Crónica de Alice Vieira | Palavras de Inverno

Crónica de Alice Vieira | Palavras de Inverno

 

PALAVRAS DE INVERNO
Alice Vieira

 

Quem me conhece sabe que sem cafés não vivo. Sobretudo em dias de chuva.

Nos dias de chuva a vida complica-se, os transportes chegam atrasados e a abarrotar, as pessoas tornam-se (mais) impacientes e zangadas,  e há sempre um automobilista que passa rente ao passeio e nos encharca da cabeça aos pés.

Então a mesa de um café é um oásis de paz, que nos ajuda a acreditar que vai haver sol no dia seguinte.

Um lugar onde nos sentimos abrigados não só da chuva mas de todos os males do mundo.

Eu sei que nem tem chovido o necessário este ano. Mas que a chuva me dá volta à cabeça, dá.

Por isso, aos primeiros pingos enfiei por um café onde nunca me lembrava de ter estado. Quer dizer : onde não conhecia ninguém.

Quando entrei, a mulher já estava sentada a uma mesa com a criança ao lado, o chapéu de chuva a pingar aos seus pés, uma data de sacos de plástico em volta  (como vai ser difícil as pessoas largarem os sacos de plástico…)– e o telemóvel colado à orelha.

A criança bebia leite com chocolate. Muito devagar.

“Despacha-te!, olha que chegas atrasada”

Mais um número teclado no telemóvel mas logo desligou, encolheu   os ombros, e voltou a ligar , esperou alguns segundos mas,  pelos vistos, do lado de lá ninguém atendia.

“Claro…Nem se lembra … E eu que me fartei de lhe dizer que não se esquecesse…”

Falava alto, sem destinatário certo, a criança nem a ouvia, bebia o leite e passeava o olhar pelas prateleiras dos chocolates.

E ela a falar,a falar, e sempre muito alto,  e olhando em volta, como se esperasse apoio ou cumplicidade de alguém.

“Claro, eu é que tenho sempre de andar para a frente, e de arranjar tempo para tudo…”

Olhou para o relógio e abanou a cabeça.

Voltou a teclar um número, voltou a desligar, voltou a abanar a cabeça, voltou a olhar em volta, voltou a repetir:

“Esqueceu-se, tá visto…”

“Mãe…Quem é que…”

Ela nem ouviu a criança .

Pousou por momentos o telemóvel sobre a mesa, olhou a chuva que não abrandava.

“Há dias em que tudo corre mal, palavra de honra…Até a chuva tinha de aparecer para complicar tudo…”

De repente, como se tivesse encontrado a única saída, pegou de novo no telemóvel, teclou muito rapidamente um número e, daquela vez, teve sorte.

Nem “olá”, nem “estás onde?” –que é agora a  maneira de começar qualquer conversa ao telemóvel…

Despachadamente disse apenas:

“Desculpa lá, mas tens de ir buscar a miúda às seis horas. Depois explico-te onde é, agora não posso, estou cheia de pressa!”

Atirou com o telemóvel para dentro de um bolso da grande carteira que pôs ao ombro, pagou a conta, fez prodígios de equilíbrio para ter dedos que chegassem para toda a sacaria, e ainda o chapéu de chuva.

“Era o pai?”—perguntou então a criança, o resto do leite abandonado no copo.

A mulher riu. Como riem as pessoas que não têm vontade nenhuma de rir.

“ O teu pai… Sei lá por onde anda o teu pai…Esqueceu-se de ti, mais uma vez… Já devias estar habituada… E tanto que eu lhe pedi… “

“Então quem é que me vai buscar à música?”

“Vai o Fernando”

A criança olhou para ela, espantada e murmurou:

“O Fernando?”

A mulher encolheu os ombros, com ar aborrecido.

“O Fernando, sim, que é que tem?”

A criança deixou cair os olhos, pesadamente, no chão.

“Queria o pai…”

A mulher abriu o chapéu e resolveu-se a sair para o meio do inverno.

“Ora…o teu pai ou o Fernando…que diferença é que isso te faz…” A criança seguiu-a sem dizer nada, levando rapidamente as mãos aos olhos, e decerto guardando para sempre aquelas palavras de inverno dentro do seu coração.

 


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