Crónica de Mário de Sousa | O regresso

  Crónica de Mário de Sousa O regresso   Uba Nhaga regressou da Bissau. Muitos anos de trabalho, dois cobertores de lã, dois pares de sapatos, uma farda de ganga descorada e algumas notas de peso dentro da mala de chapa, eram todas as suas bambas. Sem troco para toca-toca, viajou no pé, comeu raízes da terra e bebeu água de bolanha. Uba Nhaga, velho e cansado, voltava ao seu chão. Pouca gente encontrou na tabanca. Das suas mindjeris apenas a garandi, a primeira mulher, o esperou. Fora a única…

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Crónica de Mário de Sousa | O homem de bronze

  Crónica de Mário de Sousa O homem de bronze   A praça, como a maioria das praças era retangular e tinha uma estátua no meio. Nas costas do Homem de Bronze, duas ruelas estreitas e sinuosas desfaziam a última curva de encontro aos gavetos que as terminavam. Orlando a placa central, árvores descarnadas de folhas, exibiam magros braços erguidos, implorando aos céus sabe-se lá o quê. No outro topo da praça duas igrejas flanqueavam a avenida que lá desaguava Gente, gente sem cor nos rostos, em passo miúdo deslizava…

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Crónica de Mário de Sousa | Mingas

  Crónica de Mário de Sousa Mingas   Passou-se há cerca de doze anos; começou em Bissau e terminou em Lisboa. Foi assim: Domingas Seidi, ‘Mingas’, vendia fruta, ‘mango di faca’. Magrinha, espigadota, carita muito serena dizia-me sempre: ‘Pai, me compra mangos, são bons; vai vê qui vai gostá’. Eu enxotava-a ”… Não amiga, não quero mangos. Depois! … A cidade está cheia de crianças que vendem qualquer coisa. E ela lá ia, rua fora bamboleando um rabo encarrapitado em duas pernas magras e compridas. Não tinha mais de 8…

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Crónica de Mário de Sousa | Hopper

  Crónica de Mário de Sousa Hopper   No Verão de 1983, terminei um estágio de programação de computadores em St. Neots, pequena vila de Cambridgeshire. Precisava de um alojamento em Londres para onde iria, e um amigo indicou-me uma residencial em Padington que praticava preços muito acessíveis. Deu-me como referência um tal Brigs, amigo de longa data. Apanhei o comboio para Londres. Cheguei a Victoria Station já o sol se escondia por detrás dos telhados. Brigs recebeu-me com alguma contenção mas disponível para me alojar o melhor e mais…

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Crónica de Mário de Sousa | No 5 de Outubro de 1910

  Crónica de Mário de Sousa No 5 de Outubro de 1910   Nesse dia, o pequeno Saúl saiu de casa para ir entregar um par de botas novas a casa de um cliente do pai que morava na atual Rua Jardim do Regedor ao Rossio. Eram sete da manhã e o dia apresentava-se fresco o que era bom pois o caminho que havia para fazer seria para ser feito a pé. Naquele tempo, para além de haver muito poucos transportes públicos o dinheiro era escasso para os usar. Por…

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Crónica de Mário de Sousa | Rebecca Npanzú

  Crónica de Mário de Sousa Rebecca Npanzú   Foi em 2010. O Sol perpendicular mostrava as horas como um relógio de pêndulo e queimava a paisagem. A cidade de S. Tomé dormitava, embalada pelo ar quente e húmido que subia da terra vermelha perfumando tudo. O sítio era a entrada do Centro Cultural Português e as três da tarde a hora a que a Feira do Livro deveria abrir. Refugiado na sombra duma acácia fronteira, contemplava sem ver o outro lado da rua. Era aquela dormência do calor húmido…

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Crónica de Mário de Sousa | Em jeito de começo!

  Crónica de Mário de Sousa Em jeito de começo!   Ao aceitar o convite do Jornal de Mafra para esta colaboração quinzenal, aceitei também o desafio da estreia no modo de escrita que é a crónica. Não sei se me vou sair bem, mas espero com sinceridade, produzir textos que os leitores ao lerem, não sintam que foi tempo perdido. Ora início só há um, e por isso, o primeiro encontro, o primeiro sorriso, o primeiro brilho de olhos são sempre decisivos na forma como a ‘carruagem’ irá mover-se…

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