Crónica de Alexandre Honrado – COVID-19? Deixei de ter tempo livre

Deixei de ter tempo livre desde que estou confinado a um espaço – com computador e ainda alguma comida. É um exílio dourado, na província, a muitos quilómetros da capital, com o céu por companhia e a natureza pouco espezinhada a tocar-me de leve, que isto agora é tudo um toque leve, nada de apertos de mão ou beijos prolongados.

Não vejo muita gente, não só porque os outros se isolaram mas em especial porque aqui o ser humano não lhe apetece estar, dá muito trabalho estar num sítio destes.

Deixei de ter tempo livre. Na cidade desço as ruas, paro nos cafés, contorno as esquinas, tenho os transportes públicos e o meu, quase privado, dou aulas, tenho reuniões, escrevo e leio, compro livros, discos e gadgets, passeio e vejo cinema nas salas que ainda funcionam, sento-me no teatro, cultivo alguns pequenos vícios, filmar, fotografar, editar vídeo e áudio depois de recolher sons e imagens onde se manifestem – e agora tudo isso parece ser de um passado distante, muito distante, estou num isolamento forçado, sem ócio, só coisas para fazer, e outras que já se acumulam e que, confesso, vou ter de aprender a fazer.

Um estranho novo mundo desfila à minha volta, neste espaço que diria fechado e todavia é tão aberto: colaborações online, com vídeo e áudio, mas usando novas e saborosas ferramentas tecnológicas, de comunicação à distância, convites para coisas mesmo inesperadas, um novo livro meu que acaba de sair e que se mostra virtualmente, em lançamentos e promoções virtuais, coisas dessas.

No intervalo, estudo, mas isso não é novidade. Trouxe um pequeno atrelado com livros para este lugar de pássaros e insetos. Trouxe música, claro, que seria do ar se não se lavasse com pólen e acordes?

Leio aquele que é considerado um dos expoentes do novo realismo, corrente filosófica vanguardista, o alemão Markus Gabriel, da Universidade de Bona. O livro-êxito tem na capa o título “Por que o mundo não existe”.  O autor defende que todas as coisas, “materiais ou pensadas, podem ser compreendidas e serem verdadeiras, ou ao menos objetivas, em diversos campos de sentido, mas nunca reunidas num lugar que englobe todas elas”.

A grande tese é afinal surpreendente:  deste modo existiriam vários mundos – nunca um só como tantas vezes imaginamos. Ao pensar isto, somou inimigos e opositores, de religiosos a críticos sem grande confissão, de filósofos a outros pensadores culturais, derrubando, como a um castelo de cartas, teorias variadas que não se coadunam com a sua.  Tinha escrito, também, “O sentido da existência” onde as coisas “pioraram”, pois defendeu que “só na divergência e no cruzamento de diversos mundos pode encontrar-se um caminho ético. E mais: “o consenso é a morte de tudo e a pós-modernidade está superada”. Olhando-nos, afirma que “todos somos filósofos e que há um caminho revolucionário para cada um estar mais certo de si, do mundo externo e da verdade, em busca de um planeta mais justo”.

Graças ao coronavírus, Veneza está linda: os seus canais mostram uma surpreendente água transparente, límpida. A poluição diminuiu drasticamente na China, o que equivale a dizer, no mundo. Estamos despojados do ter e do ganhar, em troca do sobreviver. Modificámos os nossos símbolos, até aqueles que recorríamos para manifestar hábitos que não questionávamos, como um beijo, um aperto de mão, um encontrão na via pública.

Será que Markus Gabriel está no caminho da explicação mais sólida daquilo que é dado viver e sentir?

Deixei de ter tempo livre. E todavia, nesta nova etapa, sinto-me inesperadamente livre.

 

Alexandre Honrado

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