Crónica de Alexandre Honrado – Menos um dos nossos

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Menos um dos nossos

Este parte, aquele parte e todos, todos se vão… Era uma das cantigas que ombreávamos há anos, já lá vai tanto tempo que o fio da memória tornou-se um fio de ouro muito valioso a segurar-nos o passado. Um desses fios que não parte. E todavia é tão fino, e no entanto todos partem. Os que mais amamos e os outros. Até aqueles que nos são indiferentes. E nós. Nós também partimos.

Há por vezes estradas, ramais, becos no percursos por onde enfiamos arduamente, como se provássemos a nós e aos outros que não, por mais que a força se oponha, será nossa a hora de partir.

Quando um de nós parte, ficamos muito sós.

A dor torna-se insuportável.

O luto é uma coisa insuportável.

Quase. É que depois há sempre alguém que sorri adiante, alguém que nos aperta a mão com convicção, o disco que sai da poeira ou do raio de luz e nos devolve a voz de quem partiu.

Eu podia dizer agora: conheci-te bem. Nessa época éramos todos militantes e achávamos que o tempo era o que trazíamos nos bolsos. Não precisávamos de mais do que chão para ficar. E no chão que tínhamos nunca ficávamos sentados.

Tínhamos sempre onde ir. E o caminho passava por dentro dos outros e sobretudo por dentro de nós. Unidos. Jamais vencidos?

Éramos janelas.

Só aqueles que já foram janelas percebem a amargura do sol, ao invejar-nos.

Éramos coro. Nada se fazia se não fosse em coro.

Não pagávamos refeições individuais: ou comemos todos ou passamos fome! E íamos com os ideais pela mão como se fossem crianças a precisassem de um caminho.

Podia gabar-me. Contar a história, aquela que se passou só entre nós.

Ou as confidências.

Ou aquela tarde em que eu fiquei como a traça à volta da lâmpada, uma tarde que dura até agora.

Podia dar a entender, insinuar, fazer como o outro que apareceu logo a dizer isto e aquilo, como se antes fosse contigo às selfies, e não, claro que não, não ombreavas com qualquer um.

Estavas tão cansado. Mas não das lutas nem das caminhadas, não das ideias nem dos ideais, não do diapasão, nem da voz afinada, mas muito cansado daquilo que não entendias: como é que descemos tanto, como é que a humilhação nos apanhou numa curva, a do beco escuro onde se montam as armadilhas e as esperas dos traidores?

Não percebias como é que o sol se tornou um pavio mal aceso, uma estopa velha a tremeluzir com pouca chama. Como é que nos apunhalámos sozinhos. Como é que fomos até a ponto de fornecer a faca às mãos vazias. Como é que deixámos de ser janelas ou nos barricámos por detrás delas.

Desististe.

Por cada um de nós que parte, outros chegarão. Quero acreditar nisto.

Estaciono o carro porque estás a cantar agora.

Não é vergonha um homem chorar. Eu choro tanto, enquanto partes.

Choro, com cravos por dentro, mas choro tanto. Por favor, deixem-me em paz.

Alexandre Honrado


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