Crónica de Alexandre Honrado – Mas as crianças, senhor, porque lhes dais tantos gadgets?

Oferecemos horizontes infinitos aos nossos filhos – sem lhes mostrar a qualidade do terreno onde devem por os pés e a beleza intensa dos avós que deram a vida e a glória para que hoje pudéssemos olhar para os telemóveis em liberdade. Olhar para quem me rodeia faz parte de uma militância cultural. Leva-se ideias para recolher outras, ausculta-se os pulmões da Nação e aprendemos o tamanho do que somos – quase sempre menor do que aquele que nos atribuímos. O querido filósofo português José Gil  antecipou-se às razões maiores…

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Folhetim por Licínia Quitério | “Dona Clotilde” – (3º. Episódio)

Licínia Quitério

Folhetim por Licínia Quitério  “Dona Clotilde” – (3º. Episódio) Choramingou, soltou ais do fundo da alma em rebuliço. Lamentava que a alegria não contagiasse o seu protector, mas não perdeu muito tempo com lamentos. Após os preparativos algo apressados, fez mesmo a cama, deitou-se nela e gostou. Era finalmente uma senhora casada com um pedaço de homem que só de o olhar sentia os braços em pele de galinha. Para que a felicidade fosse completa, naquele lar apenas faltavam as risadas de crianças, no plural (que filhos, ter só um,…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Uma casa na floresta

Crónica de Jorge C Ferreira Uma casa na floresta Há alguém maior que a vida que vive numa dimensão difícil de atingir. Uma dimensão em que acontece o mistério de nos sublimarmos. Há uma amarga doçura que embala os sentidos, que embala o viver e a comunicação com os outros. É, mais ou menos, como estarmos sós numa floresta e sermos visitados por lobos que nos lambem em tons de azul. Ganhando assim anticorpos contra a malvadez. Uma floresta vestida de magia. Um embaraço de caminhos.  Uma árvore mãe onde…

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Crónica de Alice Vieira | O Anjo

Crónica de Alice Vieira    O Anjo Alice Vieira Vivi grande parte da minha vida junto ao mar. Agora na Ericeira, e em jovem na Costa Nova. Ambas praias de pescadores—mas muito diferentes. Naquele tempo os homens da Costa Nova saíam cedo de casa e demoravam muito a regressar. Iam todos para a pesca do bacalhau, lá nos confins do Mar do Norte, e as mulheres ficavam com todo o peso da vida às costas—a casa, os filhos, os parentes velhos, e ainda a pequena horta de que era preciso…

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Crónica de Alexandre Honrado | George-Steiner – Morre a cultura em palavras e silêncio

De repente apetece-me confessar que todos os textos, mesmo aqueles onde mais ficcionamos, são textos escritos na primeira pessoa, textos no singular, mesmo os menos singulares. Este é portanto um texto desses. Um texto na primeira pessoa e magoado, mal refeito das emoções, uma tatuagem mal cicatrizada, por outras palavras: um texto à flor da pele. Estive duas vezes ao pé de George Steiner. Numa, com timidez, apertei-lhe a mão, julguei-me eleito, um privilegiado. Foram encontros ocasionais, Steiner falava publicamente, e eu estava numa das filas sombrias mas não frias…

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Crónica de Jorge C Ferreira | “Uma Parede de Vidro”

“Uma Parede de Vidro” As lágrimas derramadas numa noite de solidão. Um vidro de onde se parte para o Mundo. O Mar a derrubar as barreiras que lhe querem impor. Um barco que parte para destino incerto. Flores raras que cantam serenas baladas. Uma montanha escrita a negro num quadro branco. Uma nuvem mais agreste. O pronúncio do temporal. Corri estrada acima em busca do pingo maior de chuva. Nem uma aberta. A estrada é uma corrente de água contra quem luto. As galochas e o fato de oleado a…

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Crónica de Alexandre Honrado | Como me afogo nestes dias secos

Um copo de água e eu. Tento fixar os olhos na aparente, quase chocante transparência do líquido; são os meus olhos que se turvam e perdem. Vejo à minha beira uma barcaça cheia de foragidos. Chamam-lhe refugiados, chamo-lhe gente perdida no labirinto dos que lhes impõem o rumo. “A Polícia Marítima detetou na madrugada desta quarta-feira uma embarcação com 11 imigrantes ilegais a bordo junto a Olhão, três dos quais tiveram de ser transportados ao Hospital de Faro para despistar problema de saúde“. Bebo um gole de água, para disfarçar.…

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Folhetim por Licínia Quitério | Dona Clotilde – (2º. Episódio)

Licínia Quitério

Folhetim por Licínia Quitério  “Dona Clotilde” – (2º. Episódio) Retirava os selos que chegavam das mais distantes paragens para engrossarem a colecção do patrão que por eles esperava, com impaciência. “Não demorra nada, senhorr doutorr”. Carregava nos “erres”, mas fazia questão de esclarecer não ter nada a ver com Setúbal. O Padrinho, senhor finíssimo e rico, que a criara com esmeros de bordados, piano e francês, falava assim. Não lhe herdara os bens (que Deus tivesse a sua alma em descanso), mas os “erres” e as boas maneiras. Ao fim…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Uma tarde na Casa dos Ventos

Crónica de Jorge C Ferreira Uma tarde na Casa dos Ventos Uma casa dos ventos numa tarde ventosa. Três pessoas que gostam de escrever, de ler e que amam os livros. Uma casa de cantos e recantos. Uma casa para sonhar e brincar às casas. Há vida, livros e um gato que se passeia por entre nós. Um gato chamado O’Neill, tinha de ser. Um gato com nome de Poeta. A poesia em cada parede. Esta casa nova de tão antiga. O motivo foi ir buscar exemplares de um livro…

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Crónica de Alice Vieira | Sonhar dá muito trabalho

Há uns bons anos (mas não muitos, apesar de tudo…) uma escola de Timor recebeu uma prenda: um quadro preto. Um quadro preto, banalíssimo, daqueles para os quais, nesta era da tecnologia acelerada, os alunos olham quase com desdém. E muitos haverá que nem sequer sabem para que é que aquilo serve. Uma prenda que certamente ninguém se lembraria de oferecer hoje a nenhuma escola do nosso país. Se o fizesse, cairia o carmo e a trindade, seria decerto motivo de primeira página dos jornais, abriria telejornais, os pais protestariam…

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