Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (22º. Episódio)

[sg_popup id=”24045″ event=”onLoad”][/sg_popup]

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

Casa de Hóspedes (22º. Episódio)

Nova hóspede chegou, Lucrécia, de seu nome, jovem morenita de olhos castanhos, ligeiramente amendoados, recomendada pelo Senhor João da farmácia, filha de uma sua segunda prima, com o quinto ano dos liceus prontinho. Dezoito anos feitos, vinha empregar-se na Caixa de Previdência, lugar conseguido por boa vontade do senhor coronel Tiago Dores, pessoa muito influente lá na cidade, baixote, sempre fardado e de botas altas, havia quem o temesse, quem mesmo o odiasse, mas a verdade é que já tinha arranjado emprego a muita rapaziada, desde que lhe caíssem em graça e não se metessem em confusões.

Trouxe duas malinhas com as roupas e outros pertences de afecto, alguns livros, a moldura com o retrato do namorado, pouco mais. Parecia tímida, de poucas falas, delicada, nada de contar a vidinha, nada de perguntas sobre a casa. Dona Júlia gostou, uma menina ainda, fora de casa dos pais pela primeira vez, vinda de tão longe para a grande cidade, achou que se iria afeiçoar a ela, chegou mesmo a pensar na filha que nunca teve, ideias malucas, a miúda era uma hóspede, apenas isso.

Ao jantar, apresentou-a aos outros convivas, ela corou e disse muito prazer, com os olhos na mesa, a mexer e remexer o fio de missangas que trazia ao pescoço, sirva-se, esteja à sua vontade, a mesa agora está um bocadinho mais apertada, mas com boa vontade, ora essa, é um gosto ter uma menina nova e bonita connosco, disse o Sr. Mário, com voz melosa, perante um trejeito de reprovação da D. Adélia. Os rapazes não se manifestavam, o Zeferino teve o cuidado de não tocar com a perna na perna de Lucrécia, pelo menos por agora, pensava, a avaliar a disponibilidade da recém-chegada.

A pouco e pouco, Lucrécia foi-se tornando mais dada a conversas com a dona da casa, já não ia direitinha ao quarto logo que acabava o jantar, ficava às vezes para ver televisão. Gostou da discrição da Dona Júlia, não engraçou com o ar de bisbilhotice da D. Adélia. Ia contando episódios dos seus dias de trabalho lá na Caixa, tudo muito novo para ela, um ror de gente, montes de papéis, carimbos, muitos, não sabia que havia tantos carimbos, de tantos tamanhos e feitios. Dona Júlia achava-lhe graça, a miúda era esperta, falava da família com saudade, principalmente da mãe e do irmãozito mais novo, do namorado nem tanto, casamento era coisa ainda muito longe dos seus sonhos, ele sim, queria, tropa feita, escapara à guerra, graças ao Coronel Tiago Dores, o tal, mas ela achava melhor darem mais um tempo.

 

(continua)

 


Pode ler (aqui) as outras crónicas de Licínia Quitério.


 

Partilhe o Artigo

Leia também