Crónica de Alice Vieira | A santa da família

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A santa da família
Por Alice Vieira

 

Toda a família sabia que a tia Mafalda era santa.

De resto, tinha tudo para ser santa: era muito feia, muito boazinha, e muito infeliz, porque o tio César lhe dava tareias de meia-noite.

A tia Mafalda vivia numa rua muito feia de um bairro muito velho, num prédio de escadas de madeira a cheirar a gatos e peixe frito, numa casa com um grande corredor, muitos quartos sem janelas, e com um estranho perfume a incenso.

Íamos muito pouco a casa da tia Mafalda. Primeiro, por causa do tio César, que não gostava de nós. Depois ele morreu e passou ela a ir a nossas casas.

Eu adorava a tia Mafalda. Ensinou-me a tocar piano, (a velha faixa verde, que ainda cobre as teclas do meu piano, foi ela que fez), e contava-me muitas histórias, numa voz muito mansa. Voz de santa, claro.

Ao que parece, o tio César não só a enchia de nódoas negras como também regateava ao tostão o dinheiro que lhe dava para as despesas da casa. Apesar disso, ela sempre nos encheu de livros de histórias,  de chocolates, e de meias no Natal.

“Não sei como consegue, coitadinha”, diziam.

Apesar de todas as infelicidades próprias do seu estatuto de santa, a tia Mafalda morreu muito velha.

Tão velha que eu era a única pessoa de família que lhe restava. E por isso coube-me a ingrata tarefa de despejar a casa para a entregar ao senhorio.

Ingrata mas facilitada pela extrema organização da tia Mafalda. As gavetas de todas as cómodas eram uma obra de arte de ordem e arrumação. Documentos de tudo e alguma coisa, mas todos em envelopes separados, as contas todas em dia, os quartos arrumados como se esperassem visitas, até dava a impressão de serem habitados, almofadas e colchas de chita  garridas nas camas.

E o cheiro a incenso.

O cheiro que sempre rodeara a tia Mafalda.

Também isto devia ser sinal de santidade, pensava eu, quando tocam à porta, e uma força da natureza feminina, sem me dizer fosse o que fosse, sem sequer se apresentar, pega nas minhas mãos e exclama que sempre foi de muito boas contas, e “mesmo com essa santa morta, coitadinha”, está ali para pagar o que lhe deve.

Meio atarantada, digo-lhe que já vi os documentos, não há nada para pagar, e ela “ai isso é que há, porque aquela santa sabia que a nossa vida é difícil, quem lhe chamou fácil só podia ser um estuporado de um homem, e nem sempre lhe podíamos pagar o quarto a horas, e ela deixava-nos pagar quando tivéssemos dinheiro, e logo calhou de me  morrer num mês em que lhe fiquei a dever”.

Olha para mim, desolada, estende-me as notas que traz na mão, e em voz sumida pergunta se vou “continuar a alugar os quartinhos”.  Devolvo-lhe o dinheiro,  que ela volta a enfiar nas minhas mãos, e digo-lhe que a casa agora é do senhorio.

E ela desata num pranto de saudade genuína pela tia Mafalda, e desce a fungar pela escada abaixo, “onde vamos agora encontrar outra santinha!!”, deixando-me  especada no patamar, um cheiro a fritos  a entranhar-se na minha pele, uma data de notas na mão—e a santidade da tia Mafalda a esboroar-se lentamente entre os meus dedos.


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Actualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


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