Crónica de Jorge C Ferreira | Um Abraço

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Um Abraço
por Jorge C Ferreira

 

Nós que andamos ansiosos por dar abraços, como deve ser, aos nossos Amigos, vimos esta semana algo de espectacular. Um homem grande e esguio. Um senegalês. Andou até Marrocos e conseguiu chegar a Ceuta. Caiu na praia exausto. Foi salvo e, mais que isso, foi abraçado por uma voluntária de 20 anos da Cruz Vermelha.

Foi um abraço de abraçar, um abraço sentido, um abraço de amparar a vida. O homem negro, ela loira. Tudo tão perfeito. Tudo tão igual. Tudo a nos querer demonstrar que somos iguais nas perfeições e imperfeições. Um dos abraços mais bonitos a que assisti nos últimos tempos.

O homem chorava no ombro dela e perdia algum equilíbrio. Ela deu-lhe água e continuou a ampará-lo. Ele enorme, ela baixa. Nestes momentos o que interessa é a vontade de fazer o bem e logo as forças chegam dos lugares mais incríveis.

Estou a falar de uma atitude humana e solidária. Pois essa menina foi vilipendiada, insultada através dos mais variados meios. A rapariga loira e frágil, que tinha ajudado alguém a hidratar-se e a salvar-se, apesar das vozes de congratulação e apoio se terem feito ouvir, continua a ser acusada de coisas inacreditáveis. A gentiaga de extrema-direita não perdoa actos destes. Há qualquer coisa na cabeça destes mentecaptos que está mal-alinhavado. Além de pobres de espírito existem os pés rapados, paus para toda a obra por tuta e meia. A minha querida Avó sábia disse-me muitas vezes: “nunca peças a quem pediu, nunca sirvas a quem serviu.” Como ela tinha razão. Os pequenos ditadores são entraves incríveis de um correcto funcionamento da máquina pública e privada. Os pequenos favores. Os pequenos nadas. As cunhas e os papéis trocados. Os falsos C.V..

Tudo isto em Ceuta, ali no Norte de África. Um enclave espanhol em Marrocos. A sua bandeira é igual à de Lisboa tendo no meio o brasão de armas quase igual ao de Portugal. Ceuta já passou por tantas mãos que não se entende porque ainda é espanhola. A Europa ali à mão de semear para quem quer ter alguma esperança em sobreviver.

Todo este movimento de migrantes é para os inimigos da democracia, embora dela se aproveitem, um filão para captar votos e gente. Só que há ainda quem não se cale. Santiago Abascal, filho ideológico do ditador Franco, logo partiu para Ceuta. A ideia era fazer uma manifestação contra a entrada em Espanha dos imigrantes. Só que os naturais da cidade não aceitaram e fizeram uma contramanifestação. A Polícia também entrou na contenda. Abascal não saiu do hotel. A coisa ruiu. Atenção, no entanto, a todas estas movimentações. Estamos a criar um mundo falho de humanidade. Um mundo do salve-se quem puder. O capital financeiro dita as regras dos governos. Vamos destruindo a nossa casa comum. Há muita gente a dormir debaixo das pontes. Está feito o caldo ideal para o desastre.

As meninas loiras, com sentimentos e solidárias, serão cada vez mais mal vistas. A liberdade de sermos diferentes vai começar a ser atacada. Não sei se vão proibir os abraços para sempre. No dia em que isso for decretado vou sair para a rua e abraçar toda a gente. Depois prendam-me, façam o que quiserem, abraçar-me-ei na cela que me destinarem. Pelos afectos nos salvamos. Somos todos irmãos.

«O que eu gostei daquele Abraço. Coisa tão bonita. Quem me dera agora um abraço assim.”

Fala de Isaurinda.

«Eu sei que mereces todos os abraços. És de afectos. Também vieste de África.»

Respondo.

«Quando nos abraçaremos de novo? Quando chegará esse dia? Chegará?»

De novo Isaurinda e vai. Uma mão cheia de choros da terra.

Jorge C Ferreira Maio/2021(304)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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26 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Um Abraço”

  1. Há uma queda de valores cada dia mais abrupta neste mundo, infelizmente…
    Deixo-te um abraço, amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Temos de inverter este descalabro temos de fazer das fraquezas forças. Abraço-te

  2. Cecília Vicente

    O humanismo, o bem colectivo, fazer o outro sentir-se num abraço de conforto é quase crime público, considerado um acto indigno de quem o pratica. Deixou-se inesperadamente de se considerar o frágil pouco dignificante, pieguice (…) ser humanista é crime perante o olhar de muitos…
    Como sempre uma crónica que nos faz sentir impotentes, a existência de quem através da escrita mostra o poder das palavras faz-me a acreditar que os ” ignorantes” podem ser combatidos com palavras que não ferem mas alertam os sentidos. Abraço meu amigo, fica bem.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília, minha Amiga. São os nossos gestos e palavras qur irão derrotar a insolência e a estupidez. Nunca desistir. Abraço imenso

  3. Manuela Moniz

    Que belo e emocionante foi aquele abraço solidário de uma jovem que mostrou ao mundo que o amor pelo próximo não morrerá! Que maravilhoso e comovente, também, este teu texto sobre ele, e todos os outros abraços que tanta falta nos fazem. Abraço imenso, meu amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Tão belo. No entanto há sempre quem critique. Temos falta de Abraços e beijos. Um abraço desde aqui.

  4. Eulália Pereira Coutinho

    Belíssima crónica. Aquele abraço deixou-me sem palavras.
    Um abraço sentido. Sem hesitações aquela menina loura, de vinte anos apenas, deu uma lição de humanidade ao mundo, ao abraçar e amparar o homem alto e negro. O homem que, tudo tinha deixado para procurar uma vida melhor.
    Imagens inesquecíveis, que quase me fizeram acreditar que o mundo afinal estava melhor.
    A perseguição feita à voluntária veio provar o contrário.
    Os valores de bem, que deviam reger os povos e as nações estão a ser estrangulados pelos interesses económicos.
    Que mundo este meu amigo.
    Vamos resistir.
    Obrigada pela excelência dos seus textos e pelos valores que transmitem.
    Um grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Ficou um exemplo de humanidade. Viu-se que é possível sermos todos iguais e solidários. Foi emocionante. A vozearia da podridão é para derrotar. Abraço

  5. Filomena Maria de Assis Esperança Costa Geraldes

    Quem não necessita de um abraço?
    Num tempo onde o espírito humanitário parece que se vai tornando omisso, o abraço é o gesto que une, fortalece e cria vínculos.
    Aquele abraço foi só disso exemplo. Deixai falar quem se revela em discursos perdedores. Em linguagens ofensivas. Em ideais desprezíveis e condenáveis. Deixai-os falar!
    Aquela imagem correu mundo.
    Tocou quantos ainda acreditam que um abraço pode ser o suficiente para ofertar coragem, apoio e solicitude. Pode ser o símbolo da fraternidade.
    O nosso cronista, como é habitual, brilhante, interveniente e esclarecido, deu-nos conta de uma realidade deplorável que continua a ser notícia.
    Quanta crueldade!
    Quanta desumanidade!
    Quanto vil proveitamento!
    A menina loira e o negro imigrante senegalês, unidos pela força de um abraço de esperança e crença num mundo mais justo, igualitário e solidário.

    O meu abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Que abraço. Que sol se abriu neste mundo cão. Que bem tu escreveste. Porque os Abraços fazem falta, abraço-te muito.

  6. Maria Luiza Caetano Caetano

    Tão comovente foi aquele abraço, foi o amparo de um senegalês, que exausto quase caía na praia. Como um abraço nos dá alento.
    Como comovente, também é o seu texto querido escritor. Solidário e amigo de olhar atento. Sempre pronto a partilhar, bondade e afectos aos mais frágeis. E muito sofre quem os defende. Profundo o que escreveu.
    Sou dos que acreditam, que pessoas boas não vão acabar nunca!
    Mais meninas loiras, que sabem abraçar e dar afecto vão estar connosco.
    Que belíssima Crónica, querido escritor, muito grata. Abraço imenso.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Sim, tudo foi de uma beleza que abafa muita tristeza. São estes os abraços que o Mundo necessita. Essa ternura de saber amparar o outro, de estar ao seu lado. Todos caminharemos juntos. Abraço grande.

  7. António Feliciano de Oliveira Pereira

    Que belo texto, Jorge!
    O meu abraço, forte, Amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Outro Abraço grande para si.

  8. Maria Teresa Dias Pereira

    O ABRAÇO ENTRE DOIS IRMÃOS!!!!
    Não foi no dia do abraço,foi no dia da humanidade.
    A voluntária foi selvagemente iinjuriada…o negro trás o estigma da cor da pele…tão descorado, violenteme6nte tratado na terra que sempre foi sua. Claro, somos da terra que nos dá o pão.
    É isso que as pessoas marroquinas procuram, uma vida, pão para pôr na mesa.
    Belo texto o seu que me fez divagar um pouco.
    Deixem os marroquinos ter uma vida!!!!!
    Não definam as pessoas pela cor da pele!!!!!
    Foi só mais um pouco amigo…estava-me atravessado na garganta.
    Para si um abraço do tamanho do mundo!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Teresa. Um abraço que conta. Uma emoção única. Duas vidas unidas pelo bem. Ganhar força através dos afectos. Um momento qur fica. Abraço

  9. Isabel Torres

    Uma bela crónica, como sempre. É,de facto, inacreditável como um acto,um gesto,um contacto humano,tão bonito,tão fundamental foi “lido”de modo negativamente indescritível. Um dos abraços mais bonitos que eu também já vi. Humanidade,empatia… Que gesto louvável! De uma beleza que deveria tocar todos como uma obra de arte pode fazê-lo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. São estes abraços que podem salvar o mundo. Gestos vestidos de heroicidade. Foi tão lindo que comoveu. As vozes das bestas são para calar. Abraço

  10. Cristina Ferreira

    Como é possível um abraço de carinho que para aquele jovem foi uma tábua de salvação ser alvo de insultos???!!! Eu, que também sou dos afetos custa-me a compreender como uma abraço é notícia e pior, na forma de mentes sujas e desumanas. Caramba, como este mundo está carente de humanidade. Quero acreditar que é esta geração , a de esta menina loira que voluntaria e genuinamente ofereceu esperança envolvida em amor ao próximo, nos possa salvar.
    Jorge querido, como sempre o teu olhar atento e a tua escrita, é de uma humanidade de louvar. Bem hajas.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Quanti valor tem aquele abraço. O que ele represebta! A esperança imensa num mundo mais humana. Temos de acreditar que é possível mudar. Grande Abraço

  11. José Luís Outono

    Num olhar muito simples, foste directo a algo inédito nos mundos de hoje, onde o verbo ajudar, cada vez mais assume interpretações incríveis.
    Também tenho saudades desse abraço/vitamina da amizade, solidariedade e partilha.
    Acompanhei a peça, e fico questionador num olhar muito veloz, o que teremos amanhã?
    GOSTEI!!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado José Luís. Vamos acreditar que pelos afectos podemos ajudar a mudar o mundo. Vamos cantar aquele Abraço tão simbólico. Vamos aprender a Amar o outro. Abraço

  12. Maria Rosa Matos

    Querido amigo, não só me emocionou o abraço abraçado como o seu maravilhoso texto.
    Saudades de muitos abraços.

    Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Rosa. Tão importante o simbolismo daquele abraço. Tudo, afinal, pode ser tão lindo. Um grande abraço para si

  13. Ivone Teles

    Querido amigo, vi na TV essa peça jornalista. Adorei e chamei a atenção a quem tinha em casa. Era um momento tão maravilhoso, uma imagem que merecia ficar marcada num quadro para sempre. Aquele abraço valeu mais do que comida e água, se o imigrante tivesse fome e sede. Claro que também essa necessidade seria satisfeita.. Ela loira, ele negro, ficaram naquele sentido abraço como se o SOL viesse juntar-se . Como gostei de ver. Eu, mulher ” abraçadeira “, não esquecerei nunca mais aquele lindo momento. Jorge, meu querido amigo/ irmão, lutaremos com toda a força que tivermos para que estes gestos sejam banais e não ” admirações ” como este. Os afectos valem muito mais que os cifrões. Abracemo-nos, pois, coração com coração. De que valem cores de cabelo e pele?! Somos GENTE. Beijinhos amigos para ti e Isaurinda.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã, meu abraço. Sim, foi tudo de uma beleza comovente. Tanta solidariedade, tanto amor pelo próximo e tudo tão simples. As bestas que não gostaram não são dignas que os ouçamos. Abraço-te muito.

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