Folhetim | Desvairadas gentes (7º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

DESVAIRADAS GENTES (7º. Episódio)

Ela era uma mulher ruiva, com cabelos naturalmente encaracolados e revoltos, a lembrar labaredas, com a pele pejada de sardas a mancharem o fundo leitoso. As ancas possantes, os seios ainda firmes, os artelhos finos de cavalo de raça, davam-lhe um ar picante que provocava olhares gulosos dos homens do bairro, pouco habituados a mulheres como a Elvina do Marreco. Como resumia o malandreco do empregadito do CAFUNÉ: Apanhá-la…

Davam passeios ao Domingo, de braço dado, pelos jardins da Cidade que sempre recebiam os solitários, fosse a velha senhora de bengala, com um traço irregular de bâton, fossem casais arrastando inquebráveis rotinas, sejam crianças birrentas que mais tarde dirão que tiveram infâncias felicíssimas,ou os inveterados jogadores de sueca “ali a batê-las” como se arriscassem os anos sobrantes. A todos os jardins acolhiam e a ninguém perguntavam ao que vinha nem quem era. Alguns tinham pavões que abriam o leque, num fragor inesperado e afirmativo, e era como se uma deusa por momentos se mostrasse esplendorosa de formas e de cores, a dar um toque raro de beleza àqueles Domingos tão sem graça.

João e Elvina compravam pacotes de amendoins e pevides de abóbora, medidos em barricas de madeira que, em tempos de galhardia, tinham guardado ovos moles. Sentavam-se em banquinhos escolhidos, à sombra de árvores frondosas, com a condição de que não assentassem em terreno em declive. Uma vez, tinham caído nessa e, à custa do esforço continuado de contrariarem a obliquidade do assento, tinham chegado a casa com umas dores nas “cruzes” que durante dias os impediram de retomar a perpendicularidade conveniente. Esta exigência obrigava-os por vezes a estratégias dissimuladas, descrevendo passadas sinuosas e súbitos recuos e avanços no terreno, para serem os primeiros a alcançar o cobiçado assento. Uma vez instalados, trocavam monossílabos e poucas, pouquíssimas frases completas. Nos Domingos de Verão, por volta das seis da tarde, João perguntava: O que é o jantar? Elvina respondia, com um certo ar de fastio nos olhos cor de avelã, por detrás dos óculos de aro de massa translúcida: “Os restos do cozido do almoço.” “Aahn! Então vamos?” Iam. Num pulso a malinha de plástico, creme ou preta conforme fosse Verão ou Inverno, no outro o antebraço do marido com a mão enfiada no bolso das calças.

(continua)

 

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