Crónica de Mário de Sousa | Cronos devorator

  Crónica de Mário de Sousa Cronos devorator   O avião da TAP preparava-se para aterrar. Viu os musseques e em fundo a baía de Luanda, resplandecente, feérica. Alexandre estava de regresso. Lembrou-se da sua viagem no navio Niassa. No convés, quando a noite caía e o mar ganhava a cor do céu sempre que as nuvens destapavam a Lua, tentava contar as ondas e semicerrava os olhos, protegendo-os dos fulgores de prata que elas desprendiam. A proa do navio cortava o líquido espumando-o para os lados. Para trás, via…

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Crónica de Mário de Sousa | Silly Season à portuguesa

  Crónica de Mário de Sousa Silly Season à portuguesa   Terminou a silly season em Portugal e ainda bem porque esta terá começado da pior forma com um ataque soez à liberdade de expressão e de imprensa aqui em Mafra. Para uma silly season como esta chamam os ingleses “Tempo do Pepino” A minha última crónica, talvez porque já tinha começado o ‘tempo do pepino’, foi vítima de uma atitude pepineira. Meia dúzia de ‘pepineiros’ resolveu apresentar uma denúncia ao Google por o texto ser de cariz sexual. Claro…

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Crónica de Mário de Sousa | Uma lata de Kenco

  Crónica de Mário de Sousa Uma lata de Kenco   Arrumar a minha garagem hoje convertida em biblioteca e arquivo, termina sempre numa viagem ao passado porque se relê um caderno de apontamentos, se descobre um disco (daqueles de vinil), uma fotografia, um convite, um ínfimo cartão-de-visita, um guardanapo assinado. Por vezes a lágrima resvala num qualquer pedacinho de argila a dizer ‘És o melhor Pai do Mundo’. Tudo isto me fez lembrar a minha lata de café Kenco. Vou-vos contar o porquê desta lata ser importante para mim.…

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Crónica de Mário de Sousa | ‘Acto da Primavera’ – O Quotidiano Religioso

  Crónica de Mário de Sousa ‘Acto da Primavera’ – O Quotidiano Religioso   Em 1958, passeando por Trás-os-Montes na busca de moinhos que lhe pudessem ser úteis como elementos de um filme sobre o pão, Manoel de Oliveira tropeçou um dia em três grandes e toscas cruzes de madeira no topo de um cerro. Procurou o seu porquê, obtendo como resposta que aquelas cruzes eram utilizadas na Primavera, numa festa popular onde se recriava a Paixão de Cristo, na localidade de Curalha, arredores de Chaves. Interessa-se pela história e…

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Crónica de Mário de Sousa | ’Douro, Faina Fluvial’ – O Quotidiano Profano

  Crónica de Mário de Sousa ’Douro, Faina Fluvial’ – O Quotidiano Profano   Fez no passado dia 5 de Abril sete anos que Manoel de Oliveira faleceu. Idolatrado por uns, amado por outros e odiado por muitos, a sua falta de consensualidade deve-se ao pouco conhecimento que temos do cinema de autor. Pouco antes da sua morte, num colóquio sobre cinema português na Universidade Aberta apresentei uma comunicação com o título ‘Douro Faina Fluvial’, ‘Acto da Primavera’: os quotidianos profano e religioso em Manoel de Oliveira’. É a 1.ª…

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Crónica de Mário de Sousa | O regresso

  Crónica de Mário de Sousa O regresso   Uba Nhaga regressou da Bissau. Muitos anos de trabalho, dois cobertores de lã, dois pares de sapatos, uma farda de ganga descorada e algumas notas de peso dentro da mala de chapa, eram todas as suas bambas. Sem troco para toca-toca, viajou no pé, comeu raízes da terra e bebeu água de bolanha. Uba Nhaga, velho e cansado, voltava ao seu chão. Pouca gente encontrou na tabanca. Das suas mindjeris apenas a garandi, a primeira mulher, o esperou. Fora a única…

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Crónica de Mário de Sousa | O homem de bronze

  Crónica de Mário de Sousa O homem de bronze   A praça, como a maioria das praças era retangular e tinha uma estátua no meio. Nas costas do Homem de Bronze, duas ruelas estreitas e sinuosas desfaziam a última curva de encontro aos gavetos que as terminavam. Orlando a placa central, árvores descarnadas de folhas, exibiam magros braços erguidos, implorando aos céus sabe-se lá o quê. No outro topo da praça duas igrejas flanqueavam a avenida que lá desaguava Gente, gente sem cor nos rostos, em passo miúdo deslizava…

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Crónica de Mário de Sousa | Mingas

  Crónica de Mário de Sousa Mingas   Passou-se há cerca de doze anos; começou em Bissau e terminou em Lisboa. Foi assim: Domingas Seidi, ‘Mingas’, vendia fruta, ‘mango di faca’. Magrinha, espigadota, carita muito serena dizia-me sempre: ‘Pai, me compra mangos, são bons; vai vê qui vai gostá’. Eu enxotava-a ”… Não amiga, não quero mangos. Depois! … A cidade está cheia de crianças que vendem qualquer coisa. E ela lá ia, rua fora bamboleando um rabo encarrapitado em duas pernas magras e compridas. Não tinha mais de 8…

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Crónica de Mário de Sousa | Hopper

  Crónica de Mário de Sousa Hopper   No Verão de 1983, terminei um estágio de programação de computadores em St. Neots, pequena vila de Cambridgeshire. Precisava de um alojamento em Londres para onde iria, e um amigo indicou-me uma residencial em Padington que praticava preços muito acessíveis. Deu-me como referência um tal Brigs, amigo de longa data. Apanhei o comboio para Londres. Cheguei a Victoria Station já o sol se escondia por detrás dos telhados. Brigs recebeu-me com alguma contenção mas disponível para me alojar o melhor e mais…

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Crónica de Mário de Sousa | No 5 de Outubro de 1910

  Crónica de Mário de Sousa No 5 de Outubro de 1910   Nesse dia, o pequeno Saúl saiu de casa para ir entregar um par de botas novas a casa de um cliente do pai que morava na atual Rua Jardim do Regedor ao Rossio. Eram sete da manhã e o dia apresentava-se fresco o que era bom pois o caminho que havia para fazer seria para ser feito a pé. Naquele tempo, para além de haver muito poucos transportes públicos o dinheiro era escasso para os usar. Por…

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