Crónica de Jorge C Ferreira | Ventos

Ventos

Sopram ventos de quadrantes indefinidos. Sopram poeiras, areias, pedras e feitiços. Ventos que abanam os corpos inteiros. Ventos da vida toda. Barcos à procura de portos de abrigo. Pessoas à procura de uma casa segura.

Chamam-lhe tempestade, ciclone, furacão. Dão-lhe um nome de mulher e dizem que têm olho. Ir ao olho do furacão. Ver o interior daquele reboliço. Desaparecer e aparecer no outro lado do mundo.

A vertigem. A vontade imensa de ser herói e vítima. Atravessar a tempestade e dançar à chuva. A inclemente intempérie. A revolta dos revoltados. Os chapéus de chuva a voarem sem sentido. A noite a adensar os medos. Uma avenida dizimada. A luz que se apaga.

Chega, do Norte, o som do sopro nas gaitas de foles. Um exército de gaiteiros enfrenta as inclemências e abre caminho à esperança. Sons que dão força aos sentidos. A Céltica bravura. O Norte mais a Norte. Tudo o que combate o desnorte.

Sopra o amolador a sua típica gaita. Uma música única que se propaga pela rua. Um outro vento. Dizem que é anúncio de mau tempo. O homem lança o seu eterno pregão. Os chapéus de chuvas estragados, as facas para afiar, as tesouras, vêm até à rua. Tudo é reparado. A faísca na pedra de amolar. Um anúncio de trovoada e mais mau tempo. O amolador segue caminho tocando a sua gaita.

As histórias que os marinheiros contam ao balcão de um bar. A passagem dos estreitos. As tempestades sem nome e maiores que todos os Adamastores. As camas quentes. Os quartos de serviço. A água que entra e sai. Um marinheiro que caiu do beliche de cima, partiu quatro costelas e ficou cinco dias sem falar. Os olhos muito abertos. Um ar de espanto. Viria a falar ao sexto dia como por milagre. Tal foi o susto! Quando chega a calmaria ninguém já se lembra quem foi. É tudo para esquecer. É tempo de recuperar os sentidos.

A Rosa dos ventos. Os pontos cardeais, os colaterais, os subcolaterais. A arte de navegar. As agulhas magnéticas. A estrela polar. O cruzeiro do Sul. A estrela do mar. A enorme vontade de desvendar o mundo. Atravessar o mar em todas as direcções. Ser cativo de todas as tempestades. Sobrevivente de todos os mares.

Os navegadores de olhos azuis. O mar sempre por perto. Os infantes e os criminosos. A imensa aventura. Quantos morreram à beira-praia! O escorbuto. Os dentes perdidos. A morte antecipada. As febres. A loucura. O Equador. O Neptuno. O eterno desafio. Ir e voltar, a ambicionada ternura da chegada. Não ter ninguém à espera. Mais uma garrafa de rum.

Agora é uma suave brisa que sinto. Uma brisa que traz odores únicos. A suave brisa da tarde. O rosto a refrescar. Os sentidos a apurarem-se. Esta é a hora em que os amantes se beijam. Há um par que vejo entrar mar adentro e desaparece depois da rebentação. Não sei que viagem decidiram fazer. Acabo de beber a minha água e vou embora. Terá sido uma ilusão?

«Tu sabes que eu não gosto de tempestades, nem vulcões, essas coisas. Tinhas de falar nisso.»

Voz de Isaurinda.

«Eu falei do perigo e do bonito. Falei de muita coisa. Tu nascida junto a um vulcão, que te apoquentou?»

Respondo

«Por isso mesmo. Ainda hoje, por vezes, sinto tudo a tremer.»

De novo Isaurinda e vai, uma suave brisa na mão.

Jorge C Ferreira Agosto/2019(211)

 


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23 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Ventos”

  1. manuela moniz

    Como amo ler-te! Como gosto de saber dos ventos de que falas, dos ventos que refrescam e que também devastam. Nasci, cresci e vivo no vulcão, por mim passaram e continuam a passar tempestades, ciclones, furacões, tremores de terra, terramotos. Acredita que já me habituei a todos esses embalos, apesar de os temer e respeitar. É aqui que quero viver, com este mar imenso que me cerca, que tem tanto de inspirador quanto de devastador..
    Em todo o lado o perigo está sempre à espreita por detrás do que é belo.
    Obrigada pela beleza que nos ofereces em cada dia, em cada texto teu.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Sei da tua ilha. Das saudades que tenho de atravessar o canal. Sei das vulcânicas pedras e das vinhas. Que bem vives, minha Amiga. Abraço

  2. Sara Paiva

    Há ventos difíceis de ultrapassar e outros que nos fazem sentir, tanto. A vida e a arte de escrever sobre os ventos, o mar e tudo aquilo que dela faz parte. Obrigada. Beijinhos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sara. Ultrapassar sempre todos os bentos, esperar pela brisa acolhedora. Saber esperar, conhecer a vida. Abraço

  3. Eulália Pereira Coutinho

    A tempestade que assola as gentes. A mente incansável. A busca da tranquilidade. O mar, sempre o mar! A espuma branca que se espraia e traz a bonança.
    Como a Isaurinda não gosto de tempestades…. gosto de fixar o mar azul e calmo.
    Gosto da sua arte de escrever que é sublime.
    Obrigada meu amigo! Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Atravessar as tempestades. Saber dos ventos que despenteiam vidas. Falar do belo no meio do perigo. Abraço.

  4. maria rosa matos

    Amei tudo quanto escreveu/escreve.
    Sou como a Isaurinda. Tenho medo das tempestadas.
    Obrigada por esta brisa.

    Um beijo, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Rosa. Quantas tempestades nos assolam a vida. Chegar à calmaria. Saborear a brisa. Obrigado

  5. Cristina Ferreira

    Uma crónica intensa. Um maravilhoso aroma a mar e a brisa da poesia a tocar-nos. Como é bom ler-te, querido amigo. Como amante do mar , falas-nos dos ventos. Das tempestades, e boas bonanças da vida , na forma mais sublime e delicada.
    Tal com a Isaurinda, quantos de nós, tantas vezes sentimos “tudo a tremer” , pois nem sempre tudo caminha “de vento em popa” e aí temos de encontrar um novo caminho, velejar totalmente contra o vento. Encontrar um lugar seguro e lançar a âncora para depois saber o momento certo e seguir em frente. Aproveitar as suaves brisas que vamos encontrando ao longo do caminho e procurarmos com todos os nossos sentidos sermos merecedores delas.
    Não, não foi ilusão. Foi a vida a beijar o poeta. E se me permites, deixo um beijo meu, também.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. É isso tudo que escreveste. A bela maneira de navegar. Nunca perder o rumo. Saber dos tempos. Abraço

  6. Isabel Campos

    Quantas ilusões em mortes antecipadas…
    Quantos barcos à procura de porto …

    Quantos “eus” à procura de abrigo, de aconchego.

    Uma reflexão!!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Tão bom ler-te aqui. Como escreves! A forma concisa como vais ao fundo das coisas. Abraço

      1. Isabel

        E vou voltando por ti, pelo que escreves e pela porta que vais abrindo em cada um.
        Obrigada
        Abraçoooooooo

        1. Jorge C Ferreira

          Isabel. Abraço grande.

  7. Teles Ivone Teles

    De ventos, tempestades, furacões, intempéries nos contas. Na tua alma inquieta as sentes mais do que nós, outros. E as tuas ” gentes ” também são especiais, “faíscas nas pedras de amolar”(J.C.Ferreira). E sempre o mar, o teu mar, marinheiro de olhos azuis, feiticeiros nas noites de amores passageiros.
    Mas vêm brisas suaves para acalmarem corpos e espíritos. E vem a Isaurinda com o seu pano proteger-te, como só ela.
    Gostei destes ” VENTOS”, eu que só gosto de brisas calmas. É um gosto ler-te.
    Beijos amigos.

    1. Isabel Campos

      Querida Ivone
      Tomara eu tê-la por perto para falar de ventos em dias de brisa calma.
      Sempre uma mensagem de vida.
      Mil beijos

    2. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Tu és mulher de enfrentar muitos ventos. Mulher acção. Mulher protecção. Mulher de afectos. Tu abraças tudo e só sabes entregar suaves brisas. Abraço

  8. Regina Conde

    Uma crónica intensa, a volta dos tempos movida por ventos indefinidos. O azul dos olhos de quem entenda a Rosa dos Ventos, em forma estrela. A exactidão que guia quem vive e sonha navegar. Tudo no seu tempo, como o de beijar sem pressa. O perigo e o bonito. Não foi ilusão. Linda Isaurinda, o equilíbrio. Magnífica brisa no momento certo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Os beijos são brisas de encantamento. São coisas de saborear. Os vendavais de loucura e o suave tempo de percorrer a vida. Abraço

  9. Madalena Pereira

    Falou de muita coisa, sim. Do belo ao perigoso e assustador está aqui tudo. E que bem escrito! Parabéns e mais não digo excepto: Obrigada! Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Procurar em tudo a beleza. Que bom ter gostado e o ter escrito. Abraço

  10. Célia M Cavaco

    Por vezes,ao ler-te, tento olhar o horizonte sob a tua perspectiva emocional.Eu sei,sei que quem escreve,abre,escancara a alma,mas,ainda assim leio de espírito aberto,ou será de alma aberta às palavras que escreves? Como leitora faço uma interpretação,quase me incluo numa qualquer personagem…depois de qualquer tempestade vem sempre a bonança,bem que a Isaurinda teme por essas lavas que lhe apoquentam as memórias.Quem não teme? Nada posso acrescentar,excepto que já anseio pela próxima segunda feira.Até lá…um abraço meu amigo escrevinhador.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Que leitora excepcional que tenho a sorte de ter. Que bom viajares comigo. Brilhante o teu comentário. Abraço

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