Crónica de Alexandre Honrado – Levarei os meus olhos cheios do que não vi

Não tenho saudades do passado. A minha terra, quando eu era pequeno, era um local cinzento e cheio de cicatrizes, assim uma espécie de sarjeta – dessas onde aquele deputado isolado do parlamento, a quem eu chamo o Menino Mussolini, gostava de ver de volta. Não tenho saudades da ordem na ponta das espingardas e dos escândalos atrás das portas. Prefiro armas à vista, de preferência entregues para abate, e escândalos que possam ser julgados pelo Estado de direito, à vista e de preferência entregues à justiça, para abate. Não…

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Crónica de Alexandre Honrado – C 3 I, Paranóia, Trump, Novo Ano.

Alguém me disse, com olhos doces mas com emoção acesa, que tinha tido a ilusão de um mundo melhor durante a passagem de ano e a desilusão de sofrer com o apocalipse e o fim do mundo nos dias imediatamente a seguir: as mortes nos pavorosos incêndios na Austrália; e o terrorismo protagonizado por Donald Trump, a procurar, em última e derradeira jogada, impedir a sua suspensão como Presidente dos Americanos, dando-lhes em troca o que a seu ver é um paraíso de justiças duvidosas: mais uma guerra. Não sei…

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Crónica de Alexandre Honrado – O meu conto de Ano Novo

Há uma estranha acalmia, agora. O vento é como as velhas bisbilhoteiras, que sem andarem por aí não sabem o que contar. Também há velhos bisbilhoteiros, bem sei. Não seria correto olvidá-los. São diferentes. Sentam-se à porta de casa ou em velhos cafés que são tabernas promovidas e contam o que veem com olhos de reinventar. Às vezes vão a um ou outro velório e sentam-se também, os velhos. E contam histórias antigas como se fossem o que de mais recente os rejuvenescesse. Dizia haver uma regra para esses velhos,…

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Crónica de Alexandre Honrado – Feliz hipocrisia – a minha história de um banco de Natal

Confundo-me com a multidão que corre para os descontos, afinal a época natalícia trouxe umas surpresas. Lá vou eu, pequenote entre a multidão e dirijo-me ao Carmo, no coração da cidade (capital, portuguesa). É uma praça cheia de magia com um quartel e uma fonte com golfinhos de pedra; gosto de fontes. É o Carmo! O Carmo de tanta história e maiores recordações, da saída da GNR a cavalo para dar umas porrinhadas nos opositores do regime (como diria Pepetela), às glórias de abril, pois foi ali que Marcelo Caetano…

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Crónica de Alexandre Honrado – Aprender a fazer cerveja, primeiro

Assinala-se de forma estranhamente modesta e quase envergonhada a data da morte de Václav Havel – ocorrida a 18 de dezembro de 2011. Talvez por ser escritor, o que não é valor acrescentado nesta sociedade inculta neoliberal, sempre ocupada com os seus mercados e analfabetismos crónicos e o seu desespero dos orçamentos para a cultura, que desdenham e contestam; talvez por ser dramaturgo e hoje o teatro é o último patamar das artes, quem sabe se a balaustrada de uma varanda onde alguns suicidas teimam em celebrar a vida; talvez…

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Crónica de Alexandre Honrado – Sorrisos velhos

Era o velho mais velho que todas as tardes cumpria, sem saber, a arte de fascinar-me. Eu era garoto, muito garoto, não entendia quase nada do que se passava à minha volta, mas sabia sem qualquer dúvida que o tempo em que existíamos era de podridão; vivíamos debaixo do capricho de um cérebro doente de um velho de outra espécie, sem escrúpulos nem patriotismo, que definhava com a pátria usando-a como um capacho, promovendo a sua miséria e a morte por opção. Ao outro velho, ao que conto agora, a…

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Crónica de Alexandre Honrado | O cano apontado – um texto de Natal

Crónica de Alexandre HonradoO cano apontado – um texto de Natal   Certo chefe de redação – figura e categoria profissional que caiu com o uso, desgastado e tido por supérfluo – de um jornal que, na época, considerámos como uma referência, vaticinava que, um dia, nem na data impressa na capa daquele ou de outro periódico podíamos confiar, até porque as “gralhas”, na altura tipográficas, dizia ele, não perdoam. Uma das coisas mais comuns nos dias de hoje é o somatório das notícias falsas ou de uma ardilosa construção…

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Crónica de Alexandre Honrado | Porque escrevo isto?

Crónica de Alexandre Honrado Porque escrevo isto?   Não faço a menor ideia porque escrevo. Ganhei boa parte da vida a escrever, isso é certo, mas o que será isso de ganhar a vida? Todos, sem exceção, deviam nascer com o direito reconhecido ao chão que pisam. Este planeta é o chão de todos. A cama. A casa. O lugar da fogueira. O ponto de encontro da emoção. Escrevi –  e escrevo – coisas completamente disparatadas, inúteis, até sobre temas que não me interessam ou interessavam nada. É que fui…

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Crónica de Alexandre Honrado – Menos um dos nossos

[sg_popup id=”24045″ event=”onLoad”][/sg_popup] Menos um dos nossos Este parte, aquele parte e todos, todos se vão… Era uma das cantigas que ombreávamos há anos, já lá vai tanto tempo que o fio da memória tornou-se um fio de ouro muito valioso a segurar-nos o passado. Um desses fios que não parte. E todavia é tão fino, e no entanto todos partem. Os que mais amamos e os outros. Até aqueles que nos são indiferentes. E nós. Nós também partimos. Há por vezes estradas, ramais, becos no percursos por onde enfiamos…

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Crónica de Alexandre Honrado – Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humano nos dias de hoje?

[sg_popup id=”24045″ event=”onLoad”][/sg_popup] Crónica de Alexandre Honrado – Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humano nos dias de hoje?   Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humano nos dias de hoje?   Vivemos o tempo de ambiguidade, a começar pela forma como nos comunicamos e como erguemos muros à comunicação, escondendo-nos em grutas do incomunicável: a possibilidade de não sermos escutados, de sermos, produzirmos e partilharmos registos sem efeito, é imanente a cada momento que, de forma degradada, vivemos como ato de proximidade. Isolados somos, mas não somos…

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