Crónica de Jorge C Ferreira | Um grande Amigo

Jorge C Ferreira

 

Um grande Amigo
por Jorge C Ferreira

 

Era um enorme Amigo e tinha um MG de colecção. Um MG vermelho e preto com cromados que brilhavam. Uma grelha frontal, linda, vistosa. Uma festa de carro. Foi um amigo muito chegado. Um Amigo de Amar. Porque os Amigos também se amam. Momentos únicos. A nossa ligação era muito estreita. Sabíamos tudo um do outro. Não tínhamos vergonha de nos beijar.

Muitas vezes vinha-me buscar ao banco. Parava o carro em cima do passeio na Rua dos Sapateiros e ia à portaria para me chamarem. Eu descia, entrava no carro e partíamos para a aventura. Sentíamo-nos especiais quando íamos naquele carro. Quando as pessoas olhavam para nós e apreciavam a luz especial que dali irradiava. Uma certa vaidade viajava connosco. A franja dele e os meus caracóis. Tudo era possível.

Um carro que envelheceu connosco. Um carro de múltiplos encontros e desencontros. Da baixa saíamos para a Avenida de Roma. Algumas vezes parávamos na “Mexicana”. Depois regressávamos à Estefânia, ao Jardim de Cesário Verde, onde tínhamos uma esquina para todas as intermináveis conversas. Ali passámos grande parte da nossa vida. Ali nasceram ideias incríveis e ali planeávamos coisas de improvável execução. Ali sonhámos e fomos crescendo. Havia um grupo de meninas nossas amigas. Alguns namoros aconteceram. Havia um colégio feminino particular, Infanta D. Joana, que algumas amigas frequentavam. Os bailes em casas particulares. O yé-yé e os inevitáveis slows.

O grupo de rapazes era alargado. Todos em busca de uma vida que se vestisse de alegria. Os tempos eram difíceis. Os ajuntamentos não eram muito bem vistos. Tínhamos um amigo Americano e também um vindo de uma ex-colónia portuguesa e ligado à “Casa dos Estudantes do Império”.

Um grupo heterogéneo que deixava libertar ideias e opiniões. Ainda éramos muito novos e tínhamos o cutelo de uma guerra horrenda sobre a nossa cabeça.

Apareciam discos de cera. Lembro-me de um do Luís Cília. Canções de denúncia e contra a guerra colonial. Canções pela liberdade. Discos que estavam proibidíssimos em Portugal.

Também o nosso amigo americano nos trazia outras novidades. O “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles foi uma dessas novidades. Um disco que foi ouvido e mais que ouvido. Uma fase nova desses nossos ídolos da altura. Uma nova linguagem.

Era tanto o que acontecia a partir daquela esquina do jardim, onde cheguei a tirar, quando era mais pequeno e me mascaravam, fotografias à la minute. A magia do olha o passarinho, o balde, o revelador e uma outra magia que prefiro manter assim para todo o sempre.

No jardim havia um busto do Poeta. E nós sabíamos de cor o seu poema, “Naquele piquenique de burguesas”. Éramos e ainda somos, os que restam, amigos muito ligados. Dali ao nosso café eram dois passos. Do café até ao resto do mundo era outro passo. Um mundo que nos estava proibido de ver. Ainda faltava o malfadado Serviço Militar Obrigatório e a criminosa guerra.

Um dia o meu Amigo partiu. Foi mobilizado para a guerra. Foi para uma colónia no Índico. Foi e por lá ficou depois da tropa. Foram muitos anos afastados. Quando regressou, tínhamos vidas diferentes. Estávamos casados. Tínhamos filhos. Vivíamos em sítios diferentes. A esquina do Jardim foi ficando vazia. Nunca mais lá fui. São lugares que se vivem uma vez na vida.

Meu querido Amigo é para ti esta crónica onde quer que estejas. Fui à tua última despedida. Depois alguns de nós fomos jantar e tu estiveste sempre presente. Sabes, um dos teus irmãos levou o filho. Temos continuidade. Para mim estarás sempre presente na minha vida. Um beijo.

«Bonita história. Esse grupinho devia ser jeitoso!»

Fala de Isaurinda.

«Éramos bons rapazes. As coisas do costume.»

Respondo.

«Faço ideia! Se essa esquina do Jardim falasse…»

De novo Isaurinda e vai, uma gargalhada solta.

Jorge C Ferreira Março/2022(341)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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17 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Um grande Amigo”

  1. Coutinho Eulália Pereira

    Excelente. As memórias que prevalecem no tempo.
    Misto de saudade e nostalgia. Amigos para a vida.
    Não posso deixar de regressar ao passado. Recordar a cumplicidade de amigas com partilhei bons momentos.
    Amizade é amor maior. Não conhece distâncias. É para os bons e maus momentos.
    O seu Amigo, onde estiver, estará feliz .
    Uma bela história.
    Grata meu Amigo, pelo privilégio de ler os seus textos e poemas. A nossa geração tem tantas vidas numa vida.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Amigos que não partem. Amigos qua andam sempre connosco. Amigos de amar. Abraço grande

  2. Filomena Geraldes

    ” Os amigos também se amam”
    O que é o amor senão uma amizade soldada? Fundida. Feita amálgama.
    Uma peça de barro moldada a duas mãos?
    Uma sinfonia de piano tocada em dueto?
    Um prato confeccionado com a delicadeza de temperos que se completam, de refogados que se inalam, de provas múltiplas, a dois?
    Um filme que desperta emoções, induz a intermináveis diálogos e
    é motivo de aproximação e sintonia? A dois.
    Um poema que brota de uma palavra que foi dita, um olhar trocado ou um pensamento comum? A dois.
    Um vai e vem. Uma breve viagem. Um encontro nunca adiado. A cumplicidade partilhada. Um não
    ser preciso dizer. Um brilho de olhos. Sorrir. A dois.
    A espera que não é espera. O vulto ansiado.
    A presença que conforta. O abraço sem cuidados. O beijo da inocência.
    A pele que se sente. A confidência que se não mascara.
    A empatia. A rosa-dos-ventos. O mesmo norte. O caminho que se percorre. Lado a lado. Até um dia…

    Jorge.
    Como é possível continuar a ler-te
    e ficar com a impressão que tens sempre algo de novo para nos contares? Esse novo que afinal, não
    é tão novo assim? Amizade real
    não tem tempo.
    É indissolúvel.
    Apenas a presença física é interrompida.
    A amizade? É o amor no seu estado mais puro. É encontro de almas. Gémeas.
    Obrigada, meu amigo. Meu poeta.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Os Amigos amam-se sempre, antes e depois de tudo. São o nosso porto de abrigo. A conversa que nunca acaba. Temos de aprender a Amar. Abraço imenso

  3. Cristina Ferreira

    Memórias bonitas de amizades especiais – Uma Benção.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Cristina. Coisas que não esquecemos que vivem em nós para sempre. Momentos únicos. Abraço grande

      1. Cristina Ferreira

        ❤️

  4. Maria Matos

    Que maravilha… revermo-nos na nossa juventude…
    Não a passei em Portugal, mas como eram idênticas as amizades… Os amigos do peito ( ainda guardo três de há anos… são irmãos com quem mantenho sempre contacto!
    Obrigada, Jorge… por esta jóia que foram as nossas recordações.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Matos. As amizades são transversais e atravessam continentes. Ter um Amigo no fim do mundo e saber dele. Amigos para sempre.

  5. Maria Luiza Caetano Caetano

    Um amigo de amar. Os amigos também se amam e se beijam sim. O amor é o mais belo dos sentimentos. Maravilhoso! O Jorge é mesmo uma pessoa muito especial.
    Que bela foi essa amizade. Gostava de vos ter visto, dentro desse fabuloso carro, de franja ao vento e caracóis à solta..
    Que juventude bem vivida, que belos encontros no jardim de um poeta. A poesia já lhe fazia companhia. Uma horrível guerra , vos separou. Para tão longe ele foi. Mas a amizade permanece.
    Apenas as vidas se modificaram.
    Que amizade tão especial e fiel a sua, meu amigo. Adorei e comovi-me, tantos amigos separados pelo peso do serviço militar, de um tempo tão triste.
    Obrigada, por nos mostrar como é bonita a amizade e lindo o seu sentir.
    Abraço imenso, querido escritor.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Os amigos amam-se e beijam-se porque é essa a linguagem da amizade. Estar longe e senti-lo perto. Tê-lo sempre connosco. AMAR. Abraço imenso.

  6. Regina Conde

    Lugares que conheço e imagino a vossa alegria de viver as loucuras saudáveis. Tão bom amarmos os Amigos. Naqueles verdes anos a vida feita de confidências e ausência de ponderação. A vida é para viver e os Amigos assim fizeram. Hoje, a saudade é vivida colectivamente. Preciosa crónica meu Amigo. Até já num abraço de verdade.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Os lugares de todos os encontros. O encontro de todos os Amigos. Amigos nossos para sempre. Tudo selado por um beijo. Abraço grande

  7. Ivone Maria Pessoa Teles

    Querido amigo Jorge, é tão bom recordar os nossos dias de juventude ! Tu és, também, um ” fazedor de passados. ” Como calculas, eu como rapariga e outras mais, éramos mais que os rapazes. Os locais de encontro, na rua, tinham mil olhos para nos ” controlarem “. Mas tive uma infância e adolescência muito FELIZ. Faltavas lá tu e os teus caracóis. .Gostei muito deste teu ” relato “, tão simples e real. A guerra das colónias ” apanhou-me mais tarde. Já namorava e havia o medo de quem podia ser mobilizado. Não aconteceu, mas houve amigos que foram.
    A tua história linda,,sempre. Beijinhos amigos/ abraçados.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Ivone. Retalhos da nossa vida. A amizade jurada. O beijo dado. Foram tempos difíceis, mas com muita aventura vivida. Tão bom o que dizes. Abraço enorme

  8. Branca Maria Ruas

    As memórias e a nostalgia andam ligadas. E a saudade dos Amigos que não voltamos a poder abraçar também. Há Amizades que não se esquecem. Laços que se criaram na época em que ainda não pensávamos na efemeridade de tudo. Lembranças da juventude. O desejo da Liberdade. Os sonhos. O que ficou pelo caminho e os novos caminhos. O passado e o presente. Do futuro nada sabemos.
    Obrigada por este “passeio” pelo passado da nossa geração.
    A geração das grandes mudanças.
    A geração que sonhou viver em LIBERDADE e com PAZ!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. Sim, o “make love not war”, o “peace and love”, o “é proibido proibir” e nós encurralados num país com um ditador provinciano e maquiavélico que nos eniava para a guerra. Íamos amando como podíamos. Amigos que ainda estão todos connosco. Abraço imenso

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