Crónica de Jorge C Ferreira | Outro Dia

Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Outro Dia

 

Novos inícios de dia. Novos fins de tudo. Um escuro que se desvanece. Um cântico estranho que se ouve. Uma língua desconhecida. Vozes longínquas. Estranhos e surdos pensamentos nos invadem o corpo. Nascem em nós estranhos sinais. Ainda estaremos a sonhar. De repente, um absoluto vazio. Um calado silêncio. Uma solidão inesperada. Um sonho apagado. Tudo isto demora um curto momento. Um tempo que não sabemos quantificar.

Um som que começamos a ouvir. A telefonia que deixámos ligada antes de adormecermos. As notícias hora a hora a entranharem-se nos nossos sonos. Sonos, com sonhos induzidos. Acontecimentos que desconhecemos. Novas fases de uma vida de que não fazíamos a mínima ideia. Que já Um dia que nasce esplendoroso. Um dia que esperamos tenha nascido para todos. O sol apareceu novamente e nós podemos admirá-lo. As suas explosões a acontecerem. Somos pessoas com sorte. Vamos continuar a vida. Dar o primeiro passo do dia sem cair. Do rádio, já cansado, saem novidades, anúncios, algumas alarvidades. As discussões continuam. Ainda bem que tudo isto acontece. Ainda bem que podemos contrariar as ideias uns dos outros. Tudo sem passar das regras da compostura e da educação. A delicadeza de saber estar.tínhamos apagado da memória. Tudo recomeça e tudo se apaga de novo. As caixas que abrimos e fechamos. Uma espécie de contador chinês. Um jogo que cansa e desgasta. Um modo de recomeçar tudo de novo.

Por fim é dia.

O sajcferreira livrober andar, cuidar de nós e dos que nos rodeiam. Mergulhar na vida toda. Um Jornal e um café. A conversa afiada e nunca acabada. Não dar conversa a quem não respeita os outros. Já os conhecemos de outros tempos. Já sabemos do que são capazes. É rapaziada do mal. Se chegarem ao poder será para acabar com a liberdade dos outros e fazer da sua verdade a verdade absoluta. É tempo de ir à Livraria ver as novidades. Cumprimentar as livreiras. Tentar aprender algo mais.

Comer qualquer coisa, beber um sumo. Uma outra bica e um outro café, num café diferente. O dia a andar e ainda tanto para não fazer. Tomo apontamento de algo que vejo nas notas do meu telemóvel. Ainda não sei se vai servir para alguma coisa. Por vezes, muitos textos começam assim. Logo se verá. Este café é mais calmo. E tem uma especialidade, os queques, que costumo levar para o meu neto. Eu como também um com o café.

O dia está agora a correr, a escapar-nos por entre as mãos. Em breve se acenderão as luzes. Será noite. A sedutora noite. Bela e atrevida. Capaz de todas as coisas. Por vezes pura, outras vezes danada. Os noctívagos caminham para os bares. Vão beber a noite em goles de bebidas com duas pedras de gelo. Outros regressam do trabalho para casa, horas perdidas em transportes infernais.

Eu irei ver as notícias e tentar escrever algo. Talvez seja capaz ou talvez não. Quando me deitar vou fazer o balanço do dia. Vou tentar saber quem sou.

«Olha que dia! Se ao fim te encontrares já não é mau.»

Fala da Isaurinda.

«Nunca se sabe, nunca se sabe.»

Respondo.

«Deve ser certo, deve ser certo. Nesse dia há foguetório.»

De novo Isaurinda, e vai, a esfregar as mãos.

 

     Jorge C Ferreira Maio/2024(438) 

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n. 1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor publicou as seguintes obras: A Volta à Vida à Volta do Mundo (Crónicas de Viagem) Editora Poética (2019) Desaguo numa Imensa Sombra (Poesia) Editora Poética (2020) 60 Poemas mais um (Poesia) Editora Poética (2022) O Mundo E Um Pássaro (Crónicas Vol.I) Editora Poética (2022) O Mundo E Um Pássaro (Crónicas Vol.II) Editora Poética (2024) Participação em Antologias: A Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence (Poesia) Antologia Luso-Francófona Editora Mosaico das Palavras (2018) Poetas do Reencontro (Poesia) Antologia Galaico-Lusa Editora Punto Rojo (2019) A Norte do Futuro (Poesia) Homenagem poética a Paul Celan Editora Poética (2020) Sou Tu Quando Sou Eu Homenagem À Amizade (Poesia) Editora Poética (2021) Água Silêncio e Sede Homenagem Poética a Maria Judite Carvalho (Poesia) Editora Poética (2021) Ser Mulher IV As Palavras (Poesia) Editora Mosaico das Palavras (2021) Nem Sempre Os Pinheiros São Verdes II Editora Poética (2022) Representado na Revista Pauta nº9 com um Poema (2022)

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10 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Outro Dia”

  1. Eulália Coutinho Pereira

    Bela reflexão. Assim se constrói uma vida. Passo a passo. Despertar quando começam a surgir os primeiros sinais de lluz,os primeiros ruídos da rua.
    Uma felicidade poder sair da cama, caminhar, cuidar de si e dos outros.
    As primeiras notícias da manhã, repetidas até á exaustão.
    Tanto ódio, tanto crime, guerra.
    Nada justifica a morte de tantos inocentes, que só queriam viver..
    Secas, cheias, mortes, desaparecidos, desalojados.
    Comenta-se. Todos comentam. Tudo se comenta.
    Esperança de novo dia.
    Ninguém sabe como termina.
    Que felicidade poder despertar, caminhar sem saber para onde vamos.
    Obrigada Amigo por estar sempre desse lado.
    Abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Que belo comentário. Uma caminhada nesse caminho que queremos percorrer. Ser pelos outros. E saber das coisas deles. Saber despertar. Gratidão. Abraço.

  2. Branca Maria Ruas

    O quotidiano de um poeta.
    Quem sonha nunca se cansa de sonhar.
    É a realidade que cansa. Por vezes dói.
    E a gente balança a ver se não cai e se aguenta tanta mudança para pior…
    Depois vem o sonho, a beleza, o encantamento.
    E voltamos a sorrir. E a ter esperança.
    E amanhã é outro dia….
    Obrigada, meu Amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. É isso tudo que tão bem dizes. Acordar e saber ser. Continuar o caminho. Até sempre. A minhs gratidão. Abraço.

  3. Maria Luiza Caetano Caetano

    Adorei ler, esta sua volta à vida dos dias de hoje.
    Sempre uma análise perfeita, como é seu hábito. Dias que também julguei, não voltar a viver. Nem ver caras, que há muito tempo não via e me assustam.
    É sempre um gosto, ler a delicadeza da sua escrita. Um Mar imenso de palavras lindas. Só suas. Que amenizam, a realidade do tema, as notícias que tanto nos entristecem.
    Amanhã é outro dia e seria maravilhoso, se o Sol brilhasse para todos. Vamos acreditar.
    Sempre grata, querido escritor. Abraço grande e amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Delicados são os seus belos comentários. O resto é a vida que vamos vivendo. Dia após dia. Esperar acordar e caminhar. Muito grato. Abraço grande.

  4. Filomena Geraldes

    quando a noite começa tudo pode acontecer.
    nunca sabemos se sonhos se pesadelos
    não sabemos sequer se a noite é serena
    ou conflituosa como as vizinhas do
    r/c que amiúde discutem.
    por causa do alarido da criançada….
    chega a manhã. bem preguiçosa.
    não gosta de madrugar.
    prefere esbracejar, bocejar, piscar o olho ao sol que se ergue. devagarinho…
    o pequeno almoço é leve.
    sai-se para a rua e há uma valsa de vizinhos na rua. as calçadas estão
    cheias de rostos conhecidos. amigáveis.
    os cumprimentos são dados. aqui e ali. com parcimónia.
    no merceeiro, na senhora dos conge-
    lados ou no super apinhado de gente de olhos pisados.
    quando entra a tarde e depois do
    almoço, há sempre o que fazer.
    entreter o meio do dia com uma leitura, pôr em dia uma conversa adiada ou ir à escola preencher com aulas risonhas o que ainda resta do sol que se vai pondo…
    o cronista levou-nos por um diário escrito com aprumo, um percurso de sensações e uma rotina que não nos
    é indiferente.
    é pormenorizado, cuidadoso e hábil na linguagem de que faz uso.
    um mestre exímio.
    com anos e anos de prática na arte de bem escrever.
    damos a volta ao dia.
    já noite, as imagens do mundo deixam-nos ora animados, ora espantados, ora apreensivos.
    e agora vou.já me pesam as horas.
    não costumo receber a visita dos sonhos muito tarde. são pontuais como a noite.
    até amanhã…
    beijos de estrelas cadentes com desejos à mistura.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Não sei que acrescentar mais além de que dão sempre belos os poemas com que comentas o meu texto. Só dizer-te de toda a minha gratidão e enviar-te um abraço enorme.

  5. Claudina Silva

    Amei! Parabéns por tão linda estória! Parabens Poeta Jorge C Ferreira. Um grande abraço. Clau

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Claudina. Que bom ter aqui a tua presença. Grato por tudo. Abraço grande.

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