Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

BENVINDA – Uma História de Emigração

1º. episódio

 

Benvinda é hoje uma mulher de ancas opulentas e pernas ligeiramente arqueadas, as mesmas que em nova eram de boa medida a atraírem os olhares gulosos dos rapazes da aldeia, e que o peso das cargas e dos anos deformou, alargou, em abundâncias de moleza e desconsolo. Duros, os trabalhos do campo, dura a terra no longo Verão que queimava o restolho e a pele, que aumentava nos homens a sede de vinho e nas raparigas fazia nascer uma nova sede de rapazes.

– Fome, o que se chama fome, não passei, não senhora, comia-se o que a terra dava, tudo no tempo justo, o que sobrava da venda. E havia a salgadeira onde se guardava a carne do porquito que se criava. Ainda tenho saudades do pão com toucinho alto e do caldo de couves com o gosto da fervura dos ossos. Saudades disso e de ser nova, e de não sentir como agora este cansaço nas pernas ao fim do dia lá porque estou umas horas de pé aqui atrás do balcão. Velhice, é o que é. Voltar atrás nem pensar. Só se fosse para sentir ainda os beijos dos meus meninos, há lá coisa mais doce que meiguice de filho.

O rosto de Benvinda distende-se, ilumina-se, quando fala dos filhos que são grandes, uma rapariga e um rapaz, ele parecido com a mãe, ela com aqueles olhos azuis do pai, os lindos olhos que lhe abriram a porta da igreja, a fizeram chegar ao altar, jurar ser fiel e obediente, ao homem, à casa, à vida, ao que viesse de bom e de mau, até que a morte os reclamasse.

– Casaram na França, lá estão, ninguém os convenceu a voltarem connosco. E depois há os miúdos, o mais velho já está a fazer o “bac”. Foram muitos anos de “bâtiments”, de “concierge”, de sofrer como se diz as passas do Algarve, a aturar as madames, a aprender a falar francês, que remédio, sem falarmos francês eles não nos queriam. Hoje aqui em Brandar riem-se da nossa fala, dizem que temos vergonha de falar português, as coisas que a gente tem de ouvir, não dizem por mal, a gente percebe que já não somos igual ao que éramos antes do salto, como é que podíamos ser, saímos daqui com uma mão à frente e outra atrás, voltámos com uma bela duma “bagnole”, aprontámos a casa, eles dizem sempre “maison” para fazerem troça, mas a gente faz de conta que não entende.”

 

Continua…

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