Crónica de Alice Vieira | Nomes estranhos

 

Nomes estranhos
Por Alice Vieira

 

Aqui há dias estava eu muito descansada aqui  na esplanada da praia do sul na Ericeira,quando uma jovem se chega ao pé de mim e pergunta se pode levar uma cadeira. Conheceu-me, estivemos ali uns minutos na conversa e quando lhe perguntei como se chamava ela respondeu “Dejanira”.

Sorri.

“Não me diga que é de Torres Novas?”

Claro que era. Djanira era um nome típico de Torres Novas, mas que nestes tempos já não se põe muito às miúdas. Então ela disse que a avó é que lhe tinha dado aquele nome.

Há nomes assim, que só se encontram em determinados lugares. Núria Rubina, por exemplo,  é típico de Porto Santo.

Então fiquei a pensar nos nomes estranhos que algumas terras também têm, até porque há dias tinha ido a umas localidades aqui perto da Ericeira chamadas Bandalhoeira, e Venda das Pulgas

A  minha tia Piedade (chamávamos-lhe Tipetá), de Torres Novas, era muito velha, e quando saía  de automóvel com a família, coisa rara naqueles tempos, assentava sempre os nomes de todas as aldeias, lugares que encontrava nas estradas. Tenho pena que não me tivesse dado esses papéis, deviam lá ter nomes bem originais

Claro que nada se compara à freguesia da Picha Mole (em Loures) e do Curral das Freiras  (na Madeira.)

Mas há aquela série toda de terras que se chamam A-De-Qualquer Coisa, ou seja, A-dos- Cunhados (em Torres Vedras), A-dos- Francos (nas Caldas da Rainha), A- do Freire (em Pedrógão),  A-dos -Cãos (em Loures e não, não é engano: chama-se Cãos porque Diogo Cão e toda a família era de lá)

Mas há outros lugares com nomes engraçados como “Água de Pau”  (nos Açores), Urrô  (em Arouca), Quintela de Lambaças (em Bragança), Foros da Barreta (em Torres Novas), Pafarrão (Chancelaria),  Carne Assada (Sintra), Aldeia das Porreiras (no Minho) etc., etc. …

Mas não são só as terras que têm nomes estranhos: já pensaram naqueles nomes estranhos que algumas pessoas também têm?

Quando eu era miúda detestava o meu nome.  Alice era o nome da minha avó materna e parecia-me horrível. Só passei a gostar dele quando soube que, se não tivesse o nome da minha avó materna,  teria o da minha avó paterna, Gertrudes…

Mas voltando a nomes mesmo estranhos. O primeiro que me vem sempre à ideia é o de uma colega minha de liceu, de quem perdi o rasto: Grisselinda Lebre Maçãs. E havia outra que se chamava Geraldina Mimosa.

E uma vez conheci um professor de português que trabalhava numa escola na Suíça. Chamava-se Joaquim Morais. Um nome perfeitamente normal, achava eu, claro.  Mas um dia, para preencher um documento era preciso ele escrever o nome completo.  Escreveu, mas disse-me “Não olhe! Não olhe!”

Porque o nome completo dele era … Joaquim Reduto dos Prazeres e Morais…

Depois deste, tenho a certeza de que não há pior.

Até Gertrudes já me parece lindo.

 

Alice Vieira

 


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


 

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