Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Há que resistir

licinia

 

De ontem e de hoje – Há que resistir
por Licínia Quitério

– Há que resistir! – Respondia invariavelmente a quem lhe atirava o habitual – Como vai isso?-*-oikk

Firmava a bengala no chão, a evidenciar algumas sobras de vitalidade, abria quanto podia os olhos esverdeados, agora enevoados pela poeira do muito tempo vivido, e repetia, com a voz já a quebrar na dentadura que oscilava:

– Há que resistir!

Se o ouvinte era “da cor”, puxava conversa:

– Isto está cada vez pior. E andaram aqueles homens a lutar tanto. Já não há homens assim.

Dava passadas miúdas e apressadas pela sala, como se precisasse de chegar, com urgência, a algum lado.

Falava muito dos seus heróis e pouco dele, um bravo resistente que sofrera longas prisões nos anos de chumbo, sem nunca ceder, sem “rachar”.

Sofreu o que não contava. Que importância tinha o que passara, ao pé do sofrimento dos outros, os que sobreviveram de mente sã ao impensável, os que não resistiram e morreram sem ter denunciado os companheiros, os que foram apanhados num sítio escuso onde um tiro os fez tombar.

Aproveitara os tempos de clausura para se cultivar. Gostava de ler. Aceitava livros, emprestados. O dinheiro não dava para comprar grande coisa. Fora comerciante, como muitos dos seus camaradas perseguidos e apanhados nas rodas trituradoras do regime fascista. Porque eram considerados homens em quem a Pátria não podia confiar, os empregos públicos eram-lhes vedados ou deles os expulsavam, sem apelo nem agravo. Não usara a mesquinhez e a avareza indispensáveis para, na esteira dos corruptos, fazer engrossar capitais. Do trespasse da loja, quando as forças começaram a faltar, ficou-lhe pequena maquia, devorada por inflacções galopantes e mecanismos impiedosos das novas economias mundiais.

– Coitadinhos, dizia dos netos, nasceram num país livre. Só por isto, tudo valeu a pena. Agora, vai ser com eles.

————-

A filha afagava-lhe as mãos, frias, arroxeadas. A ferroada no peito cada vez mais forte, a alargar-se em cruz para os braços, insuportável. Levaram-no para a urgência do hospital, onde chegou, como disseram os técnicos, já cadáver.

O caixão foi coberto pela bandeira do seu Partido em cujas causas acreditara e pelas quais lutara toda uma longa vida. Na casa mortuária, uma beata benzia-se e rezava-lhe por alma. Como ele se devia rir, lá dentro, já sem perseguições nem decepções. Não perderia a oportunidade para uma boa imprecação:

– Coitadita, não é má mulher, mas sempre foi muito burra. Talvez ainda vá parar ao Governo.

Licínia Quitério

 

 

 


Licínia Quitério
Licínia Correia Batista Quitério nasceu em Mafra em 30.Jan.1940. Foi professora, tradutora e correspondente comercial. Tem publicados oito livros de poesia – A decadência das falésias; Da Memória dos Sentidos; De Pé sobre o Silêncio; Poemas do Tempo Breve; Os Sítios; O Livro dos Cansaços; Memória, Silêncio e Água; Travessia (Menção Honrosa do Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant’Anna 2019). Participou nas Antologias de Poesia – Cintilações da Sombra 2 e 3; Clepsydra; A Norte do Futuro; 13 Poetas Portugueses Contemporâneos (bilingue). Publicou os seguintes livros de ficção –  Disco Rígido (contos); Disco Rígido (contos) – Volume II; Os Olhos de Aura (romance); A Metade de um Homem (romance); A Tribo (romance); Mala de Porão (romance). Tradução (do castelhano): O Vizinho Invisível, de Francisco José Faraldo

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Licínia Quitério.


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One Thought to “Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Há que resistir”

  1. Maria Clara Pimentel

    Uma crónica que é mesmo cónica.De época, uma época que esperemos que não torne.Escrita com humor, ainda que amargo, e com a mestria a que Licínia Quitério nos habituou.

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