Crónica de Alexandre Honrado - Natal

 

Crónica de Alexandre Honrado

Natal

Tudo o que (nos) transcende tem esse aplicativo, o de ir para lá do humano, e ao ser assim deixa-nos à distância certa do que conseguimos compreender e da compreensão confusa em que nos perdemos. Somos a mancha de cor que se adivinha na névoa a cerrar-se nos seus silêncios teimosos e assustadores.

O segmento de tempo que teimamos em viver, ano após ano, nesta mesma época, desejando com mais ou menos sinceridade coisas de prosperidade e paz, se não nos torna mais humanos pelo menos permite-nos a imitação de um rosto idealizado, mais tolerante e digno, menos ódio quotidiano e mais utopia de um futuro que, se assim o entendêssemos e quiséssemos, podia ser de todos nós, toque a um tempo melhor deste mundo que, a vários títulos, não podia ser melhor.

Perdemos, em tantos passos, a perceção do humano.  Deixámo-lo para áreas que desejamos estruturantes, mas que são, afinal, distantes do que vivemos quotidianamente.

Somos o passo trôpego – devíamos ser a caminhada leve.

Somos a distopia – trocada pelas mais agradáveis utopias.

Estabelecemos relações tensas – e devíamos ser as mãos que afagam, recíprocas.

Tenho saudades do menino crédulo que se perdia nas muitas luzes da árvore de Natal. O mesmo que olhava as figuras do presépio sabendo segredos da sua transcendência.

Tenho saudades de mim ao ver-me assim, a afastar-me, já sem olhar para trás.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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