Crónica de Alexandre Honrado – Como está tu, tattoo?

Crónica de Alexandre Honrado
Como está tu, tattoo?

 

Muito tempo de confinamento e as discussões tornam-se a melhor alternativa ao tédio. Esta surgiu quando alguém nas imediações trouxe o tema para a ribalta: as tatuagens.

De onde vieram, porque as usamos, são banalidade ou elementos da nossa originalidade e liberdade?

Modelo duplo da civilização ocidental dos últimos decénios, a tatuagem perdeu entre nós a excecionalidade dos elementos estéticos e desafiadores. Chamo-lhe modelo duplo, pois por um lado tomou conta da pele do corpo e por outro fez o mesmo com a pele urbana (inúmeras paredes que nos rodeiam exibem-nas com maior ou menor mestria); de uma inicial e primitiva exuberância irreverente tornou-se uma das mais corriqueiras das muitas manifestações humanas. O que nasceu como contra cultura, hoje é banal; em 1891, o inventor americano Samuel O’Reilly patenteou a primeira máquina elétrica de tatuagem do mundo, logo exaltada por certa marginalidade e depois imitada praticamente se critério.

Há poucas dezenas de anos, no mundo ocidental, só alguns prisioneiros e alguns marinheiros europeus de longo curso as adotavam. Estes últimos no século XVIII e depois de conhecerem povos que viviam na região sul e central do Oceano Pacífico, os quais tinham as tatuagens (rituais, raramente definitivas), como um importante aspeto cultural.

No Havai, para cumprir o luto, usava-se pintar três pontos na língua. No Borneo, os nativos costumavam gravar a imagem de um olho na palma da mão dos mortos para que servisse como um guia espiritual que os levaria à próxima vida. Na Nova Zelândia, os Maoris pintavam o rosto como uma forma de expressão e uma maneira de identificar a família a que pertenciam. Alguns dos pigmentos usados tinham a necessidade de ser renovados com frequência, outros só duravam pelo período do ritual em que eram utilizados.

A tatuagem, difundida no Japão desde o século 5 antes de Cristo, servia ora para embelezamento do corpo como para marcar criminosos. Chegou a ser proibida em 1870, o que fez com que os tatuadores passassem a trabalhar ilegalmente e deu origem a desenhos únicos, exibidos apenas na intimidade, ou em ações mais ou menos clandestinas – que são reconhecidos como obras raras e de grande expressão na cultura dos japoneses ainda na atualidade. O grande exemplo é o da técnica chamada “tebori”, que é mais rudimentar, demorada e dolorosa do que a tatuagem feita com máquina. É a preferida dos membros da Yakuza – conhecida como a máfia japonesa – que cobrem os seus corpos, do pescoço aos tornozelos, com desenhos cheios de significado: dragões, carpas, tigres, lutadores e também alguns tipos de flores.

Os antigos romanos não faziam tatuagens por acreditarem na pureza da forma humana, sentimento aprendido com os gregos.  Assim, as tatuagens eram reservadas apenas para os criminosos e para os condenados. Os romanos começaram a mudar esta visão, em especial depois de (re) conhecerem os guerreiros bretões, que usavam insígnias de honra tatuadas na pele. Os médicos romanos desenvolveram excelentes técnicas para aplicar e remover os desenhos. Já durante as cruzadas dos séculos 11 e 12, as tatuagens foram usadas para identificar os soldados de Jerusalém. Todos aqueles que tivessem o desenho da cruz no corpo receberiam um enterro propriamente cristão se fossem mortos em batalhas.

Os prisioneiros ocidentais mais tarde, queriam desafiar o sistema, tatuando-se com maior ou menor irreverência. Um dos exemplos é o da “hierarquia” dos pontos, tatuados na cara ou na mão. Cinco pontos equivalem a um grau elevado de periculosidade do seu utente.

Estampas da memória, arte na pele, irreverência e libertação, a simbologia é a própria tatuagem e não o símbolo que sintetiza, a ponto de muitas delas estarem escritas em línguas que o seu usuário não lê, não fala e, pior, não entende –  o que de vez em quando é provocador de equívocos e de inúmeras sátiras.

Só o avanço da técnica generalizou a tatuagem com caráter definitivo. Os pigmentos não resistiam tanto no passado, as formas de pintar a pele não resistiam à água, aos caprichos das estações e da atmosfera,  ao envelhecimento. Na história das tatuagens havia, mesmo assim, gloriosas exceções. Acredita-se que a primeira tatuagem conhecida tenha sido feita a um homem da Idade do Cobre, hoje conhecido pelo nome de Ötzi”. Isso significa recuar mais de 5 mil anos  (a mais de 3300 anos antes da nossa era). A descoberta data do ano de 1991. Um cadáver, congelado, manteve-se parcialmente intacto ao longo de milénios, revelando um corpo pintado com linhas nas costas, nos tornozelos, nos joelhos e nos pés. Uma análise química revela terem sido feitas, essas linhas, graças a uma fricção repetida e intensa de carvão, produzindo cortes verticais sobre a pele e desafiando o tempo, tornando-se possível vê-las ainda hoje. Os cientistas observaram detalhadamente o corpo e os exames de raios X mostraram degenerações ósseas, o que os levou a colocar como hipótese que este nosso antepassado utilizava os desenhos para uma espécie de tratamento médico para diminuir a dor. A fricção deixava marcas, mas aliviava os sintomas. Parece ser a primeira tatuagem definitiva no mundo europeu.

A tatuagem provisória parece ser a antepassada mais comum da tatuagem definitiva. Um bom exemplo está documentado na história do antigo Egito, e revela como as mulheres que dançavam nos funerais – por volta de 2 mil anos antes de Cristo – tinham os mesmos desenhos abstratos de traços e pontos encontrados em múmias do sexo feminino desse período. Mais tarde, há registo de tatuagens com a figura de Bes, que na mitologia egípcia era uma divindade representada por um anão robusto e monstruoso; o bobo-da-corte dos deuses, senhor do prazer e da alegria, sempre acompanhado por um chocalho barulhento. De todas as representações egípcias, Bes é a única figura representada de frente (e não de perfil como todas as outras imagens que obedecem à chamada lei da frontalidade) o que lhe dá um estatuto especial.

Na atualidade, muitas são as tatuagens que percorrem o imaginário mitológico egípcio, com especial destaque para o olho de Hórus, o escaravelho sagrado ou as figuras em que as cabeças de animal encimam corpos humanos.

James Cook desembarcou no Taiti, em 1769, e aprendeu que a palavra “tatau” era usada para designar a maneira com que a tatuagem era feita – fazendo a tinta penetrar no corpo. Uma concha afiada, presa a uma vareta de madeira, servia para fazer os desenhos. Acredita-se que a palavra “tatau” tenha dado origem ao termo “tattoo”, um dos nomes mais usados para os desenhos gravados na pele.

Bom, o que o confinamento não nos traz como tema de conversa, não é?

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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