Crónica de Jorge C Ferreira | Mentes cerradas

Crónica

Crónica de Jorge C Ferreira | Mentes cerradas

 

O que vamos esquecendo. O que queremos esquecer. O percurso que vamos percorrendo. A esperança de aprender mais alguma coisa no próximo passo. Algo que compense o que esquecemos. Os que deixam de nos conhecer. Os que passam a ignorar-nos. Que nada disso nos faça quebrar. Vidas quebradas são pedaços de nada. Restos sem sentido.

Esquecer tudo. As mentes cerradas. Corpos encarcerados. Um esgar que parece um sorriso. Uma espécie de ensaio sobre a ternura. Entender como se despedem de nós. Saber da inevitabilidade do caminho e continuar. Ganhar força que vamos buscar onde não estamos, a um lugar desconhecido que vai aparecendo e desaparecendo. Um poço sem fundo. Um túnel cuja saída custa a encontrar. Um rio que nos pode afogar.

O cansaço que aumenta. Os receios, diria medos, que nos vão desgastando e corroendo. Outra luta difícil. Controlar a mente, a coisa mais difícil que enfrentamos. Quando nos dizem que está tudo bem e ficamos ainda mais receosos. Tudo se agrava. Um jogo de luzes difícil de compreender. As sombras que passeiam à nossa frente. Sombras que ignoramos se existem. Animais imaginários passeiam numa parede branca.

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Tanta coisa pelas quais passámos a ver os outros. Coisas que guardamos e, muitas vezes, refletimos em nós, sonhamo-las e vivemo-las de uma forma estranha. A estranheza de não sermos nós por instantes. Sermos o personagem de um sonho vivido. Questionarmo-nos se é sonho ou realidade. Esperar o tempo suficiente para entrar de novo na realidade.

Reconhecer nas mãos dos outros as suas vontades. Esquecermo-nos das nossas. O tremor essencial e a idade que vai andando ou desandando. O garfo que treme. A mão esquerda pior que a direita. Um difícil equilíbrio. A dose dos comprimidos a aumentar. Domar o tremor.

O longo tempo que dura uma noite. Acordar e tentar saber onde estamos. Haverá mais alguma coisa para além da manhã em que não acordamos?

Onde podemos ser encontrados? Somos desaparecidos ou desencontrados?

Mas há manhãs que parecem dias novos. Novas maneiras de viver. Uma alegria inesperada, uma quase euforia. Um sinal frágil de bipolaridade. Cada vez mais uma raridade. Uma forma de estar cuja ressaca faz doer. Por vezes vómitos. Agonias. Desespero. Uma vontade imensa de um abraço de alguém. De uma carícia. De um beijo. O chamado milagre de um corpo adoçado.

Há quem só lhe apeteça dormir. Fechar a cabeça ao que não quer lembrar. A tentativa de fugir a uma realidade que é muito teimosa e que deve ser combatida de outro modo.  Procurar ajuda de quem sabe. Ganhar empatia e não ceder. Não é fácil, nada é fácil. Acreditar, apesar de tudo. Tentar sair do poço. Chegar à tona da água.

É na ternura que se encontra a chave de tudo. Do saber que se é gostado. Que somos parte de outros. Acendem-se velas. Desanuvia-se o ambiente. A água com sal grosso. Uma ferradura atrás da porta. Os espantalhos invisíveis. Pilhas de tudo. Não é desarrumação, é acumulação.

«Começo a ficar preocupado contigo e com essa tua converseta.»

Fala de Isaurinda.

«Tu já sabes que, por vezes, vem-me um tema à cabeça e os dedos não param.»

Respondo.

«O que eu me parece é que estás a ficar esquisito, muito esquisito.»

De novo Isaurinda e vai, a cabeça entre as mãos, um ar desesperado.

 

Jorge C Ferreira Novembro/2023(416)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Mentes cerradas”

  1. Jorge C Ferreira

    Obrigado Maria. Tão belo e optimista o teu comentário. Tu que és uma mulher de afectos e encontros com a vida. Frase linda a que gravaste no teu escritório. A minha ima gratidão. Abraço grande.

  2. José Luís Outono

    O ontem e o hoje, num traço questionador preocupante, onde marcas compassos e reflexões de um viver constante, mas duvidoso em cada manhã, face ao incógnito que vivemos em nosso redor, e o pragmático de cada acordar olhando em frente sem segurança, ou visando pequenas tremuras de cada passo perguntador.
    Apelativo sem dúvida, destacando o remate final de Isaurinda num ler pressionado das inquietações de cada minuto.
    Excelente …digo, quando te leio e releio num “saborear” dos teus desabafos!
    Excelente … repito, ler-te num voltar de página do próximo livro com o título do que escreves e publicas
    Há compassos bons na minha vida, quando te leio e desabafo :
    – A ânsia de ler-te de novo é uma excelente vitamina.
    Como Isaurinda, grito-te – Não pares, nem com a desculpa de a tinta faltar!
    Grande abraço!!!!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado José Luís, Poeta. Sempre assertivos os teus comentários. O teu envolvimento com o que lês. A emoção que se vê no que escreves. Tudo tão gratificante. A minha imensa gratidão pela tua presença neste nosso espaço. Abraço grande

  3. Isabel Soares

    Uma crónica bela. O pensamento poético (ou será antes filosófico??) em prosa num exercício de reflexão sobre uma realidade (a sua??!!), às vezes (?),esgotante. A melancolia a preencher um ser desesperadamente (naturalmente a Isaurinda está preocupada). O “cansaço”, o “medo(s) e a desesperança da e na vida. A morte, as várias mortes que vão surgindo e insidiosamente traçam outros modos de ser e sentir. Ao autor e aos outros (?). O não reconhecimento do próprio corpo que teima num funcionamento progressivamente mais adicto em aliança com uma “mente” comprometida com essa carne estrangeira de si. Por isso, o não reconhecimento próprio.. O problema da identidade e da memória. Umbilicalmente entrelaçadas. Uma entidade sem possibilidade de divórcio. A ausência mnésica implica uma mesmidade modificada e que se modifica. Uma dinâmica autónoma. A presença do medo(s) é verbalizada de forma assustadoramente visceral, nas vivências diárias ou prolongadas (retrospectivamente nas recordações não esquecidas) de um tempo longo que gravou marcas transformadoras numa “estranheza”, quase, ontológica.
    Um escrito acerca, também, da alteridade em si. O ser outro na sua (e dos outros) própria realidade. O não ser ;o não estar . Intermitentemente. A desorientação numa cognição outra. O susto transcendental a evocar uma para-realidade demasiado dolorosa. Enfrentá-la, sublimando, por mecanismos internos ocorrendo espontaneamente e/ou por interferência de alguéns.
    Um texto sobre o sentido(s) da existência(s). A sua? A questão metafísica de difícil, se não mesmo, impossível resposta. E decidir continuar, assumindo máscaras, rumo ao fim desconhecido. Identidades forjadas face aos outros e à realidade(s) que se vão ficcionando nos vários vazios que se entranham na pele (esta, imbuída em raízes éticas e estéticas profundas, identitárias).
    A depressividade surge, ao longo do texto, numa marca que se instala como despedaçamento do eu. Deixar de ser. Ser outro numa dor dilacerante e de fuga. De tal intensidade que torna o resgate da pessoa, quase, impossível. A morte em vida. Lentamente ir desaparecendo. O ultimato interno da, necessária, “recuperação”. Encontrar-se novamente, apesar de tudo. É curiosa a menção à mania (nas características de energia e alegria puras; lendo-se que há a extrapolação da doença – outro tipo de questões se colocariam- para uma sintomatologia “existencial”). como superação de um estado que se vê como depressão, mas cujo preço é elevado. Terapêutica administrada para o retorno à eutimia (dualmente: o sujeito e um outro ??): o “beijo”, o “abraço”, a “ternura”. O eu perdido, talvez, retorne à sua realidade, pelo e no amor do outro(s). Dos que existem em e para si.
    Numa espécie de associações livres: “este país não é para velhos”; “em mim sou vários”; “o verdadeiro problema filosófico é o suicídio”; “Foram os hábitos que me conduziram ao alto deste outeiro?” Eu sou a minha própria ilegitimidade (supondo que sou dotado de razão e assim na posse de discernimento abstracto), na ambição de um conhecimento infinitamente a perfazer-se (inalcançável, volátil; uma incógnita que ocupa um espaço e um tempo finito. Sempre um para-ser.
    Um escrito de uma “alma” de ternura (excessiva, exagerada, peculiar) sofredora. Uma mente aberta, quer à angústia existencial universal quer à angústia do seu eu. Sempre a indagação e a inquietação e o sentido a nortear o ser e o estar “aqui”.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. O que escreveste é um ensaiio sobre o não saber quem somos. A busca incessante do nosso eu. A inquietação. Adorei. Adoro essa forma inquieta de estar. As constantes incerteza. A filosofia à flor da pele. A minha eterna gratidão por estar aqui. Abraço forte.

  4. Coutinho Eulália Pereira

    Extraordinária reflexão sobre a vida, que vai ficando para trás.
    As memórias que ficam, outras que desaparecem. As pessoas que passaram, as que ficaram, outras que vamos encontrando.
    Ir ao fundo e voltar. Procurar respostas. Viver cada momento sem pensar.
    Pensar em cada momento já vivido.
    Procurar sobreviver com um abraço. No carinho encontramos a força para vencer e caminhar.
    Obrigada Amigo por estes momentos de reflexão.
    Cada palavra é um abraço.
    O meu Abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Que belo comentário. É sempre um gosto ler o que escreve. As pessoas que são marcas na nossa vida. Frame a frame vamos vendo passar a nossa vida. As coisaa que valeram a pena ser vividas. A minha gratidão. Abraço grande

  5. Maria Luiza Caetano Caetano

    Um tema tão sério escolheu, meu Amigo. Uma realidade, que muitas vezes assola o meu pensamento e fico triste. Gostava de saber quem sou, sempre. Que Deus me ajude.
    Tão bem descreve esta tão triste situação. Vamos acreditar, que uma mão amiga estará sempre connosco. A mão da ternura, para que nos afague e nos conforte.
    Obrigada querido escritor, que os seus dedos se mantenham sempre activos. Adoro lê-lo, sempre grata. Abraço enorme.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Tanta ternura no que escreveu. Emociona o seu comentário. As mãos que nos dão a ternura quando nos sentimos perdidos. A minha imensa gratidão, querida Amiga. Abraço grande

  6. Filomena Geraldes

    como não amar?
    se depois dos medos, dos fantasmas que passam rente aos nossos pés, das lacunas do pensamento
    do que fere e amordaça
    de um não saber amanhã
    inertes as palavras ou soturnas. frias.
    como não amar?
    se depois da rebentação das ondas junto ao peito, dorida
    dos pingos de chuva que
    explodem no âmago, inconstantes.
    de um lugar inóspito e lúgubre chamado noite ou pesadelos, se…
    depois se lhe acrescenta o dia e
    vem como vier.
    mas vem. com a ternura enrolada
    à cintura
    beijos nas pontas dos dedos.
    silenciosos.
    um dicionário de palavras recriadas
    a partir do amor.
    o desejo a sair de uma lâmpada
    mágica. de Aladino?
    um país das maravilhas.
    inventado aqui e agora.
    um sopro de esperança a tocar ao
    de leve no nosso ombro.
    a presença das pessoas que trazemos ao colo do coração.
    como não amar?

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Como não amar este teu Poema feito comentário. É tão gratificante ler esta tua poesia. Fico feliz por a cada texto meu responderes deste modo. Como não amar? A minha imensa gratidão por tudo o que nos ofereces. Abraço enorme.

  7. Cristina. D. Patrício

    … assim é o caminho. Questionar para viver melhor ou só para o entender! As manhãs serão sempre mais claras com ternura.
    Abraço, amigo Jorge. C. Ferreira

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Que bom estares aqui. Temos de nos contiuar sempre a tentar saber quem somos, onde estamos. Vamos esperar por essas manhãs de que falas. A mimhw gratidão. Abraço grande

  8. Fernanda Luís

    “Mentes cerradas”
    (Relembro que escrevo pelo novo acordo, já que a tal fui obrigada no meu “métier”).

    Crónica inquietante. Como pôr sal grosso nas feridas. Deu-lhe para o Sadismo? Ahah!
    “O que queremos esquecer”. A nossa mente é seletiva, poupando-nos ao sofrimento no dia-a-dia. Algumas Situações traumáticas, dolorosas, ficam guardadas em gavetas sem chaves. Quando abrem, sem o nosso controlo, desastre total, difícil de gerir.
    Mas quando queremos esquecer, significa para mim estar ao nível do consciente, por isso, a mente ainda não teve tempo de arranjar gavetas, nem vai conseguir já que a realidade adquiriu uma velocidade estonteante. Qual 5G?!
    Com o avançar da idade, falo por mim, vamos tendo menos defesas para lidar com tudo o que acarreta sofrimento.
    Sei de “sombras, medos, animais imaginários, poços sem fundo, túneis…”.
    Vivemos com esses fantasmas. A realidade, cada vez mais cruel, ou melhor, a crueldade humana em crescendo vai avolumando o desespero e a vontade de esquecer, esquecer, esquecer…
    Até quando?
    Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. Que excelente comentário. As marcas do tempo. O tempo que nos marca. O ficar mais vulneráveis. Nunca sabemos o fim de nada. A minha gratidão. Abraço grande

  9. Claudina Silva

    Fantástico o teu texto Poeta Jorge C Ferreira! O retrato do nosso Mundo atual! Abraço Amigo! Vamos ter força e lutar!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Claudina. É tão bom ter-te sempre aqui. Os teus comentários sucintos mas assertivos. A minha gratidão, minha amiga. Abraço grande.

  10. Cecilia Vicente

    Os pensamentos tornam-se revoltosos com receio do futuro que é presente; um iminente descalabro do que deveria ser emocionalmente saudável. Carrascos povoam o mundo, um mundo, abruptamente, caóticamente armado como se estivéssimos galaticamente numa guerra de e com estrelas, todos têm nome e rosto, assustadoramente épico, um dejá vu com figurantes que deambulam num terreno minado de desafectos, é o mundo do início, da era do paraíso que pelo pecado destrui-se dando ao mundo a era das trevas. A humanidade e a sua ambição desmedida em capítulos continuados, haja armas, haja o que houver nada impede os corações de aço continuarem a escrever a história em nome do poder e da religião… Abraço meu amigo. Fica bem!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Belíssimo comentário. Os caminhos do passado e do presenta. O futuro que ignoramos. Os medos e os sofrimentos. Vamos esperar que a ternura nos dê a mão. A minha imensa gratidão. Abraço grande

  11. Branca Maria Ruas

    A sombra e a luz de cada vida. Todos as temos. Com o passar dos anos as sombras adensam-se. Temos de arranjar estratégias para as afastar. Cada um terá a sua. A escrita, os afectos, são ajudas preciosas mas, por vezes não chegam…
    Saber sair do poço e (re)encontrar a Luz é uma Arte que todos devíamos saber praticar.
    Vinicuis de Moraes dizia:
    “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.
    Tenho esta frase gravada numa parede do meu escritório para nunca me esquecer da importância desse encontro com a Luz, com a Vida!
    Um grande abraço, meu Amigo!

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