Crónica de Jorge C Ferreira | Coisas estranhas

Coisas estranhas Hoje estive desde cedo na minha esplanada. Foi o dia de ver passar a gente da minha terra. Muitos foram para outras terras. Foram visitar a família ancestral. Cedo, para mim, é cerca do meio-dia. Mais cedo é terrorismo psicológico. Não aguento. Fico com mau aspecto. Há quem me queira levar ao médico. Depois de cumprimentar os habituais clientes e os empregados de sempre. Fazemos o pedido e somos servidos do que já sabem que queremos. O jornal. Algumas conversas cruzadas e as piadas de toda a vida.…

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Crónica de Alice Vieira | Falar hoje de Abril

FALAR HOJE DE ABRIL Alice Vieira   …e aqui estou hoje numa encruzilhada. Que caminho devo tomar? O da tristeza ou o da alegria? O que me levou  a chorar como se me tivesse morrido alguém da família –ou o que me levou a cantar a plenos pulmões? Ou seja: lembrar Notre Dame em chamas (que aconteceu há quatro dias) ou lembrar a liberdade que ganhámos há 45 anos (e que festejamos daqui a seis dias) ? Vejo-me em Paris nos anos 60, a passar diariamente pela Notre Dame e,…

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Crónica de Alexandre Honrado – Há tanta ideia por pensar – Terceira parte

Há tanta ideia por pensar Terceira parte   O ato de nascer é uma impureza. No momento inicial, somos seres muito próximos da natureza, é certo, pelo que nenhum ato cultural nos pode ser exigido como atividade consciente. A idealização da inocência é contrariada pela veracidade da agressão. Batem-nos para que choremos. As secundinas, pasta inexplicável para o leigo, composta de placenta e de membranas expelidas connosco dão-nos – a todos nós! – a aparência suja da matéria impura. O meio relativiza-nos. Entre a clínica luxuosa ou a enxerga mais…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Sabedoria

Sabedoria Lembrar os sabores da pele e dos lábios. Sabores que desaguaram na nossa vida. Coisas que cobriam os corpos. Os corpos a quererem ser despojados de toda aquela parafernália de tecidos. O sabão azul e branco. O vinagre para dar brilho ao cabelo. As pernas brancas e sem varizes das mulheres antigas. Os carrapitos. Os cabelos do tamanho da vida. As travessas e os ganchos. Um fio e uma medalha com a foto do falecido ao peito. Um camafeu. Um anel de pedido e duas alianças. Uns brincos muito…

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Crónica de Alexandre Honrado – Há tanta ideia ideia por pensar – parte dois

HÁ TANTA IDEIA POR PENSAR PARTE DOIS   Um andorinhão intui. O homem pensa. Ou será o contrário, neste tempo, o de agora, em que nos inquietamos tanto e, paradoxo!, nos aquietamos demasiado. É um risco trazer nomes para um local onde o pensamento se quer resistente, acima de qualquer protagonista. Mas é irresistível. Por exemplo, Heidegger e Deleuze. Não importa nem biografá-los nem fazer-lhes a louvação. Limitemo-nos a explicar porque os requisitamos: não sendo parecidos no modo como pensam, ambos nos advertem de um problema impensável: nós não pensamos,…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Outros Tempos

 Outros Tempos As velhas avenidas novas. As lojas da nova moda. A minha escola do ciclo preparatório. As ruas largas. As pracetas para jogar à bola. O Júlio de Matos e as “lagoas”, fruto de escavações, por detrás daqueles edifícios cor de rosa. Os mergulhos proibidos e perigosos. Os corpos novos. As pastas espalhadas pelas margens. Se os pais soubessem!!!! O imponente Cinema Alvalade mesmo em frente à escola. Os filmes que a idade não nos deixava assistir. Os cartazes enormes com os artistas em realce. As cenas que iriam…

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Crónica de Alice Vieira | Uma Questão de Matemática

UMA QUESTÃO DE MATEMÁTICA Alice Vieira   O Lobo Antunes tem uma crónica (extraordinária, como todas as suas crónicas, embora ele não goste que lhe digam isso…) em que fala do merceeiro que fornecia a casa dos pais e tinha uma maneira muito peculiar de fazer as contas do mês. Sentava-se em frente da dona da casa, escrevia as parcelas, e depois ia contando, “três e dois, cinco, e mais sete, doze, e vai um—mas como é para a senhora vão dois…-e mais dois, quatro…”, etc. A primeira vez que…

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Crónica de Alexandre Honrado | Há tanta ideia por pensar Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

Há tanta ideia por pensar Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira   Só uma filosofia do impuro interpreta o impensável O que seria de uma vida inteira se, vivendo-a, não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós. Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A Praia

A Praia Tanta gente a correr para a praia. Vejo-os passar sentado na esplanada. As peles ávidas de sol. Irão descer a rua e aproveitar estes raios que nos têm aquecido. A praia já deve ter os habituais clientes de todo o ano e mais alguns. Descem a rua e vão com ar de quem ama o calor. As ondas batem na parede do bar. Pouca gente na água. Muita gente a trabalhar para o bronze. Gente que vive a esturricar a pele. Apesar dos cremes o perigo ronda. Dois…

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Crónica de Alexandre Honrado | Não há quem nos defenda (de nós)

Atento como era, o professor, historiador e filósofo, Michel Foucault teria publicado hoje as suas aulas no colégio de França, as de 1976, não com o título É Preciso Defender a Sociedade, como aliás o fez e com grande êxito, mas com uma atualização. É provável que intitulasse a reunião daqueles seus pensamentos sob um título novo e mais contemporâneo de todos nós: É preciso Defender a Sociedade de si mesma. Já nessa altura, nos anos 70 do séc. XX., Foucault preocupava-se com aquilo a que chamava o bio-poder, força…

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