Crónica de Alice Vieira | Desconhecido nesta morada

Desconhecido nesta morada
Alice Vieira

 

Tenho a sorte de morar num bairro de gente.

Quer dizer : num bairro de prédios normais e não de torres gigantescas, num bairro onde as pessoas ainda se conhecem e ainda vivem, não se limitando a sair de manhã cedo e a voltar ao fim do dia.

No meu bairro—apesar de já muita loja ter fechado ou mudado de ramo…– ainda existem vizinhos.

Muitas vezes as mais velhas estão à janela, e ali ficamos a conversar.

(Há dias, eu a passar debaixo da janela de uma velha vizinha que já não via há uns tempos, e lá ficamos na saudável cusquice do costume, o tempo, a saúde, os filhos, os netos…

Eu: “ó Cremilde, imagina que já tenho uma neta com 22 anos!”

Ela:  “e eu, que tenho um filho com 70!”)

Há dias um estrangeiro que cá mora há algum tempo deu uma queda e ficou estendido no chão—e houve logo quem fosse tocar à porta da família para a avisar do que tinha acontecido.

E eu à noite fecho a porta à chave, evidentemente, mas nunca deixo a chave no trinco porque posso precisar de alguma coisa e é só ligar para a porteira, que tem a minha chave, e ela desce e em segundos está ao meu lado.

O carteiro conhece-nos e sabe as nossas vidas. E , quando às vezes eles mudam de percurso, ficamos muito infelizes e damos-lhes sempre grandes abraços quando os encontramos noutras  ruas . Há amigas minhas que me enviam postais quase todas as semanas (sim, ainda escrevo e recebo postais todos os dias…) que, no alto do postal, escrevem sempre “beijinhos para o Serginho!” , ou “para o Luis Filipe”…

Dito isto: aqui há dias mandei uma carta com um postal de Natal lá dentro para um dos muitos “netos” que eu tenho espalhados  por aí.

Estranhei que ele demorasse tanto a responder. Normalmente liga-me logo.

Até que a carta me veio devolvida, com a menção “desconhecido nesta morada.”

Telefonei à mãe (tinha sido ela a dar-me a morada, já há uns tempos,  a perguntar onde é que ela tinha errado. Ou eu…Não seria aquela rua? Não era aquele código?

Ao princípio ela foi dizendo que estava tudo certo, rua, número da porta , código…Até que de repente exclama:

–Ai, espera aí, enganei-me no andar! Não é 4 º andar , é 5º!!

E eu juro que fiquei sem palavras. Então um jovem de 12 anos “é desconhecido na morada”, só porque mora no andar de cima ao mencionado na carta ?
Nunca isso aconteceria na minha rua! O carteiro até poderia enfiar a carta num andar diferente—mas logo aquele de nós que recebesse a carta errada se encarregaria de a enfiar no cacifro certo…

Eu moro num 6º andar.

É evidente que sei quem mora nos outros andares… Mesmo que alguns só cá estejam há pouco tempo.

Somos pessoas, ou não somos?

Repito  : moro num bairro de gente. E acho que não era capaz de morar noutro lugar.

 

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