Crónica de Jorge C Ferreira | A vida e as vidas

“A Vida e as Vidas” A barba crescida. O cabelo enorme. Os caracóis. Uns óculos escuros de aros redondos. Umas calças esquisitas. Uma camisa de colarinhos enormes. As cores exuberantes. As botas de tacão alto. Mais dez centímetros de altura. A noite que também cresce. Aparece, como num sonho, a virtual avenida de todas as cores. Milhares de luzes que nos embebedam. Fugimos. Acordamos. Uma cave. Um refúgio. Uma estranha aventura por inesperados ghettos. Choros de guerras ainda por esquecer. Há uma senhora, muito velha, que teima em ir para…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Proteger

Proteger As biqueiras das botas. Os pontapés em falso. Os protectores. O sapateiro. Os pequenos pregos na boca. Meia mão de cabedal. O martelo. As pancadas secas. A eficaz protecção. As botas cardadas. Os polainitos. A ordem para marchar. Enfrentar os tais canhões. Ir e vir. Um capacete mal-alinhavado. A corrida e o cansaço. Um fio ao pescoço com a medalha de uma santa. Acreditar que se está protegido. Uma bala perdida. Um grito de sangue. O nosso Anjo da Guarda. A protecção entregue a um ser invisível. Um suave…

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Crónica de Jorge C Ferreira | “A procissão da vida”

“A procissão da vida”   Essas árvores sem folhas. Essas folhas de pisar. Esse andar almofadado. Um atapetado caminho. Um capote e uma bengala. O chapéu e a barba crescida. Uma mulher que se benze ao passar frente a uma igreja. Os caminhos que continuam a ser os mesmos. Muda tudo e nada muda. Continuam a acontecer as coisas que já aconteciam todos os dias. A idade! Os anos que se juntam a um número que determina a nossa idade. Esse caminho irreversível para o fim de tudo. Toca a…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Fim de Ano

Fim de Ano Ano vai. Ano vem. Desejos morrem. Desejos nascem. A vida a correr. O plano inclinado. O fim da estrada e a estrada sem fim. Fecham-se portas. Abrem-se janelas. O caminho e os tropeções. As curvas apertadas. Quanto jogo de cintura. O mapa das dores. O riso e o saber rir. A gargalhada que nos alegra. Tentar aprender o caminho da alegria. Os pequenos projectos. O saber saborear cada dia. A festa do novo dia. Caminhar de novo. Ir com todos e com ninguém. Não ter medo de…

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Crónica de Jorge C Ferreira | “NATAL”

“NATAL” As luzes. As árvores iluminadas. Uma roda gigante. Tudo tão terreno. Toda uma ilusão passageira. A correria. Bolas iluminadas, gente dentro delas. Os telemóveis em riste. As “selfies”, ficar no meio da luz. A incandescente maneira de estar. Cansaços. Sacos saquinhos e sacolas. Fitas, laços e laçarotes. Os embrulhos em papel especial. Nós no meio deste embrulho. Uma azáfama que cansa. Comprar e oferecer a inutilidade. O desvario de não saber parar para pensar. Há crianças a chorar com medo de um Pai Natal mal ataviado. Erros de “casting”.…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Caminhadas

Caminhadas Temos sempre caminho pela frente. Por vezes apenas um passo. Uma curta viagem. Outras vezes vidas que se contam em léguas, milhas, quilómetros. O mundo inteiro no bolso. Um mapa todo riscado. Um globo que faz girar a nossa cabeça. Ser peregrino, andarilho, caixeiro viajante, vagabundo. Percorrer vidas e estradas sem saída. Chegar perto de um santo, de um deus, de uma iniciática aventura. Amar uma bruxa à roda de uma fogueira. Experimentar o sabor de todos os venenos e resistir. Beber um cálice de absinto, saber das guerras…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Quartos

Quartos O quarto crescente. O quarto minguante. O quarto de viver. A renda do quarto em atraso. O frio da rua. O dinheiro que não chega. A lotaria que só sai a quem tem dinheiro para jogar. O casino da Santa Casa. A raspadinha da moda. Barata e de prémio imediato. O santo engano. O malvado do dinheiro. Os livros lidos na biblioteca municipal. O papel reutilizado. Um lápis afiado com uma faca manhosa. Molhar o bico negro do lápis na língua. A escrita a fluir. Mais um papel para…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Noites

Noites A noite perdida. A noite desencontrada. A falsa noite. O erro nos cálculos da vida. Um calor que nos engana. Os candeeiros apagados. Uma rua sem luz. O desabrigo. A falta que o que falta nos faz. A dor que falece. Outra vida que aparece. Os viadutos da desgraça. A velocidade incontrolada. Uma pressa para o nada. Ter olhos para a noite. Conhecer as sombras e as esquinas. De repente, uma navalha que se incendeia num corpo. O tempo de todos os crimes. A sirene das ambulâncias. As urgências…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Estes tempos

Estes tempos Estes tempos de perder mundos e princípios. Este galgar de consciências apodrecidas. Estes sem-fim cada vez mais perto de nós. Vamos andando e falando para quem não nos ouve. Por vezes apetece desistir. Dizem-nos que o tempo é outro. No entanto a terra continua a rodar da mesma maneira. Nós continuamos por cá! Aparecem pensamentos muito antigos a armar ao novo. Aparecem as botas cardadas. As fardas ensanguentadas. Os capitães do nada. As balelas mal contadas. A força da falsidade. Os pontos cardeais a chamarem-nos à atenção. Um…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Notas soltas

Notas soltas Tantas são as coisas com que nos querem atormentar! Guerras de gangues. Suicídios. Homicídios. Mortes lentas. Solidão. Violência doméstica. Assaltos à mão armada. Corpos massacrados. Marcas para a vida. Hospitais. Exames forenses. Polícias. Algemas. Nomes estranhos. Uma discussão contínua. Os tabloides vendem os crimes logo pela manhã. Já não há ardinas para os anunciarem. Há quem os leia nos barbeiros, tascas, cafés e os discuta ferverosamente. Escorre sangue pelos ecrãs das televisões. Não há esfregona que chegue para limpar tantos restos de crimes. Há uma história que se…

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