Crónica | Alexandre Honrado – Peço desculpa

Os livros de viagens, as narrativas de viagens, o imaginário que leva qualquer um de nós às deslocações mais surpreendentes, a migração, o refúgio, o alcançar terras desconhecidas, a procura de riqueza sempre num lugar diferente daquele em que se nasceu, o melhor pasto, o mais fecundo chão, o rio mais generoso, leva-nos a partir e a ficar…

O movimento está na matriz dos povos.

A procura de sustento ou da caverna mais espaçosa, o clima mais pródigo ou pelo menos o lugar mais ameno: movimento.

Na pré-história, as maiores mudanças climatéricas produziram esse movimento. Fugia-se do frio, da agressão climatérica, da fome, da adversidade. Como mais tarde das guerras, dos invasores, dos usurpadores. Seres em movimento.  Sempre. Os nossos avós iriam ficar surpreendidos ao verem como alguns dos seus netos se arrepiam com a ideia de apoiar os refugiados – pois foram refugiados noutra época.

Entre muitos povos com as viagens no sangue, não há dúvida que os portugueses sabem bem o que isso é. Do reduto menor do condado portucalense aos lugares desconhecidos, onde outros seres humanos, outras sensibilidades, outras cores, foram conquistados, por forças variáveis, pela nossa curiosidade e até pela impiedade da falta de limites da violência mais condenável.

Se alguma coisa se pode entender como identidade cultural dos portugueses – e a identidade cultural é sempre uma impossibilidade, pois não há dois iguais, nem quando queremos formatar o próximo à nossa imagem e semelhança -, se alguma coisa se pode entender como marca distintiva identitária, essa forma de migrar, de tentar a sorte, de ser cidadão do mundo – em fuga ou por curiosidade -, dos fossados e das cruzadas, à emigração e aos desafios do Erasmus da contemporaneidade – essa nossa capacidade de sermos vadios faz-nos realmente de simples povos em contacto uma mancha mais uniforme e perceptível.

Somos mexidos. Nem sempre destemidos, mas mexidos.

Somos milhões espalhados pelo mundo. E a nossa cultura, que antes levava imposições a povos de outros continentes, é agora uma mescla agradável do que os povos dos outros continentes nos vão trazendo todos os dias.

Nas nossas escolas há crianças de todas as partes do mundo. Na nossa rua vivem pessoas que vieram de outro mundo para enriquecer o nosso mundo. Vistos de longe, fazemos sentido. Parece que é apenas um mundo uno, isto que nos deram para conservar. Mas de perto temos diferenças que por vezes inquietam e traem essas casa comum, que devia ser, afinal, uma causa comum.

A política – e não a essência humana de onde ela, afinal emerge – conduz os homens aos seus embates mais ferozes. Mas é a imoral dos preconceitos que distingue os homens racionais dos que agem irracionalmente.

Um dia todos nos libertaremos. É uma utopia saudável, pensá-lo. Porque pensar é realmente uma utopia saudável. Deixaremos então a farsa antiga da mitologia e da revelação, pelo que podemos vir a ser juntos e em inter-relação.    Pensar há de ser isso. (Foi o que eu pensei hoje, peço desculpa).

 

Alexandre Honrado

Historiador

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