Crónica de Alexandre Honrado | De cabeça perdida há quem peça a cabeça alheia

De cabeça perdida há quem peça a cabeça alheia

Incapazes de vencer no jogo político, alguns políticos mobilizam-se hoje em torno da agitação e da propaganda, coisa que parece ter sido copiada a papel químico de alguns períodos extremistas da história do mundo, sendo que agora a aura estalinista brilha sobre a calva de alguns ultraliberais, pagos a peso de ouro para mudarem o regime, tanto mais que nesta fase é beneficiador dos menos favorecidos e aposta na distribuição da riqueza, o que deixa a tremer as mãos que gostam de a reter e sonegar.
Há meia dúzia de políticos, não necessariamente agindo dentro de quadros partidários, que operam em conformidade, normalmente na sombra e ao serviço de interesses que nos transcendem e que por vezes são tão ilegítimos como ilegais e perigosos, com os seus assessores de comunicação, as suas redes de tráfico de influências, a manipulação das redes sociais e dos órgãos de comunicação que, criando a ilusão através de uma opinião publicada vão sedimentando ilusões na opinião pública.
Como dizia um velho mestre, dos jornais a única coisa que aparenta o registo da verdade é bem capaz de ser a data – e isto se não houver gralha.
Há dias, num corredor, de sítio público, ouvi esta conversa: “isso é um negocio extraordinário. Se fosse a ti falava já com X. Ele ajuda-te. “ Tal como eu ouvi, outros ouviram. E o misterioso X era um ministro sem honra que foi demitido há tempos, que foi desmascarado na via pública, que a seguir à demissão foi passar o ano na maior e mais cara festa brasileira, aparecendo nas revistas “mundanas”, que tão bem sabem cumprir o seu papel.
Há quem se emocione com os abracinhos do presidente e crucifique a ministra que foi ao terreno com suor e lágrimas e com uma sinceridade sem grandes precedentes perdeu um pedaço de vida e quis mesmo resolver as coisas. Há também quem perca a cabeça e peça a cabeça de alguém que nos proporcionou voltar a ter a cabeça erguida, perante nós mesmos e perante os outros que nos acusavam de “viver acima das nossas possibilidades”, enquanto recebiam de sorriso aberto os juros que pagávamos para relançar as suas economias periclitantes.
A História mostra-nos como é difícil manter a estabilidade em Democracia. Entre 1974 e 1987, 13 anos!, nenhum governo da Democracia completou o mandato.
No século passado, só houve doze anos de estabilidade democrática – oito anos de Cavaco e quatro de Guterres. Os outros 88 anos foram vergonhosos: ditadura, instabilidade e propaganda difamatória e calamitosa. Seja na Monarquia – entre 1901 e 1910 – seja na República – 1910-1926 -, seja no Estado Novo – até 1974 – seja na II República: 1974-1987.
Se olharmos para as principais obras públicas do País, elas resultam de períodos históricos onde se destacam três nomes: Duarte Pacheco, no Estado Novo; Ferreira do Amaral, no cavaquismo mais rico, o dos apoios europeus quase infinitos, o período em que era fácil fazer flores e fortuna, comprar jipes e casas de verão, mas que foi desperdiçado, talvez porque o professor de economia soubesse pouco de algumas matérias;  e, muito mais longe, de Fontes Pereira de Melo, no velho século XIX.  (Falo de alguma indústria, em transportes, edifícios públicos, estradas, pontes, hospitais, a maior parte surgidos num dos três períodos que esses três nomes simbolizam).
Quando finalmente chegamos a um ponto de relançar a economia, pagar contas, e readquirir a dignidade – coisa que o ultraliberalismo nos negou e que, escudando-se na fórmula mágica infantil “ culpa é do outro menino” nos atirou para um buraco negro em que os mais fracos e desprotegidos foram as principais vítimas-, quando finalmente somos estudo de caso de êxito internacional, saem os ácaros dos tapetes e os esqueletos das tumbas, e pedem as cabeças alheias – por estarem de cabeça perdida.
Curiosamente, um dos homens da direita que mais admiro, Bagão Félix, escreveu um artigo rigoroso sobre a ignomínia e o disparate da nova campanha anti-Centeno. Quem leu?

Alexandre Honrado
Historiador

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