Crónica de Alexandre Honrado – “Um texto inútil”

Crónica de Alexandre Honrado – “Um texto inútil”

 

Tenho aqui um livrinho, ao qual chamo assim mesmo, livrinho, pela aparente pequena dimensão, umas quantas páginas às quais o editor, com letra crescida e uns separadores, acabou por dar uma dimensão maior. Mas o seu tamanho está no que diz, nessa forma eterna que os livros têm de dizer sem remorsos o que em silêncio decretam e nos pode mudar, se tivermos essa nobreza e inteligência de ouvi-los e torná-los nossos.

É um livro de Ludwig Wittgenstein, um nome difícil de pronunciar, a menos que se lide de perto com os nomes e sobretudo com as ideias que deles nos sobraram.

Ao mesmo tempo que é fecundo, é também um livro inútil. Não sobressai nas prateleiras, e se delas sai pode não interferir com quem o leve.

No livrinho, Wittgnstein diz isto mesmo por outras palavras:  “Considero nova a minha própria maneira de filosofar, e continuo ainda a pensar que assim é; é por isso que tão frequentemente necessito de me repetir. Para uma nova geração, ela ter-se-á tornado uma segunda natureza e as repetições parecerão maçadoras. Para mim, as repetições são necessárias.”

Parece tão pouco e todavia é tanto. Identifico-me.

Vou-me tornando com o tempo um eco, desses de poço de aldeia, fundos e com alguns mistérios, gritando eu para me escutar e absorvendo-me no retorno.

Prefiro o eco aos espelhos. Do eco vem o que gerámos e a devolução do que nos moveu, em som, dessa geração. O espelho devolve-nos a imagem que julgamos ser a nossa e que todavia contém sempre dois erros: no espelho é uma inversão do que somos, o espelho devolve-nos lados contrários do que na realidade lhe mostramos e, segundo erro, nunca somos nós naquele imagem, porque a imagem que somos depende dos outros e da construção social que a realidade nos quis legar e impor. Para mim, também, as repetições são necessárias. Muito provavelmente nunca escrevi dois textos mas sempre o mesmo texto, com as ideias que quis mais sólidas levadas ao fundo do poço para que se tornassem eco. Porque na devolução do som me permito a construção. E a desconstrução, pensando bem. Para outras gerações que não a minha, esses textos serão apenas ecos maçadores. Para a minha geração serão o nada. Repetições inúteis porque os outros estarão, tal como eu, à procura dos seus ecos. São textos inúteis, assim sendo. Feitos das minhas repetições, só para mim tidas como necessárias.

Wittgenstein, no mesmo livrinho, que numa das suas edições se intitula Cultura e Valor (sim, a repetição em mim, essa de perseguir a dúvida profunda do que será isso da Cultura), ainda diz assim: ”Neste mundo (no meu) não há tragédia, nem a infinita variedade de circunstâncias que dá origem à tragédia (como seu resultado). É como se tudo fosse solúvel no éter do mundo; não há superfícies sólidas. O que isso significa é que a solidez e o conflito não se convertem em algo esplêndido, mas numa deficiência.”

A inutilidade deste meu texto conforta-me, como uma velha manta em tempo frio.

 

Alexandre Honrado

 


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