Crónica de Alexandre Honrado | Extinção

EXTINÇÃO

Tornando-se um dos animais mais hábeis na difícil tarefa da sobrevivência, o ser humano, primata excepcional, canalizou a sua agressividade não só para a competição entre si, por vezes ilimitada e cruel, como para a aquisição de algum conforto capaz de facilitar-lhe a vida e afeiçoar-lhe o comportamento, por vezes de modo inusitado, surpreendente, e tantas vezes errado.

A única espécie animal ainda viva de primata bípede do género Homo tem a estranha capacidade de escolher o seu destino. É a única espécie que mata conscientemente, sem razão aparente, sem a necessidade de fazê-lo. Mata para ter poder, território, matérias-primas, recursos ou caprichos – e inclui essa estranha aptidão na lista em que se consagra como sábio. Das grandes guerras à violência doméstica, somos a concretização de muitas insanidades.

Pegando na língua latina, o homo sapiens – o homem sábio – é uma designação comum, e há quem acredite nela como uma invencível dotação.  Mas essa sabedoria, por vezes consagrada a espantosos avanços da condição humana, aptos para a sua progressão, nunca nos substituiu o medo histórico que nos leva a exaltar o conflito e a agressividade, como aparentes únicos caminhos para a sobrevivência.

É uma estranha sabedoria que cultiva preconceitos, que opõe ideologias, religiões, cores de pele ou sexos, que faz de nós, em todos os pontos do mundo, desconhecedores de nós e dos que nos estão próximos. Castigamos a natureza – e cuidamos mal do conhecimento da natureza humana. Destruímos o planeta e os seus recursos e optamos por uma insensata mediocridade, que celebra o telemóvel novo e a grosseria quotidiana, esquecendo-se de comunicar e de apurar as sensibilidades que nos engrandeceriam.

A resignação é este modo como vivemos em negação. Absorvemos as manchetes fazendo insensatos comentários que, ficando-se pelo juízo de valores, nunca serão críticos.

Os sintomas da nossa precariedade são inúmeros. Da violência no desporto protagonizada logo os dirigentes que nos oferecem como reles deuses de circunstância, às armas que as mãos reclamam, à destruição do planeta e de todos os animais que o percorrem, ao desamor pelo que o percurso humano terá criado de mais valioso (uma cultura humanista que podia consagrar as diferenças em torno de uma espécie animal potencialmente muito rica).

Sou de uma espécie rara e estranha, de intelecto variável e de afetividade muito duvidosa. Surgi há 350 mil anos, no leste de África. Só há 50 mil anos adquiri o aspecto a que chamei humano.

Sou uma espécie em extinção.

Felizmente.

(Dizia G.K. Chesterton:”Ser livre é ter o coração preso”.)

Alexandre Honrado
Historiador

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