Crónica de Alexandre Honrado – Não nos doí o que já esquecemos

De vez em quando, por falta de tema, um órgão de comunicação social traz das profundezas dos tempos os moais, ou naokis, essas enormes estatuetas de pedra que ainda hoje se erguem na ilha de Páscoa, e, a propósito, fala-nos daqueles que as terão feito e que, com algum mistério para nós, desapareceram deixando-as apenas como prova da sua existência.

Se procurarmos na História, esse desaparecimento não é exceção. E passo a enumerar alguns dos muitos exemplos possíveis.

O debate mais recente retoma a discussão sobre o desaparecimento do homem de neandertal, há cerca de 40 mil anos. Terá sido determinado pela proliferação dos humanos modernos, que simplesmente os substituíram, ou tratou-se de uma extinção progressiva, afinal produto da má sorte e das condições específicas de uma das muitas épocas em transformação? Mas será preciso ir tão longe?

Já ninguém sabe como foi a cultura Clóvis, que desapareceu do norte da América, mais de 10 mil anos antes da nossa era. Começaram a ser estudados a partir de 1930, altura em que os seus vestígios sobressaíam na sombria página do tempo arquivado.

Outro tanto se aplica à cultura Tripiliana (ou Cucuteno), que tinha grandes ceramistas e que marcou a Europa há mais de quatro mil anos.

De vez em quando, surgem pequenos apontamentos sobre a dita civilização do Vale do Indo (que ainda era próspera dois mil anos antes da data convencionada para o nascimento de Cristo).

Algumas matérias escolares referem, entretanto, a civilização minoica – que, tal como a do Vale do Indo, desapareceu da face da Terra, mais ou menos na mesma época.

Já ouvimos falar dos Maias – que alguns asseguram que foi povo que “desapareceu de um dia para o outro”, deixando para trás de si alguma informação, sob formas sofisticadas de arte e construções dignas de grande nota, como templos, monumentos, cidades, estradas…

A fortíssima civilização micénica, de grandes guerreiros, de maior cultura e de farta economia, dominou o território da Grécia entre 1600 e 1100 antes da nossa era, mas não tem hoje mais do que restos arqueológicos para nos esclarecer.

Houve ainda a civilização Olmeca, mãe da civilização mesoamericana, que, ao que parece, introduziu genialmente nas fórmulas do mundo o zero, um conceito que revolucionou os números e a vida.

Existiram os Nabateus e os de Axum, os Medos, o império Bizantino, o império Persa, o império Khmer… E os romanos, em grande estilo, os gregos, senhores do mundo… E hoje nem os livros da escola perdem tempo com todos eles.

Há dias, li uma frase que me fez sorrir, inscrita sobre o que nos é contemporâneo, mas de um alcance de pequena sombra: “os nossos são tempos de penúria e de noite” – a frase, de forma ingénua e de curto alcance, tentava caracterizar a época em que vivemos. Tão pouco diferente de tantas outras que esquecemos. E a verdade é que não nos dói o que já apagámos da memória.

 

Alexandre Honrado

 


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