Crónica de Alexandre Honrado | Não sei dançar ao som da morte

NÃO SEI DANÇAR AO SOM DA MORTE   Morreram duas pessoas na Praia dos Pescadores da Ericeira, caíram de um muro que acaba no passeio do Largo das Ribas e se precipita até ao areal, o mesmo de onde partiu a família real para o exílio, embarcando na barca Bomfim para alcançar o iate D. Amélia e, indo nele, procurando um novo mundo. Da praia da história e da felicidade dos risos de Verão e dos gritos dos miúdos ao entrar na água fria, da praia da ansiedade dos monarcas…

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Crónica de Alexandre Honrado | Não só o burrito vai à feira

NÃO SÓ O BURRITO VAI À FEIRA     Como todos os anos, de há uns 30 a esta parte, dei comigo na feira do livro, sorrindo a leitores ou a compradores de livros, colocando dedicatórias com mais ou menos criatividade, uma delas ímpar – “dedique aos meus netos, que são oito, e todos ficarão contentes!” -, outras menos originais, mas sempre felizes, ao saírem do meu punho para parte incerta. Como todos os anos, não consigo deixar de me sentir observado – é confrangedor estar sentado numa mesinha e…

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Crónica de Alexandre Honrado | A morte e outras coisas

A MORTE E OUTRAS COISAS   Era outrora que nos davam um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola. O mapa imaginário, onde não vinha a nossa idade. A poeta – Natália! – bem o sabia. Mas esse outro tempo definhou como definharam outros tempos e uma espécie de esperança – embrulhada em nostalgias e profundas ingenuidades – foi crescendo em nós e pensámos que ainda um outro novo tempo podia mesmo construir-se e, se não pudesse construir-se era a nós que nos cabia e alguma…

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Crónica de Alexandre Honrado | Nada ou alegadamente coisa nenhuma

NADA OU ALEGADAMENTE COISA NENHUMA   Num texto de Desidério Murcho, filósofo português e professor na Universidade de Minas Gerais, no Brasil, saltou-me à vista uma pergunta formulada por Leibniz, filósofo alemão dos séculos XVII e XVIII: “Por que há algo em vez de nada?”. Sim. Porque é que há sempre alguma coisa, em vez da suave equidade da coisa nenhuma, do nada tranquilizador, da pacífica ausência de objetos, opiniões, sentimentos, atitudes? Não estrarei em disputa com as ideias de Leibniz, por minha incapacidade, nem irei à procura da intensa…

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Crónica da Alexandre Honrado || A Agonia

A AGONIA Foi ideia de alguns sonhadores excecionais essa utopia das fragilidades e do imprevisível, resultante de paixões antigas e ânsias muito renovadoras e jovens, a que genericamente se chamou Democracia e que, por herança, recebemos tardiamente da mão fértil da democratização europeia, graças a um punhado de homens de elite que já eram europeus à moda nova antes de muitos outros. Tratando-se de uma construção colectiva, como certas obras de grandeza maior – recorde-se aqueles aquedutos que beneficiavam todos e matavam a sede de povos merecedores que os pagaram…

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Crónica de Alexandre Honrado | A bicicleta dos sentidos

A BICICLETA DOS SENTIDOS   Louis Aragon, poeta e escritor francês cuja memória bem podia ser resgatada, escreveu um dia que “o espírito desprende-se um pouco da mecânica humana, e então já não sou a bicicleta dos meus sentidos, a pedra de aguçar as recordações e os encontros”. A primeira vez que li isto, sendo eu então jovem de mais, fui atraído pela beleza das sonoridades. O texto era, mais do que palavras, uma escada de palavras seguidas de palavras, ou melhor, uma sobreposição encadeada que tinha a dimensão do…

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Crónica de Alexandre Honrado | Para além do bem e do mal

PARA ALÉM DO BEM E DO MAL “Permitiremos tudo, até os nossos pecados”, sentenciava o escritor Fiódor Dostoiévski, no seu livro Irmãos Karamazov, antecipando, como profeta literário – os melhores profetas parecem ter sido sempre os literários –, um mundo novo alicerçado no falhanço e na contração dos valores a ponto de cultivar os mais medíocres. Dostoiévski punha a sentença na personagem de um Grande Inquisidor e na análise da missão da Igreja e apresentava-nos um Cristo que, mal regressado à Terra, era encarcerado, precisamente por ordem da Igreja. Para…

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Crónica de Alexandre Honrado | Abril não é uma rua deserta

  ABRIL NÃO É UMA RUA DESERTA   Não falo de abril como de uma rua deserta, muito menos como uma azia fétida, um mau hálito de coisa podre instalada nos que lhe viraram as costas. Se não fosse abril éramos muito pouco, mesmo os mais medíocres de nós. Os medíocres são os que ficaram a abanar as suas pernas e as suas poucas e ralas ideias curtas em cima dos móveis do passado, uivando como algum vento aborrecido, com os colmilhos ávidos da jugular alheia, que nem sempre ousam…

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Crónica de Alexandre Honrado | Sempre que nos negam a brandura

SEMPRE QUE NOS NEGAM A BRANDURA   Portugal nunca foi de brandos costumes. Nasceu dos atos violentos da ocupação progressiva do que era de outros, trazendo o território do Minho ao Algarve e, não contente, expandindo-se com ferro, fogo e alguma ideologia, por outros continentes. Das batalhas de Pedroso,  e de Arouca, ainda nem reino se formara, à Operação Penada na Fronteira de Moçambique com o Malawi e a Rodésia, à Operação Ametista Real, em Guidaje, na Guiné, sem sabermos exatamente o número de mortes portuguesas e dos adversários, a…

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Crónica de Alexandre Honrado – A escassez que nos esvazia

Falava, por sugestão de outros, sob o tema escassez quando me dei conta de que, por escassez óbvia, havia na plateia quem desconhecesse o termo. Creio que este fenómeno se tornou recorrente: falamos de coisas que julgamos óbvias, ou interessantes, ou mesmo necessárias – e já não o são, porque as escassas plateias que nos ouvem se afastaram do exercício do reconhecimento, se alhearam a dado passo, e só se mobilizam para uma discussão fortuita de futebóis, que, esses também, se tornaram escassos, no interesse, no desportivismo que traíram, na…

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