Crónicas de Jorge C Ferreira | Crónica Vadia

Crónica Vadia

 

Podia continuar a falar do problema da Catalunha, seria a “Catalunha III”. Podia mas não me apetece! Podia falar das desgraças do meu País e da Galiza, dos fogos eternos, dos mortos e das labaredas, do populismo reles dos que cavalgam as desgraças, das meias medidas e das meias tintas. Podia mas cansa-me! Podia falar das armas que aparecem e desaparecem, desse filme mal contado e de fraco guião que se chama Tancos. Podia mas não tenho pachorra! “Tudo para Tancos” como aprendeu a dizer o meu neto com o “DDT”. Vamos deixar, esta semana, de dar para estes peditórios. Vamos descansar o corpo e a mente. Merecemos!

Hoje apetece-me escrever uma crónica vadia. Uma crónica sem lugar nem estado. Uma imensa liberdade a fluir pelas veias que nos alimentam o cérebro. Hoje apetece-me rasgar tudo o que já escrevi e escrever de novo. Assim se pode nascer outra vez, mesmo vindo de um inferno qualquer.

Vadio é o Migas, o gato aqui do prédio. Gato negro de olhar profundo que todos apaparicam. Na verdade é ele o dono do prédio. Já muitas vezes lhe abri a porta da rua a seu pedido. Ele segue-me e pára junto à porta da minha vizinha norueguesa que escolheu para sua dona. Aí mia e raspa a porta. Eu toco a campainha e acordo a dona. Podem não acreditar mas ele olha para trás como que a agradecer. Um génio, este Migas.

Vadia é também a gaivota que por aqui se insinua perto da minha varanda, mesmo quando o mar não está bravo e a bonança nos acaricia. Uma elegante ave. Uma sedutora, uma atrevida criatura. Parece querer chamar-me para o mar. Já me perguntei, muitas vezes, quem será. Nunca obtive uma resposta concludente. Digamos, também, que este mistério me fascina. Por isso o vou alimentando. Voa gaivota, voa.

Vadios são os pássaros que vêm comer as migalhas de pão que espalho na minha varanda. Comem e partem. Nunca mais os vejo. Alguns voltam a desoras, buscam alguma sobra. Quando começa a escurecer vejo-os irem para as suas árvores. Depois calam-se. Só pela manhã me acordam com o seu canto. Belo, o seu cantar.

Vadios são os peixes com quem nado. Acho que nunca são os mesmos. Os seus movimentos ondulatórios refrescam-me o corpo. São meus guias nos caminhos mais salgados. Com eles aprendi o canto das Sereias. Com eles encontrei os que foram no seu canto e jazem, num estado que não sei classificar, no fundo do mar. Os olhos muito abertos. O corpo muito branco. As barbatanas a crescerem.

Vadio sou eu. Mesmo quando não saindo da minha varanda invento histórias e viajo a sítios por inventar. Daqui olho o azul imenso e transponho todas as fronteiras, derrubo todos os muros,  acabo com todas as guerras. Desta varanda que amo, sigo as mulheres guerreiras, os aventureiros da vida, os sacrificados, os deserdados da sorte, e beijo os poemas que leio. Poemas que me chegam em folhas, vindas não sei de onde, que voam e aterram junto a mim. Sem sair daqui vou a tanto lado, vejo tanta coisa! Coisas que não vos sei descrever. Ainda não arranjei as palavras certas. Essas que ainda não constam em nenhum dicionário. Palavras por inventar. Um desacerto sem conserto. Talvez um dia seja capaz. Talvez, quem sabe?

Esta é a crónica vadia. A crónica dos dias por inventar. A crónica dos que não gostam da ordem. Desordeiro serei sempre. Não gosto dos poderes instalados. Sou assim.

«Tu foste muito vadio, mas  pensei que já tinhas assentado. Fiquei preocupada, vê no que te andas a meter.»

Voz da Isaurinda, ao telefone, depois de eu lhe ler este texto.

«Oh, minha querida, isto são desabafos. Liberdades de escrita.»

Respondo.

«Das tuas liberdades sei eu muito bem. Tu toma juízo. Já tens idade para isso.»

Responde Isaurinda e desliga, deve levar o pano na mão.

Jorge C Ferreira Out/2017(143)(Reino de Valência)

 

Siga-nos nas redes sociais

Artigos Relacionados

34 Thoughts to “Crónicas de Jorge C Ferreira | Crónica Vadia”

  1. Manuela Moniz

    Adorei esta crónica “vadiar”, assim como adorei a tua maneira de viver, sentir e criar em liberdade. Que bela vadiagem, Jorge. Vadiar é preciso.
    Abraço, meu amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Amar sempre a Liberdade. Vadiar com ela de braço dado. Amar a vida. Abraço

  2. Afonso Valente Batista

    Como eu gosto da vadiagem mesmo aquela que seja a de se soltar as amarras deste porto de medíocres e ir por ai, adiante. O refluxo é ver que continuo sentado no mesmo porto dos medíocres.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Afonso. Vamos Vadiar meu amigo. É tempo. Eles não entendem. Abraço

  3. Maria Helena Moren

    Lindo texto
    É uma poesia.Tanta beleza
    Um gato preto que trás felicidade
    Contrariemos o ditado
    As gaivotas,os passaros,os peixes
    Maravilhoso envolvente
    Obrigada,Jorge!!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Helena. A vida é tudo isto. Por vezes passamos pelas coisas e não as vemos. Abraço

  4. Lénea Bispo

    Um espírito livre, o sentir de um poeta não pode ter amarras. Navegas no mar mais revolto como andas à bolina na maior acalmia dos oceanos. Enches os pulmões de maresia, a voz do poeta solta- se e a poesia acontece .
    Como eu gosto de te ler…
    Fico também embalada nessa música ,mas assusto- me quando aparece a Isaurinda . Quebra- me o sonho, não sei…
    Beijinho, meu amigo Jorge .

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Lénea. Que coisa linda escreveste. Não mereço tanto. Abraço.

  5. Raquel Lameirão

    Bela vronicamais descontraids(ou talvez não) …..mas gostei de ouvir falar do migas….e da gaivota…da liberdade de vadiar…bom ter o mar à volta para descontrair e inspirar!!!
    Um abraço amigo Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Raquel. A vadiagem do espírito é uma arte que requere algum estado de ser especial. Sabe bem ser vadio. Abraço

  6. Ana Pais

    Quão linda poesia! Vadiar o pensamento. Observar tudo o que o rodeia na sua varanda . O mar – o seu elemento preferido-, o viajar sem sair de casa. Os afectos, a ternura pelos animais e pessoas. O seu segundo Reino encantado. A voz da Isaurinda ao telefone sempre preocupada com o seu menino Jorge. Gosto muito de me maravilhar com as suas crónicas. Grata pela partilha. Um abraço amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado ,Ana. Que gratificante ler o seu comentário. Vamos vadiar! Abraço

  7. Maria da Conceição Martins

    Olá amigo Jorge
    Gostei muito da sua crónica vadia e dela tirei uma frase: Não gosto dos poderes instalados. Nem eu meu amigo, estamos em sintonia.
    Até para a semana e abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria da Conceição. Sou do contra. Assim me ensinaram no tempo do “reviralho”. Vamos vadiar, ser livres. Abraço

  8. Ivone Teles

    Meu amigo vadio, meu gato Migas, minha gaivota voadora que planas e aterras nos lugares que amas, meu pássaro que com os seus irmãos também vadios, vêm comer as migalhas que propositadamente vos deixam ao alcance, meus peixes que contentes, mas escorregadios, nadam juntamente com um ser humano bonito que julgam procurar uma sereia que, à noite, tenta encantar com as suas canções, meu querido amigo/ irmão.
    Como gostei desta crónica. Tinhas um sorriso nos lábios, enquanto escrevias. Vê-se, lê-se nas tuas palavras. Não esqueças nunca de escreveres as tuas crónicas, umas vezes vadias, outras mágicas; umas vezes bem severas para quem quer estragar as palavras dos poetas que, em poesia e prosa, nos despertam para um mundo, às vezes pai, mas tantas outras um anjo mau para quem quer cuidar dele e dos que o habitam.
    Gostei muito, mas aproveito o telefonema da Isaurinda e, de pano na mão, como ela, vou através do fio telefónico, aguardando, sempre as tuas palavras.
    Beijinhos meu amigo e por aqui te aguardamos, sempre.TERNURA.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Que bom é ler os teus generosos comentários. Que bom é ter uma amiga/irmã como tu. Vamos vadiar. Vamos ser livres de corpo inteiro. Abraço

  9. Fernanda Luís

    Vadio, grande virtude. Eu tenho uma grande costela vadia. Mais, sou adúltera! Descobri isso recentemente, a propósito de um acórdão do Tribunal da Relação do Porto. Os “Meretíssimos” evocaram a Bíblia e o Código Penal de 1800 e tal, nos fundamentos da setença a uma vítima de maus tratos. Vivem no século XIX, portanto, onde a mulher pode ser apedrejada até à morte, claro! Por isso, faço questão de afirmar publicamente que sou uma mulher adúltera.
    Apesar de não ter o mesmo sentido de ser vadio, também lhe digo que gozo dessa prorrogativa. Sou vadia sim senhor.
    Gostei imenso da crónica. Espero que assim continue, vadio. Abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. Que boa que é a vadiagem. Esse “juiz” já morreu e ainda não deu por isso. Abraço

  10. Madalena

    Adorei esta crónica vadia! Fala de pássaros, de gaivotas, de peixes e do grato gato Migas! Esse gato é um espectáculo! Tem muito por onde distrair a mente e nós maravilhamo-nos com as suas magníficas transcrições todas as semanas. Esse Reino tem uma atmosfera que lhe faz muito bem! Fez muito bem em optar por não falar em assuntos que lhe poluem o cérebro. Merece(mos) descanso! Obrigada, meu amigo. Continuação de boa estada por essas terras. Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Que bom ter aqui o seu comentário. Sou de onde me tratam bem. Abraço

      1. Madalena

        Imagino…aí é só mimos, eheh ainda bem!

        1. Jorge C Ferreira

          Os suficientes minh amiga

  11. Branca Maria Ruas

    Gosto da tua vadiagem e da “crónica dos dias por inventar.”
    Também não gosto de poderes instalados!
    Obrigada pela escrita e por seres mais uma voz livre e não alinhada.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Amo a liberdade. Sou um homem de causas. Amo os vadios. Abraço

  12. Eu acho que a idade nos concede privilégios. Nomeadamente o de deixar o juízo de parte.
    E essa vadiagem de que falas, é perfeitamente salutar e desejável.
    Um abraço, amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Sim, vadiar. Não se sentir obrigado a nada. Desobedecer. Amar a liberdade. Abraço

  13. Célia M Cavaco

    Sem ser intrometida,colei-me a essa vadiagem e segui todas as palavras.Confesso já conhecer o Migas,e já tinha perguntado a mim mesma onde é que o Migas andaria porque não o via por aqui referenciado.Tenho uma vaga ideia,que num final de verão ele tinha ganho asas,e…foi pelo mundo…
    Que bem que nos faz vadiar pela intemporalidade de todas as memórias.Obrigada meu mui amigo .Aquele abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Estás a confundir o Migas com o Misha. Não faz mal. São dois felinos muito ciosos da sua liberdade. Sejamos também livres. Abraço

  14. Cristina

    (…)
    Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
    Não é ser vadio e pedinte o que é corrente:
    É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, (…)

    Querido Jorge, ao ler a tua crónica vadia, de imediato me ocorreu a “ lucidez” de Álvaro de Campos.
    Corrige-me por favor, se estou errada ao comparar o vosso sentir.
    Foi o que senti neste teu belíssimo “desabafo “
    É na minha simples “liberdade de escrita “, que deixo a ti e à minha querida Isaurinda, um enorme abraço .
    Cristina

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Que bom trazeres Álvaro de Campos. A vadiagem do pensamento é uma livre forma de estar. Vamos ser livres. Abraço

  15. Esmeralda Machado

    Gostei muito desta crónica! Obrigada e um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Esmeralda. Que bom ter gostado. Que boa a sua presença. Abraço

  16. Idalina Pereira

    Adorei a crónica. Vadiar faz bem…eu gosto de vadiar nos livros que leio, quando olho o mar, as estrelas, as nuvens…
    Obrigada pela partilha deste excelente texto. Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Idalina. Vamos vadiar. Vamos viver em liberdade. Vamos desassossegar. Abraço

Comments are closed.