Crónica de Jorge C Ferreira | Paixão

Crónica

Crónica de Jorge C Ferreira
Paixão

 

lj

Corpos exaustos. Corações sôfregos num apressado bater. O tempo corre da mesma maneira. Só a eles parece que não. A eles, que não o vêem numa correria louca, numa estapafúrdia loucura. Tentam parar os ponteiros de relógios imaginários. É tempo de parar, respirar fundo, inspirar e expirar de forma sincopada. Vão buscar os medos que os invadem ao mais fundo deles, passar para outro estado.

Os beijos apaixonados. Os corações a baterem num compasso apressado. Corações unidos. Unidos sentimentos. Outro beijo e a mesma coisa. Arriscar. Eram tão novos. O coração aguentava tudo. As noites descompensadas. A falta de tudo. Porque era necessário descansar um pouco. O duche retemperador. O beijo matinal. A vida a continuar, até ao próximo beijo.

O batom dela na almofada. Beijos perdidos. Lábios e bordados. Uma arte maior. Os lençóis a descansarem. Ele a tomar duche com o cheiro do perfume dela. Quando os cheiros se unem, a vontade de começar a noite de novo. Lábios habitavam toda a casa. Eles saem de mão de dada. Os cheiros misturados. São só um corpo e ninguém dá por isso.

O tempo de trabalho. O tempo da separação. Uma separação que nunca acontecia a cem por cento. Os telefonemas, “o tenho saudades tuas”…”o amo-te”…”um beijo grande”…”o até já”.

Tudo bate forte quando o sentimento é forte. Fazem-se coisas meio loucas. A loucura a vestir os sentidos. Os sentidos a acelerar o coração. A vontade de sair e partir em busca do desejado. Porque paixão é isso mesmo:

Loucura;

um galopar sem freio;

uma passagem por outra vida;

por vezes um perigo sem nome;

sedução, euforia, morte;

morte de amores como a morte das flores à sede.

O quererem estar só os dois. Só eles e um mundo que corre lá fora. Uma solidão a dois, também pode cansar. Por vezes tentam levar o seu amor para junto de outras pessoas. Cansam-se depressa. Estão sempre desejosos de voltar para o seu canto. Para a sua vida beijada e amada. Para lerem livros um ao outro, para ouvirem os mesmos discos de vinil, para se deitarem na alcatifa e serem felinos. Para se inventarem de novo. Tudo se vai passar quase do mesmo modo. Os seus cheiros misturados já confundem as pessoas. Os lábios dela na cabeceira branca da cama em tons de batom vermelho. Vermelho, caminho para outra dimensão.

O amanhã já vocês sabem.

O dia já vos contei.

Não vos vou contar outra vez o resto.

Já chega.

Já sei!

Vocês querem saber, e se um dia tudo acaba? Se o cansaço vencerá a paixão para algum deles? Como será?

Deve ser uma desilusão tremenda para quem se sente abandonado:

Um vazio imenso,

Há quem se meta no álcool, quem recorra a pastilhas para conseguir dormir, quem se deite e se levante e vá deambular pela noite. É um luto como outro qualquer. Lágrimas grossas e um sofrimento que enruga a pele.

A paixão pode matar. (Acho que já vos disse isso). A dor é muita. Facas a navalhas espetadas num corpo abandonado. Um grito longo e rouco, que, muitas vezes, anuncia o fim da dor. É como o estertor final.

Finalmente a paz.

«Sim senhor, agora a paixão! Tu realmente! Não havia mais nada sobre o que falar?»

Fala de Isaurinda.

«A paixão é algo lindo e perigoso, será doentio? Mas olha, é um tema como outro qualquer.»

Respondo.

«Realmente! Olha, parece que quem está doente és tu. Que Deus te ajude.»

De novo Isaurinda, e vai, um riso gargalhado.

 

Jorge C Ferreira Dezembro/2023(419)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

Pode ler (aqui) todas as crónicas de Jorge C Ferreira


Leia também

18 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Paixão”

  1. Cecília Vicente

    O amor e a paixão tanto se escreve, tanto fica na história de muitas vidas; antigamente morria-se de amor, enclausuravam-se por amor. Hoje nada mudou, como mudou tanto dos dois sentimentos, mata-se por amor, destrói -se vidas por amor, mata-se por paixão e ódio, ciúmes doentios, não que não houvesse noutros tempos, mas os duelos romantizavam e camuflavam a violência. Que dizer sobre o amor? Que escrever sobre a paixão? Que sentimentos bonitos mas de areias movediças… Um carrossel de vidas e escravidão escondida (…) Para muitos ficam beijos e abraços e segredos silenciados, há quem escreva romances com finais felizes, afinal, o amor é o amor… Abraço meu muito amigo numa amizade imensa.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Do que te foste lembrar, os duelos, a chamsda defesa da honra. Sabes, a maioria dos factos horríveis que contas tem a ver com o sentimento de posse e não com amor. Embora haja amores puros. A Paixão é uma loucura. Festas felizes. Grato. Abraço grande

  2. Maria Luiza Caetano Caetano

    Como é belo e intenso, o que deliciosamente escreveu meu poeta, que como ninguém fala de paixão e de amor, só assim escreve, quem sente a força destes dois sentimentos, tão poderosos.
    O amor é uma coisa maravilhosa. Felizes os que elevam o amor à paixão e a vivem, loucamente.
    Um privilégio !
    Adorei querido poeta. É sublime o que li.
    Abraço imenso e grato.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Minha generosa amiga. É tão gratificante ler o que escreveu. Festas felizes. A minha gratidão. Abraço enorme

  3. Eulália Coutinho Pereira

    Sublime
    O amor levado ao máximo.
    A paixão cega e surda. Momentos de felicidade profunda. Amor intenso, nada mais importa.
    Move montanhas. Ultrapassa obstáculos.
    Obrigada, Poeta do amor, por esta crónica magnífica.
    Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália, minha Amiga. Como é bom ler os seus comentários. O perigo da paixão. A eterna loucura. Festas felizes. A minha imensa gratidão. Abraço grande

  4. Filomena Geraldes

    nunca lhe viraste as costas.
    antes deste o peito à suprema paixão.
    fizeste com ela o teu ânimo, um desnorte sem bússola
    uma teoria abafada pelo som impúdico dos beijos
    a razão de
    ser da união, da simbiose e da arte do amor.
    foi pela paixão que te desnudaste
    de preconceitos e convenções.
    foste percorrido pelo ardor, sofreguidão
    e o instinto de entrega total e desmedida.
    um cansaço que não cansa.
    uma exaustão que não fere.
    antes liberta, solta e se expressa.
    intimamente.

    enrolados na alcatifa
    eram corpos suados
    buscavam prazer
    em lugares inesperados

    brincavam às escondidas
    não se fizeram rogados
    beberam das suas seivas
    ficaram embriagados

    eram sabores agri-doces
    foram então salivados
    essências e especiarias
    com olfactos perfumados

    e por cada beijo lambido
    por cada sonho sonhado
    ficou-lhes o sabor a pouco
    para um prazer renovado.

    a paixão vista pelos olhos de uma
    mulher que a sente na pele. nas vísceras. na essência.

    grata por este instante de partilha.
    a paixão é reveladora de um estado
    d’ alma.
    nesta crónica iluminaste a noite
    invadiste a dança do luar
    inspiraste o fluxo das marés
    reinventaste a verbo apaixonar.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Amiga especial. Outro poema belo. Que bom é ler isto depois de escrever um texto que nunca sabemos se vai agradar. Festas felizes. A minha imensa gratidão. Abraço enorme.

  5. Isabel Soares

    Uma crónica a recordar-nos um “modo” de amar outro ser: a paixão. Dita como um sentimento de embriaguez total e contínua, sem ressaca. Onde todos os sentidos, o corpo e o pensamento são uma amálgama de uma intensidade única.
    Para o autor os apaixonados vivem paralelamente, à margem, um amor só acessível a si mesmos. Uma quase fusão de duas vidas que se alimentam uma da outra. Tão só. Duas identidades a formarem quase uma. À “volta” o desnecessário.
    Estar apaixonado impele os amantes a um registo próprio que inventam. Tudo é original e possível, a dois. Uma soma sem resultado aritmético compreensível.
    A energia inesgotável e os corpos a viverem no limite. Tudo é possível para os amantes apaixonados (excepto a distância). A euforia instalada assim o permite. Mas esta aceleração em permanente contínuo, este viver desenfreado é assombrado, sem percepção inicial, pela impossibilidade da sua manutenção no horizonte temporal da vida. Quer a vida biológica quer a psicológica irão esgotar as suas energias. O descanso impõe-se, à revelia de um desejo que se manteria. E lê-se como é difícil superar uma paixão. Caminhos vários, mas todos dolorosos. A dor, as dores amputatórias, pois a morte de uma paixão é sempre um pouco a morte de si mesmo, na irrepetibilidade das vivências.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel, que texto extraordinário. Que maravilha. Percorrer os duores ds paixão até ao penoso fim semos capazes de ser loucos. Festas felizes. A minhs imensa gratidão. Abraço enorme.

  6. Claudina Silva

    Amei a tua crónica Poeta Jorge C Ferreira! Parabéns! A paixão e o amor movem montanhas! Só eles poderão mudar o Mundo! Um forte abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Claudina. Também eu amo sempre o teu comentário. Sermos capazes de arriscar ser felizes. Festas felizes. A minha gratidão. Abraço grande.

  7. Lenea Bispo

    Amar tão intensamente , não querer mais do que a pessoa amada …. uma paixão assim, é um privilégio que não bafeja o comum dos mortais . E se acabar? Dizem que o estado de paixão é finito, que a segurança tende a acalmar esse estado de turbulência constante . Mas se acabar? Se isso acontecer , ficará a certeza de que nem todos atingiram esse estado de quase Nirvana . Uma sorte que só acontece a alguns .
    Bem hajam os que já experimentaram esse estado a que chamamos Paixão.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Lénea. Tão bom p que escreveste. Será a paixão, apenas um sonho? Uma loucura assumida? Viver a paixão. Festas felizes. A minha imensa gratidão. Abraço enorme.

  8. Fernanda Luís

    Paixão
    Adorei a crónica poética desta semana.
    Magistral, soberba. Assim é a paixão.
    Loucura que recomendo.
    Deu-me a saudade, vá-se lá saber porquê, ahah!
    Abraço
    Votos de Boas Festas

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda, minha Amiga. Que coragem demonstra ao desafiar a Paixão. Eu sei que é um estado único. Festas felizes. A minha enorme gratidão. Abraço grande

  9. José Luís Outono

    Porque será … que revejo-me neste dizer de contos onde a ânsia marca compassos e agiliza momentos do momento, num cálculo quente e desafiador?
    Porque será … que o tom apelativo do desabafo sonhador escreve encontros insólitos enquanto as marcas da palavra , são prémios com sabores multifacetados?
    Porque será … que as nascentes de diálogos divagadores soletram de propósito momentos tácteis em argumentos nunca iguais?
    Porque será … que o teu enredo é uma semente desafiadora num perpetuar belo e único?
    Porque será … ???
    Ainda bem que há sementes culturais, que nos apaixonam e gritam alívios de conquistas puras e multiplicadoras de paixões!
    Grande abraço, estimado amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado José Luis, meu Amigo Poeta. Que alegria ter aqui os teus belos e assertivos comentários. A paixão pela arte e a arte oela paixão. O artista que dizem louco por deixar tudo pelo vício de espantar os outros. Festas felizes a minha imensa gratidão. Abraço grande

Comments are closed.