Crónica de Jorge C Ferreira | A Mudança

Crónica

Crónica de Jorge C Ferreira
A Mudança

 

O colo dela, o sossego dele. Uma guitarra dedilhada. Uma mulher deitada. O sossego dele, o colo dela. Um alaúde, uma cítara e um cajón. Uma música exótica. Um amor a crescer. Quantos dias tinha ela? Quantos eram os que ele tinha perdido quando os tentava contar? Nossa aventura. Feita caminhada. Os medos e os tempos vencidos. Uma faca afiada pronta para cortar contratempos. Um calendário com meses rasgados. A ignorância dos dias perdidos.

Tempos houve em que os seus perfumes não eram um odor único. o perfume dela era o perfume dela. O perfume dele, outro perfume. Tudo antes de terem misturado os odores, os sabores, os corpos. Tanta coisa iria mudar em pouco tempo. Não perderam muito tempo a pensar. Arriscaram. Uma situação complicada. Muitas as bifurcações, os cruzamentos, as complicações. Tantas vozes incómodas e incomodadas. Algum falatório. Complicados são sempre os caminhos para o futuro. Um cajado, uma trouxa e uma estrada para percorrer. Quase uma promessa. A vontade de chegar. Os amigos de ajudar. A estrada a passar.

Rápido passaram a comer nos mesmos restaurantes.  Passaram a frequentar os mesmos bares. A percorrer facilmente as ruas de Lisboa. O Chiado, ainda por arder, era a capital do seu mundo. O Bairro Alto ali à mão de semear, os seus restaurantes. Depois o Príncipe Real e os seus bares. O fim da noite. Descer até ao Cais do Sodré e apanhar o comboio para casa.

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Tempo de descanso. Tempo de maresia. Tempo de partilhar tudo e ficar de tudo cheio. O júbilo e o êxtase que os enchia de uma alegria que gritava.

As suas duas casas. A dela e a dele. Foram dividindo os espaços, os lugares, vilas da mesma linha. A casa. A casa é uma alcofa de desejos. Um ninho para acolher todos os pássaros por nascer. Um lugar único que preserva os nossos cheiros, os nossos vícios, as vozes sussurradas. A pequena casa dele. Muitos livros, alguns quadros, muito calor, muito humanismo e uma foto de Che Guevara. Casa que em breve passou a ser dos dois. O seu perfeito aconchego. Aqueles poucos metros quadrados inteiramente aproveitados. A cor quente da alcatifa que lhes aquecia os corpos sedentos um do outro. Sim, as casas eram alcatifadas.

O comboio que passava ali ao lado. O mar que se ouvia em determinados dias, um mar zangado e um vento de sul que por vezes uivava. A campainha da passagem de nível. A guarda-cancela. Um prédio novo numa rua velha e estreita. Ainda havia uma tasca com os antigos reservados e uma fotografia enorme e antiga de um Grupo Excursionista. Alguma algazarra. Os copos de dois e de três. O vinho do lote. As sandes de torresmos. Algumas discussões sem sentido. O fecho e a saída desordenada dos clientes. Para alguns a rua era pequena demais. A ébria loucura. Um bafo que ecoava nas paredes.

Acordaram, tomaram um duche rápido. Correram para o café para a primeira bica de um outro dia. Correram para comprarem os jornais, antes de apanharem o comboio. Começaram a primeira leitura do dia. Começaram mais um dia. Tudo tão novo e tão antigo!

«Que história! E olha não me parece nada estranha.»

Fala de Isaurinda.

«É uma história igual à de tanta, tanta gente.»

Respondo.

«Pode ser, mas a mim parece que há aqui marosca.»

De novo Isaurinda e vai, um sorriso largo.»

Jorge C Ferreira Janeiro/2024(422)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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14 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | A Mudança”

  1. Jorge C Ferreira

    Obrigado Lenea; minha Amiga. O teu comentário é perfeito. Uma viagem pelo nosso tempo e as nossas vidas. O brilho dos olhos apaixonados. “Inventar o amor com carácter de urgência “. como diz Daniel Filipe na “Invenção do Amor”. A minha gratidão por estares aqui. Abraço grande

  2. Maria Luiza Caetano Caetano

    Li, uma linda história de amor. De um amor bem vivido. Dois perfumes que se entenderam. Aromas que não ligaram a “falatórios”e fizeram caminho. Andaram pelo Chiado, pessoas de bom gosto. Que não passaram despercebidas a Isaurinda, a mim também não!
    Adoro ver pessoas apaixonadas depois de tanto caminho percorrido. Lindo, o que tão docemente escreveu, é uma pérola para guardar. Amei, meu querido amigo, a sua sensibilidade encanta.
    Abraço grande, meu poeta.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza, minha Amiga tão especial. O Chiado entrou na minha vida muito cedo. Fiz o Curso Comercial na Veiga Beirão. Trabalhei na baixa. Esta história é a história de muitas vidas. Muito grato pelo seu generoso comentário. Abraço enorme.

  3. Branca Maria Ruas

    A mudança. As lembranças e a descoberta de uma outra vida onde se soube construir uma cumplicidade feliz.
    Tempos vividos com intensidade e paixão. Histórias e memórias que guardamos do que fomos e do que somos.
    Caminhos percorridos. Caminhos desfeitos e caminhos que se abriram.
    Cada vida é feita de muitas vidas. A tua crónica traz-me memórias de uma das que vivi. Mas a vida continuou em mudança. E surgiram outros caminhos, E outras vidas aconteceram.
    Adorei a tua crónica e cada palavra que escolheste para contar a tua história!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. As histórias das nossas vodas. O percorrer de um caminho que é único para cada um. As mudanças. Arriscar num mundo difícil. A minha imensa gratidão pelo teu lúcido comentário. Abraço.

  4. Eulália Coutinho Pereira

    Excelente. Ao encontro do amor.
    Viagem de descoberta. Plena juventude. Sonhos, cumplicidade, a vida a acontecer.
    Belas memórias, cada vez mais vivas. Regresso a uma época tão rica de acontecimentos.
    Obrigada Amigo pela generosidade da partilha.
    Grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado, Eulália, minha Amiga. A força que a juventude confere. A eterna insatisfação. Partir à descoberta de outras realidades. Um turbilhão de ideias que nos fervilham na mente. Muito grato pelo seu sensível comentário. Abraço forte

  5. Cecília Vicente

    Um começar com segredo, Desvendar o óbvio, a soma da vida, repartir dá a soma de dois, é a dois que constroem a vida e a multiplicação será a prova do amor. A existência é uma aventura, o amor é amar é verbo, o futuro vivendo a história como se houvesse o primeiro dia de sucessivas paixão, levam ambos a bagagem acumulada. A paixão será eterna, pequenos gestos são repetitivos como se o segredo nunca tivesse visto a claridade, essa é a maior aventura todos os dias…
    Hoje e sempre a realidade é contínua, basta reviver o começo de tudo. Abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília, minha Amiga. Tantaa casas de partida, algumas casas de chegada. Jogar a vida aos amores. A paixão que nos encanta e desgasta. Assertivo o teu comentário. A minha gratidão. Abraço grande.

  6. Margarida Macedo Pires

    Gostei muito!!! Despertou em mim ecos de outros tempos em que por via do amor, tudo tinha significado, tudo se transfigurava e onde nada mais importava senão os momentos vividos a dois. Há que colher esses momentos no tempo certo, não importa se o lugar é o mais conveniente ou o mais confortável. O amor não espera!!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Margarida, minha Amiga. O amor que urge, o amor que passa por nós e nos inebria. Nosso caminho, nossa pressa. O tempo de tudo. Muito grato pelo seu comentário. Abraço grande.

  7. Filomena Geraldes

    existe sempre um olhar…
    um vislumbre, um pingo de luz, uma história de era uma vez, um amor de
    contar.
    existem pessoas que se chegam.
    aconchegam.
    e criam elos, laços indizíveis, marcas
    que deixam rasto, vidas tão comuns
    quanto tantas outras e, no entanto, tão repletas de fascínios e magias.
    são como raras pedras preciosas,
    únicas e completas de algo a quem chamam de fado e faz acontecer encontro. destino. ou não.
    e depois veio o lar e os perfumes que exalam corpos na constatação
    do desejo e veio o enlevo, o plantio
    e a colheita.
    e veio a cidade num espanto de ver
    os murmúrios, os dizeres, as falas
    em tom acetinado
    e eles. sempre eles.
    a crónica que fica para se prestar
    a outros tantos sóis e sonhos cumpridos
    as palavras que soam como despertares
    imagens de manhãs iluminadas ardentes vigilantes perfumadas
    nada que passe despercebido ao coração
    ao embalo das emoções e à concepção do amor.
    o cronista acordou com um brilho
    no olhar. 💛

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena, minha querida Amiga. Sim,”era uma vez” e depois segue a história de muitas histórias. Tão belo o Poema que escreveste. A minha imensa gratidão por tudo. Abraço enorme.

  8. Lenea Bispo

    Cada história é diferente , parecendo igual

    Cada história é diferente, parecendo igual a tantas outras. Tal como as pessoas … todos iguais , todos diferentes. Mas esta é uma história só vivenciada por aquele par de enamorados que acabaram por unir as suas vidas num ninho tão pequeno que quase rebentava com tanto amor que abarcava . E outro dia passava , na linha da vida que corria sem percalços . O importante era o amor . É urgente, o amor .

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