Crónica de Alexandre Honrado – O que escrever quando é inútil a escrita (três)

  Crónica de Alexandre Honrado O que escrever quando é inútil a escrita (três)   Dizer o indizível – será o segredo. São Francisco[1], no Speculum perfectionis, afirma: “pois não serão os servidores de Deus senão uma espécie de jograis que têm por missão elevar o coração dos homens e conduzi-los à alegria do espírito?”. Fernando Pessoa estabelece como “as palavras são focos de energia com efeitos invisíveis”[2]. Os exemplos seriam infinitos. Limito-os. Na formulação do espírito, a palavra do Poeta, em geral, é não reverente[3]. Isso pode torná-lo, em…

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Crónica de Alexandre Honrado – O que escrever quando é inútil a escrita (dois)

  Crónica de Alexandre Honrado O que escrever quando é inútil a escrita (dois)   Ao ser impossível a poesia – depois do triunfo da barbárie – a aceitação da derrota do Homem interior (aquele que descobre as vias da experiência interna,  capaz da produção de leituras superiores de si, dos outros e do mundo  que o rodeia, mesmo do intolerável), o homem ficar-se-ia pelo Real, impedindo o Irreal, ou o que, na sua capacidade de criar, permite suportar a realidade e vê-la de um modo elevado e amplo. Ou,…

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Crónica de Alexandre Honrado – O que escrever quando é inútil a escrita

  Crónica de Alexandre Honrado O que escrever quando é inútil a escrita   Se Adorno[1], a propósito do Holocausto, afirmou que “já não é possível escrever poesia depois de Auschwitz”, é tempo de aceitar uma ideia que há muito me persegue: depois de tudo o que o século XXI tem produzido, já não é possível escrever uma prosa identitária e o que dela restar em afetividade arde no lume brando de todos os impactos traumáticos? (Falo da produção do Mal, para usar uma imagem fácil. Falo dos fundamentalismos, dos…

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Crónica de Alexandre Honrado – O fantoche que há em todos nós

  Crónica de Alexandre Honrado O fantoche que há em todos nós   Haverá algum mundo paralelo onde sejamos capazes de reconfigurar o sensível? É no mundo sensível que podemos criar um antipoder, onde podemos modificar o mundo egoísta e bélico, produtor dos níveis de dominação e de destruição, que impedem a construção do futuro, um espaço ideal em que (nos) transformamos em seres e coisas sustentáveis e de vocação de proximidade e aceitação de todas as diferenças, afinal aquilo que conhecemos por democracia e que traímos a cada passo.…

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Crónica de Alexandre Honrado – Uma presença sem mistério

  Crónica de Alexandre Honrado Uma presença sem mistério   É logo no início da década de 1980 que Eduardo Lourenço vê publicado um dos (seus) livros que mais reli: O Espelho Imaginário. Fala de pintura, também de antipintura e de não-pintura e como sempre acontece com Lourenço vamo-nos enredando numa linguagem tecedora, das que nos levam às profundezas – às “profundidades vazias da nossa impotência” – mas que nos mantêm à tona, puxados invariavelmente pela inebriante magia do que no pensador resiste do poeta e do que na escrita…

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Crónica de Alexandre Honrado – Regressar à Ucrânia

  Crónica de Alexandre Honrado Regressar à Ucrânia   Estive várias vezes na Ucrânia, em várias e distintas qualidades, até fui um dos autores de uma canção do festival da Eurovisão, peripécia de que hoje guardo uma memória esfumada, como se fosse outro eu a passear-me pela green room de Kiev à espera de votações e atuações. Não é importante este episódio, sendo meu partilho-o, considero importante, isso sim, ter estado várias vezes na Ucrânia, ter-me apaixonado pelo país, emergente das velhas repúblicas socialistas soviéticas, tendo reconhecido nele inúmeras qualidades,…

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Crónica de Alexandre Honrado – A Europa numa hora de amnésias

  Crónica de Alexandre Honrado A Europa numa hora de amnésias   O texto que se segue faz parte de outro, inédito, intitulado Europa, entre a memória e o esquecimento, que aguarda publicação em livro coletivo no qual sou apenas um dos autores. É um pedaço desse livro, mas parece-me mesmo assim interessante esta partilha. Políticas de memória, memória individual, memória coletiva, memória prótese, amnésia transcultural – são tantos os lados prismáticos da superfície onde se procuram os pontos de referência essencial da cartografia europeia da atualidade, pelo menos no…

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Crónica de Alexandre Honrado – O fim das coisas públicas

  Crónica de Alexandre Honrado O fim das coisas públicas   Há indícios fortes do declínio das Repúblicas como forma orientada de governação dos povos, não só porque os povos deixaram de ser uma realidade prioritária, substituídos pelo individuo, pelo individualismo e pela individuação, como a ascensão das direitas impede a coisa pública, opõe-se aos coletivos comprometidos com a construção participada e participativa da política e sobretudo teme, como ato de crianças medrosas perante a admoestação pelo seu mau comportamento, a festa nutricional das democracias, sempre ameaçadas pelo frenesim esfomeado…

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Crónica de Alexandre Honrado – Não se deve simplificar

  Crónica de Alexandre Honrado Não se deve simplificar   Aceito: nunca se deve simplificar o real, nem subordiná-lo apenas àquilo que o completa, como, por exemplo, o imaginário e o simbólico. Aceito que o real é construído pelo formato compacto do que se faz e age e do que alguns pensam. O real é ainda e talvez essencialmente uma construção social, nem sempre o que parece é, pelo que aceito que, de modo lato e sincero todo o real é também o irreal (e a irrealidade) que o contém…

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Crónica de Alexandre Honrado – E Putin aqui tão perto

  Crónica de Alexandre Honrado E Putin aqui tão perto   Escrevi há dias sobre os países que estão em guerra no mundo, lamentando que os nossos noticiários passem à margem da catástrofe humana que se vive em cada um deles. Tive comentários surpreendentes, como se eu não tivesse entendido (por alguma lacuna do meu fraco entendimento) que a prioridade portuguesa, europeia, mediática e atual era a Ucrânia – para quê perder tempo com os 19 milhões de pessoas a passar fome no Iémen, país do tamanho da França e…

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