho do furacão. Ver o interior daquele reboliço. Desaparecer e aparecer no outro lado do mundo. A vertigem. A vontade imensa de ser herói e vítima. Atravessar a tempestade e dançar à chuva. A inclemente intempérie. A revolta…

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Crónica de Alexandre Honrado – O futuro é agora

Crónica de Alexandre Honrado – O futuro é agora   Estudar cultura permite a porta aberta para quase todos os conteúdos, pois toda a produção humana, mesmo a mais medíocre, é eminentemente cultural e o que na ação humana parece excecional, redutor e lesivo – como o lucro e os mercados, a política como impedimento do progresso cívico, por exemplo – têm uma face cultural onde se refletem feições tão variadas que por vezes não distinguimos máscaras e sentimentos congelados ou esgares de dor, ironia ou impaciência. Estudar cultura, não…

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Crónica de Jorge C Ferreira | O Pão Nosso

O Pão Nosso O Forno, a lenha, o fogo, o calor. Amassar A massa a crescer. Fazer a barriga e as maminhas nas carcaças. A Pá enorme de madeira. Os cavaletes e os tabuleiros. Os panos brancos. O pão a sair quentinho. Que cheiro, que estalar. Esse pão que o meu Pai me ensinou. A Padaria era o meu reino. O pão branco e o pão escuro, o pão de segunda. O respeito enorme pelo pão. O pão sempre na mesa. Sem pão e vinho a mesa não era mesa.…

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Crónica de Alice Vieira | Histórias na rua

HISTÓRIAS NA RUA Alice Vieira   O meu filho foi jogador de xadrez desde muito pequeno. Ia com a Federação a torneios e eu—num tempo pré-histórico ainda sem telemóveis…–“obrigava-o” a mandar-me um postal do lugar onde estivesse. O rapaz era muito cumpridor. Ficou conhecido na família—e eu trago-o sempre na minha carteira—um lacónico postal que me mandou de Coimbra: “Mãe: não tenho nada para dizer”. Se me recordei disso agora é porque, ao começar esta crónica, era exactamente  isso que me apetecia escrever. Às vezes, quando se está de férias,…

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