Crónica de Alice Vieira | Saudades de Camélias

Saudades de Camélias
Alice Vieira

 

“Então o que vai ser hoje, menina?”

É por estas e por outras iguais a esta que fujo dos hipermercados e tento o mais possível abastecer-me nos mercados da terra (ou da freguesia…)  : só mesmo aqui, neste mercado perto da minha rua, é que eu ainda sou menina.

Sorrio,  enquanto a rapariga vai gabando as virtudes da mercadoria, “por acaso as rosas até nem estão muito caras, e se a menina lhes deitar o pó desta saqueta duram muito mais. E temos umas cravinas lindas…Já para não falar das gerberas…”

Antes que ela enuncie todo o jardim que tem nas suas prateleiras, dou comigo a perguntar:

“E camélias? Não tem camélias?”

E a rapariga olha para mim, espantada:

“Camélias, menina? É muito raro haver agora camélias! Acho mesmo que nem deve ser o tempo delas, sempre ouvi dizer que camélias são flores de inverno…E mesmo que fosse, hoje já ninguém compra camélias, a menina sabe como é, há modas para tudo, e hoje o que as pessoas querem é ramos assim muito bem armados, há floristas que até poem uns ananazes no meio do arranjo, e umas joaninhas de madeira, e uns passarinhos de plástico espetados num pau…Eu por acaso nunca ponho…Mas até nem acho feio…São as modas…”

Pára por momentos, e depois insiste:

“E a menina por que não leva estas rosas? É sempre o que a menina costuma levar…”

De repente deixei de a ouvir, de repente ela está muito longe de mim, de mim que, de repente tenho 15 anos, e vou encontrar-me com o namorado que então amo desvairadamente,  e que hei-de voltar a amar muitos anos depois, e já sei o que, neste dia,  ele tem sempre  para me dar. Porque estamos no dia 1 de Setembro.

Murmuro:

“O meu primeiro namorado ia ter comigo ao liceu e levava-me sempre camélias neste dia.. Para festejarmos o nosso primeiro encontro… E eu tinha sempre muito medo que a minha mãe visse, e me perguntasse donde é que tinham vindo aquelas flores…E por isso enfiava-as dentro da pasta do liceu… E elas aguentavam…E nunca ninguém me disse que eram flores de inverno”

A rapariga não parece comover-se com histórias românticas.

Mas , à laia de consolação , sempre me vai dizendo que às vezes, de quando em quando, lá vão aparecendo camélias, mas é raro.

“ Se a senhora quiser, eu aviso quando receber camélias e guardo-as para si. A senhora pode ficar descansada.”

E eu acabo por aceitar a sugestão das rosas, que remédio. Logo, quando as puser na jarra, mesmo em frente ao retrato do meu namorado, hei-de pedir-lhe desculpa por não serem camélias . E, onde quer que ele  esteja, tenho a certeza de que vai entender.

E hei-de contar-lhe também que, de um momento para o outro, deixei de ser “menina.”

O que até se compreende: quem tem saudades de “flores tão antigas”, neste mundo de coisas estranhamente modernas, como ananazes  e joaninhas de madeira e passarinhos de plástico em ramos de flores, não merece outra coisa.

 

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