Crónica de Jorge C Ferreira | Artistas

 

Artistas
por Jorge C Ferreira

 

Ter vontade de fazer algo de novo. Ser criativo. Ser artista. Pintor, escultor, artesão, poeta, escritor, actor, bailarino, cantor, músico, malabarista, funambulista, trapezista, palhaço, contador de histórias e demais ofícios que nos fazem sonhar. Não esquecendo todos os que, mesmo na sombra, fazem as coisas acontecer. Gente anónima. Gente que ouve nos bastidores os aplausos a que têm direito.

Todos são operários dos seus ofícios. Todos se debatem com as suas dúvidas e angústias. Todos vivem dramas e crises de ansiedade. Todos amam e gostam de ser amados. Todos sentem um amargo na boca quando as coisas não saem. Todos têm horários, prazos e deveres e, muitas vezes, parcos haveres. Muitos não saem do anonimato toda a vida. O livro que não vendeu, que nem sequer foi distribuído. A exposição que não aconteceu. A peça que não estreou. A tenda do circo que não é montada. A canção que ninguém ouviu. O voo falhado. A rede que evita a desgraça. O tigre que come o domador.

Ter uma biblioteca e ler até se embebedar. Admirar tudo o que um livro contém. Toda a arte que é esgrimida em cada diálogo. Escrever Amizade com letra grande porque assim deve ser. Nunca abandonar um Amigo. Saber ouvir o que nos tem a dizer. Acompanhar a sua saga. Cada livro é um Amigo, um companheiro de vida. As lombadas que gritam pedidos de leitura ou releitura. Gritos que se ouvem na sala. Viagens que esperam por nós. A vertigem de um Poema que fala do corpo do Amor. A Poetisa maior. A voz única do “diseur”. O cântico harmonioso de um coro celestial. Um piano que fala.

Tudo o que antes foi dito faz a vida humana ter sentido. Faz com que tenhamos vontade de viver. De abraçar alguém. De beijar e amar. Depois há o sexo que, muitas vezes, envenena tudo. Outras é o apogeu sonhado. Tudo se joga num tabuleiro imenso que desconhecemos o fim e onde, muitas vezes, nos são ocultadas as regras do jogo. Também neste tabuleiro há reis, rainhas, bispos, cavalos e peões. Tudo isto exige vida de artista. Correr o risco. Lutar pelas vontades. Saber os movimentos e desenhar a coreografia.

Há um operário que, no seu torno, vai criando uma peça há muito sonhada. A lima e o afinco. A limalha que vai ficando na bancada. O fato macaco de muitas lutas. Domar o ferro com a vontade de construir outro mundo. Está só naquela oficina. Deixou cair a noite para fazer algo que sempre amou. O sonho do operário vai tomando forma. Tudo é feito fora de horas. Entrando nas horas que eram suas. Já suou o que tinha a suar para cumprir a mais-valia que todos os dias cria. A peça vai ficar pronta um dia. Será a sua vitória como se fosse um novo mundo.

Todo este texto parece desencontrado, desalinhado. Eu acho que não. Tudo fala de actos criativos. De diferentes formas de criar. Foram palavras que foram pedindo palavras. Aventuras pedindo aventuras. Corpos pedindo corpos. Foram alicerçadas amizades. Tudo feito com amor e calor. Tudo sentido. Só assim vale a pena. Vamos pensar no futuro. Saudemos os criadores.

«Falas de tanta coisa e esqueceste-te do choro de um palhaço.»

Fala de Isaurinda.

«Tens razão. Os palhaços também choram. E choram por muitas razões.»

Respondo.

«É para que saibas. Nunca te esqueças que estamos sempre a aprender.»

De novo Isaurinda e vai, um choro de palhaço na mão fechada.

Jorge C Ferreira Novembro/2021(321)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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17 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Artistas”

  1. Cecília Vicente

    Como dizia o poeta quando na sua criatividade escreveu: Amor é fogo que arde sem se ver”
    E o Amor é o Amor” Iriamos por aí de braço dado pelo amor e com o amor, seja ele a forma que o queiramos possuir, não a posse obsessiva mas, o Amor por tudo o que amamos e quer queiramos ou não o Amor todo ele é arte. Arte de o saber querer, de ter, de deixar entrar dentro de nós, de darmos e recebermos. Quando o pano cai aplaudimos porque amamos a peça, aplaudimos o canto, a leitura de um poema, aplaudimos qualquer forma de arte e de amor, amar faz parte, respeitar é arte, nós somos o Amor nas diferentes formas, as palavras saem-nos dentro de nós com um apego de algum modo deixamos ir, tal como todas as diferenças existentes, somos amor, somos amantes, paixões de toda e qualquer existência como o vemos, amar de amor a vida que nos oferece um pedaço de si para possuirmos toda e qualquer ARTE de Amor por todos nós, pelos outros que nos dão a aplaudir esse amor ora feliz, ora descontente com que cada um faz a sua obra. Obrigada meu muito amigo, Jorge. Aquele abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Belo o que escreveste. Criar com amor e por amor, só assim faz sentido. Esse amor que nos mantém vivos e desportos. A liberdade de Ser. Amar a arte na arte do outro. Tão grato. Abraço grande

  2. Moniz Manuela

    Como é lindo este texto sobre as diferentes formas de criar, Jorge.
    Tenho uma enorme admiração pelas artes. As que mais me atraem são as que me provocam emoções, que comunicam comigo através de sentires e sentimentos … Assim é a tua sublime escrita, as tuas histórias reais e inventadas, belas e profundas, a tua maravilhosa veia artistica que me fascina.
    Obrigada, querido amigo, por tanto.
    Beijos
    Obrigada, querido amigo, por tanto. Beijo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Sempre tão bom ler os teus comentários, ter-te aqui, neste espaço que é de todos. Grato querida Amiga. Beijos

  3. Regina Conde

    Difícil dizer o que senti ao ler a tua brilhante crónica. É Arte o que se mistura no sangue das veias do teu corpo. Como sempre tanto num texto. As gentes que ouve bastidores sempre me comoveram. Ser bailarina ou estar nos bastidores. Pode ser parecer contraditório, sonhava assim. Querido Amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Que bem danças neste comentário. Uma soberba bailarina. Porque as palavras também dançam. Um abraço, querida Amiga.

  4. Filomena Maria de Assis Esperança Costa Geraldes

    De onde veio toda essa sensibilidade, amigo meu?
    Quem te fez pegar no lápis e na alva folha para que esboçasses o teu sentir?
    Para que descrevesses o que te rodeia e inflama com esse mágico olhar?
    Para que te expusesses com a transparência de quem celebra o acto sublime da escrita?
    Para que deixasses fluir
    a fragilidade e a subtileza das mais puras emoções?
    Para que nos rasgasses sorrisos, lágrimas, silêncios, espantos e sonhos?
    Para que nos ofertasses
    dilúvios de poemas
    rumores de memórias
    paisagens nunca antes avistadas?
    De que essência és feito,
    amigo meu?
    De criatividade?

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Foi um longo caminho. Perder o medo ainda não perdi. Vou-me construindo. Será assim até ao fim, espero. Tão belas as tuas palavras. Abraço grande

  5. Maria Luiza Caetano Caetano

    Tão bonito o que escreveu. Tanta criatividade, tanta imaginação, tanta a sua sensibilidade.
    A escrita é a sua Arte. Essa maravilha, onde se encontra também a poesia. E com tanta delicadeza nos oferece. Lê-lo é mesmo muito bom.
    Quando cumprida com paixão, cada profissão tem a sua arte. “ Saudemos os criadores.”
    Adorei querido escritor. Abraço enorme.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza, minha Amiga tão especial. Tão delicados os seus comentários. Tenho uma gratidão imensa em a ter como leitora. Abraço grande

  6. Eulália Pereira Coutinho

    Sublime. Grande e merecida homenagem aos criativos e artistas, nas várias áreas. A todos aqueles que estão na frente e nos bastidores.
    A arte dá sentido à vida.
    Obrigada pela sensibilidade de Poeta, que transmite de forma única, em cada texto.
    Grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Sim a arte é um alimento especial. Algo que nos preenche e faz felizes. Os artistas devem ser cuidados. Abraço grande

  7. Isabel Soares

    Uma crónica poética sobre os vários géneros artísticos. A arte e o sentido da vida. O gesto criativo como sentido da existência. A escrita e a leitura como alimentto e identidade colecriva e individual. E a Amizade e o amor como colo e cor de cada ser. A marcar cada percurso,a dar-lhe sentido,conteúdo e forma.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Tão bom ler os seus comentários. Tão bom ter companhia para amar as artes e os artistas. Percorrer a vida com sentido e sentimento. Abraço grande

      1. Isabel Torres

        Muito obrigada! Abraço grande também.

  8. Branca Maria Ruas

    O sublime acto de criação e as suas variadas formas de expressão.
    Também é criador quem põe paixão no que faz.
    Valham-nos os artistas! E há tantos artistas anónimos…
    Parabéns pelo texto de homenagem aos criadores!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. A arte é a paixão suprema. A sublime entrega. É dar e não esperar nada. Ser criador é ser oficial de um ofício. Belo o teu comentário

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