Crónica de Jorge C Ferreira | Nunca estive em Belize

  Nunca estive em Belize por Jorge C Ferreira   Corria o ano de 1992. O mês seria fevereiro ou março. Saímos da Parede. Morávamos num pequeno apartamento perto da estação. Apanhar o comboio era rápido. Fomos nós e as malas. A verdadeira partida para a grande viagem estava prevista para a meia-noite no Cais do Sodré. Estava tudo assim combinado e assim se cumpriu. Chegámos e pouco depois o Alfa Romeo do J.J. apareceu. Com ele outro J.J.. Arrumámos a tralha levávamos roupa de inverno e verão. O Alfa…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Um banqueiro fugiu

  Um banqueiro fugiu por Jorge C Ferreira   Meu abraço acabado. Minha dor sem sentido. Minha fuga sem razão. Um vulcão que se zanga. Uma ilha que sucumbe. Cones cospem fogo. Há uma nuvem que viaja pelo mundo. Uma lava que me namora. Uma terra que arde. As casas que desaparecem. As ilhas que eu amo e as outras. As ilhas dos milhões. Os milhões de pobres. Os ricos que nunca morrem enfartados. Uma foca assassinada à paulada por caçadores furtivos. Um banqueiro fugiu. O cume da montanha. Uma…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Peralvilhos

  Peralvilhos por Jorge C Ferreira   Estou farto dessa gente nova que nasce velha. Estou farto dos que disso fazem alarde para se promoverem. São os falsos velhos. Os que tentam, através de uma aparência bem pensada e uma estratégia estudada, fazer os outros pensar que têm vida e sapiência de um velho que percorreu a vida e o mundo. Apresentam-se de ar circunspecto como se tivessem todo o conhecimento em si. Apelidam-se de muitas coisas e omitem os fracassos. (Aliás, já os esqueceram…) Não me lembro…não me lembro…não…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Que vida

  Que vida por Jorge C Ferreira   As noites que se instalam sem darmos por isso. O escurecer que nos cala. Horas e horas de desafiar o tempo. Há quem tenha medo da noite. Há quem viva cada noite como se fosse a última. O deitar e o adormecer. Duas coisas tão diferentes. Dois modos de estar. Dois modos de viver. Nunca saber se vai acontecer o dia seguinte. Nada temos como adquirido neste mundo voltado do avesso. Os que dormem de dia, pensam ao contrário. Muitas vidas no…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Olhos e Olhares

Olhos e Olhares por Jorge C Ferreira   Os olhos a perderem-se num fundo oco. Um vazio que se anuncia. Os olhos de uma viagem inesperada. As mãos a separarem-se de forma muito lenta. Um fio de nada. Um nada que é tanto. Uma raiva de rasgar ondas. Raiva cega. Raiva gasta. Raiva dor. Raiva da despedida. O desfecho chorado. O fio que se parte. Tanto se pode falar sobre olhos e olhares. Tantos olhos mataram olhos. Tantos olhares fatais. Quantos olhares especiais. Um olhar pode valer uma vida. Olhos…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Vidas em comum

Vidas em comum por Jorge C Ferreira   Quando as tuas veias invadiram o meu corpo. Quando os nossos corpos se tornaram dependentes. Uma estranha situação. A simbiose perfeita. Um saboroso bem-estar. Corpos separados e tão juntos. Os corações a baterem em uníssono. Percebemos, então, que somos dependentes um do outro. A vida a não ter sentido sozinha. Fica como se fosse um livro sem páginas. Um livro de não ler. Pressentimos e vivemos tudo em conjunto. Sabemos o que o outro sofre e dividimos o sofrimento. Há quem diga…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Deolinda e o Lobo Azul

Deolinda e o Lobo Azul por Jorge C Ferreira   Lembram-se do lobo inundado de azul que nasceu na última crónica? Para quem não leu vou relembrar: “Consta que no cimo da montanha nasceu um lobo inundado de azul. Terá nascido com novas aptidões? Que nasceu numa noite especial ninguém duvida. Que isso o acompanhará durante a vida também não. Como será o seu primeiro uivo à lua que impulsionou o seu nascimento? Que sentirá naquela sua iniciação? Espero que seja um uivo de agradecimento e de um azul muito…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Noites especiais

Noites especiais por Jorge C Ferreira   Especiais são as noites em que a lua se impõe no céu como astro dominante. Trepidantes são os pensamentos. Crescentes os desejos. Límpidos os olhos. O coração aberto a tudo. Lunares se tornam os beijos. Muitas bocas ficam coladas para sempre. Ficamos muito pequenos. Somos chamados a ouvir sons inesperados. Há sempre algo que não atingimos. O magnetismo é tremendo. Quando o nosso satélite se passeia imponente e nos atrai como se fôssemos seus escravos. Quando os lobos se põem a uivar, todos…

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Crónica de Jorge C Ferreira | No reino

No reino por Jorge C Ferreira   Foram abraços e beijos através das máscaras e ultrapassando receios. Uma outra vida numa outra terra. Os abraços de corpos apertados. As frases entrecortadas. Uma conversa sempre inacabada. Os olhos húmidos de alegria. O mar a gastar-se na areia. Bênçãos enviadas por santas afogadas em alto mar. Santas proas de barcos. Santas pintadas em madeira antiga. A rua, a minha outra rua, já não tem os vasos de verde berrante com as árvores redondas e pequenas. Agora erguem-se no seu lugar palmeiras que…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A Peste

A Peste por Jorge C Ferreira   As horas mortas. As horas da morte. Os últimos suspiros. O fim que não cansa. Tanta gente a pensar nisto. Tanta gente que já não pensa, espera. Esperar pelo inesperado, pelo sem sentido. Esperar que o sofrimento não seja muito. Uma etiqueta colocada com um cordel no dedo grande do pé direito. A doença sem fim. A passagem de corpo para corpo. Os corpos unidos. As mãos esfregadas com álcool até ao osso. Os ossos sem pele. A pele sem osso. A peste.…

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