Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (23º. Episódio)

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Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (23º. Episódio)

Casa de Hóspedes (23º. Episódio)

Foi-lhe fácil o relacionamento com colegas de trabalho, raparigas e rapazes que, como ela, chegavam de todo o país, numa onda migratória que ajudava a despovoar o interior. Nessa Lisboa pardacenta, fechada à novidade, vigiada, Lucrécia foi descobrindo uma outra cidade, inconformada, de músicos e poetas e cantores, de palavra passada de casa em casa, de rua em rua, de bairro em bairro. De Paris chegavam discos e livros, embrulhados na roupa das malas de viajantes, e Lucrécia ouvia canções que nunca ouvira, com poemas que nunca soubera, tocadas em gira-discos de amigos, que a convidavam para serões fugidios, de ouvir baixinho, de porta fechada e cuidados de ver se na rua alguém rondava. Dona Júlia apoquentava-se quando ela chegava a desoras e sabia que lhe mentia quando dizia ter estado em casa de gente da sua terra. Passou a vestir calças à boca-de-sino, só fora do emprego, que lá dentro essa moda não era permitida, e Dona Júlia ficou deveras preocupada quando o cheiro a tabaco se espalhou pela casa. Tomou coragem e disse-lhe, menina o que anda a fazer, a menina está diferente, pense nos seus paizinhos, não lhes dê desgostos, e ela, com um sorriso de anjo, ó Dona Júlia, não se rale, eu sei o que faço, nada de mal, acredite, tenho bons amigos, aprendo muito com eles e aproveito o melhor que posso a minha juventude, vai ver que um dia destes as pessoas começam a pensar de outra maneira, a viver de outra maneira, ai menina, que ideias lhe andam a meter na cabeça, já não me bastava o Gil e o Zeferino com conversas esquisitas, e agora também a menina, pronto, pronto, que Deus a acompanhe e lhe dê o melhor caminho, obrigada pelo seu cuidado, Dona Júlia, durma descansada, e numa reviravolta agaiatada, e boa noite também para o seu canário, que hei-de eu fazer, a garota caiu-me no goto.

Bem assustada ficou quando, no outro dia de manhã, ao arrumar o quarto de Lucrécia, viu caída no chão, junto à mesa-de-cabeceira, uma caixa de medicamentos. Ao ler o nome teve um baque, não me digam, onde é que eu já ouvi falar disto, não posso acreditar, agora o que é que eu faço, falo-lhe, não lhe falo, pôs a caixa dentro da gaveta da mesa, ela há-de perceber que eu vi, ora, ora, tanto quanto sei isto é proibido, a não ser que ela ande doente e lhe tenham receitado. E se me aparece grávida?

(continua)


Pode ler (aqui) as outras crónicas de Licínia Quitério.


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