Crónica de Alexandre Honrado – Tristezas: o silêncio incluído. (E danço samba)

 

Crónica de Alexandre Honrado
Tristezas: o silêncio incluído. (E danço samba)

 

O rótulo triste da política acusa sempre a cor da moda, umas vezes intensa cor em outras o desmaiado logótipo do desencanto.

As velhas ideologias escoaram-se, talvez porque ficaram nas mãos de pobres condenados ao poder, desses que não olham a meios para alcançar os seus fins.

Os grandes ditadores, sabemo-lo bem, eram gente inculta e de ambição desmedida, e viam no domínio do próximo a sua elevação e grandiosidade. Fracas figuras que, pelo uso da força, dominavam e oprimiam. A história guardou-lhes um cemitério de terra funda, mas o grande erro foi o de lhes levar algumas flores, as descoradas flores do silêncio.

O silêncio conduz ao esquecimento e o uso e o abuso do esquecimento leva-nos à noite do cérebro (a amnésia, a angústia, o nada que substitui o tudo da temporalidade).

Escrevo isto. Todavia, com um enorme sorriso: a fraca memória francesa que tinha promovido a família Le Pen – o papá anquilosado pela falência de soluções e a filha tão gaiteira – sofreu agora um novo lapso de rememorações, pois a França não se lembrou das qualidades que há uns tempos lhe conferia e atirou com eles, ou melhor, com a extrema-direita para a sarjeta dos resultados eleitorais. Porque a cor da moda muda depressa, como acabaremos por ver em Portugal que se libertará dos seus mussolinis de alcova triste, que brandem frases aleatórias e uma gramática de velhas criações, com que enganam os desesperados e os broncos.

Como a mulher francesa que tem fotos de Hitler na mesinha de cabeceira e um péssimo resultado eleitoral, também os universos especulares do nosso terreno à beira-mar, levarão à urna, nas urnas, os que nos querem enterrar. Não o digo por vontade, nem fazendo grosseira futurologia, mas apoiado na leitura mais sensata: a dinâmica da sobrevivência não permite a longevidade dos traidores.

A extrema-direita perdeu em França. Oiço a abertura do Anel dos Nibelungos e danço, como se de samba se tratasse.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

Pode ler (aqui) todos os artigos de Alexandre Honrado


 

   

Leia também