Crónica de Licínia Quitério | Até ao meu regresso

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – Até ao meu regresso

por Licínia Quitério

 

Pelo meio de tantas memórias que enchem caixas, caixotes, baús, fui recordar  os aerogramas, coisas que hoje já ninguém sabe o que são.

Foi a guerra, talvez se lembrem, aquela devastadora guerra entre o governo de Portugal e os movimentos de libertação das colónias, que assim não podiam ser chamadas, mas províncias ultramarinas. Disfarces, eufemismos para catorze anos de sofrimento que queimaram corpos e sonhos de uma geração.

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Eram os aerogramas um papelito colorido que fazia de carta abreviada, para o contacto precário entre os rapazes que faziam a guerra lá longe e as famílias que cá deixavam, as mais das vezes sem perceberem porque lhes tinham arrancado os seus meninos, os seus amores. Num país que na ocasião tinha, diz-se, quarenta por cento de analfabetos, havia de se pedir a uma vizinha ou comadre letrada que fizesse o favor de por no rectângulo de papel as saudades, as saudades, as saudades.

Tantos aerogramas eu escrevi ao Lourenço. A rogo da tia que, não tendo tido filhos, lhe queria como se fosse da sua carne. Seria apenas do sangue, que era da mesma fonte do que corria nas veias da mana Arminda, bem mais afortunada por Deus lhe ter dado aquele bendito fruto do seu amor com o Germano, coitadito tão bom homem e que tão cedo se finara por mor do maldito vício do vinho.

Às vezes, muitas vezes, os aerogramas chegavam às “madrinhas de guerra”, moças conhecidas ou desconhecidas a quem os moços tinham pedido para serem suas madrinhas. Pedidos aceites, encetava-se uma troca de palavras escritas que muitas vezes se transformavam em amizade, muitas vezes em amor em tempo de guerra. O pior acontecia quando uma madrinha, a estranhar a ausência de notícias, curiosa por saber o que era feito do afilhado, decidia consultar no jornal a lista dos desaparecidos em combate, que assim não eram chamados, antes “falecidos em acidente”, e dava com o nome do rapaz. A rapariga chorava como se chora por um amigo de verdade e, no meio do choro, amaldiçoava a guerra que não o deixara voltar para o abraço há muito prometido.

Tinha-o visto na televisão, no último Natal, no tempo concedido aos militares para saudarem os que deixaram na terra. Em breves segundos, apresentavam-se dizendo o nome e o posto e logo, sem interrupção, as dedicatórias para mãe, pai, irmãos, mulher, e outros mais, terminando com as palavras-chave: “Estou bem, graças a Deus, aqui não há guerra, desejo um Natal feliz e um ano novo cheio de prosperidades, adeus até ao meu regresso”. Muitos se atrapalhavam com a palavra “prosperidades”, quantas vezes saltando sílabas ou transformando-a em “propriedades”.

Foi esse o tempo dos aerogramas, dos rapazes que lá longe batalhavam, sabiam lá muitos deles porquê ou por quem. A Pátria só muito mais tarde lhes agradeceu, na vida ou na morte, o quanto por ela lhes mandaram fazer.

 

      Licínia Quitério


Licínia Correia Batista Quitério nasceu em Mafra em 30.Jan.1940. Livros publicados: Poesia – Da Memória dos Sentidos; De Pé sobre o Silêncio; Poemas do Tempo Breve; Os Sítios; O Livro dos Cansaços; Memória, Silêncio e Água; Travessia, (Menção Honrosa do Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant’Anna); A Decadência das Falésias; Participações em antologias diversas. Ficção: Disco Rígido, Volumes I e II;  Os Olhos de Aura; A Metade de um Homem; A Tribo; Mala de Porão; Discurso Directo. Tradução: O Vizinho Invisível, de Francisco José Faraldo.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Licínia Quitério.


 

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One Thought to “Crónica de Licínia Quitério | Até ao meu regresso”

  1. Maria Clara Pimentel

    Nostálgico. Deveria, contudo, ser uma nostalgia que ninguém de veria vira a sentir novamente. Daqui a uns anos, porém, alguém lembrará este 2023 com os mesmos sentimentos mesmo não sabendo dizê-los com a mestria de Licínia Quitério.
    Quem sabe? Pode ser que venha o dia em que textos assim, ainda que magníficos, serão considerados História longínqua e não repetida.

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