Crónica de Alexandre Honrado – Viagens com afeto

 

Crónica de Alexandre Honrado
Viagens com afeto

 

Não viajava, a sério, quase há dois anos. Eis-me de volta, com mochila e passaporte, em terras de bradar aos céus e em céus dos quais se avistam terras e desafios.

A velha Europa está desorientada, penso eu. O Covid isolou-a e deu-lhe a volta aos desígnios, económicos e ideais.

Um dos maiores aeroportos do Velho Continente pareceu-me uma noite no bairro de Santos na primeira saída após a pandemia. Sem ordem, sem regras, com multidões acotovelando-se e propagando vírus de todas as naturezas. Com cheiros duvidosos e palavrões a condizer. Ao cenário, acresce uma força policial nervosa a empurrar quem calha. E a indisciplina individual a fazer o resto. Sobrevivo, como mais um na multidão de sobreviventes. Não há livro de reclamações, mas tarefas a cumprir. Vamos em frente.

Dias depois já estou noutro país – nesta viagem fiz coleção de fronteiras, países, idiomas e experiências – e entro num território que, teoricamente, está na União Europeia desde 2007.

Pedem-me passaporte à chegada e espantam-se quando estendo o Cartão de Cidadão, objeto sórdido que parecem desconhecer.

Analisam-nos à lupa (a mim e ao CC)  e insistem que mostre o passaporte. Avisam-me que não aceitam euros no território, porque a adesão ao euro é lenta como a idade das pedras dos belos monumentos que teimam em resistir, de pé e eternizando-se, à nossa volta.  História e memória erguem-se, para projetarem sobras sobre a amargura imensa do que testemunharam ao longo dos anos.

Leio com atenção os avisos, estão por toda a parte: entrou numa zona vermelha. Siga os conselhos das autoridades sanitárias. Combata a epidemia. Lave as mãos. Respeite a distância.

Sou literalmente apertado, sem cumprir nenhuma distância por ser impossível tal ousadia e lá sigo, empurrado pela turba.

Mais tarde estou finalmente sentado, quase que por milagre, à mesa de uma reunião típica da união europeia: ninguém fala uma língua comum, até o inglês não tem grande popularidade, e agora pressente-se que passará à história, já que o Brexit levou britânicos para o lugar onde nasceram, e deixaram a ilusão de uma universalidade linguística que não é real, a nenhum título.

À mesa de trabalhos estão búlgaros, húngaros, polacos, romenos, italianos, gregos, portugueses, um nunca mais acabar de variantes e improvisos; é afinal a Europa de primeira linha que ali se olha enviesada.

Muitos gestos e sorrisos, passaportes à parte.

No meu cartão de cidadão não está instalado o Google tradutor. A ata final é difícil de redigir, mas mais difícil ainda de traduzir.

Passaram-se muitos anos, não somos melhores, nem somos verdade. Só os afetos podem unir-nos e em alguns casos, garanto, prevalecem acima de qualquer suspeita ou contrariedade.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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